Arruda infiltra comparsas na CPI para postergar as investigações
Comissões
que analisarão os pedidos de impeachment também sofreram ataques
No
primeiro dia de trabalho após o recesso de final de ano, manifestantes
ocuparam o gramado em frente à Assembléia Distrital de Brasília exigindo a
saída do governador Roberto Arruda e de seu vice, Paulo Otávio, comandantes
da “quadrilha do panetone” que, segundo avaliação da Polícia Federal,
movimentou propinas que ultrapassam 500 milhões de reais.
Arruda e seus aliados foram filmados pelo
ex-secretário do GDF, Durval Barbosa, recebendo pacotes de dinheiro de
empresas que prestam serviços ao governo. O escândalo envolvendo o DEM e o
PSDB de Brasília estourou no dia 27 de novembro, quando a Polícia Federal
deflagrou a operação Caixa de Pandora. No inquérito, o governador é apontado
como o cabeça de um esquema de distribuição de propina a deputados
distritais e aliados.
Um dos envolvidos, o presidente da Câmara
Legislativa do DF, Leonardo Prudente (DEM), filmado enfiando dinheiro em
todos os bolsos e até na meia, decidiu afrontar a opinião pública e
reassumiu o cargo na segunda-feira (11), do qual havia se afastado desde o
início do escândalo. Sua intenção com o retorno era garantir que os
integrantes da quadrilha ocupassem os principais postos nas comissões que
deveriam investigar o escândalo. Com a manobra, ex-secretários de Arruda
assumiram o controle das três comissões.
O deputado Alírio Neto (PPS), ex-secretário do
governador Arruda, foi eleito presidente e Raimundo Ribeiro (PSDB), também
ex-secretário do governo, foi nomeado, pelo próprio Alírio, como relator da
CPI do panetone. O vice será o deputado Batista das Cooperativas (PRP),
outro integrante do grupo de Arruda. Eleita para a CPI, a deputada Eliana
Pedrosa (DEM-DF) foi do secretariado de Arruda. Ela também teve seu nome
envolvido nas denúncias. As empresas de seu filho e de sua irmã são acusadas
de terem contratos irregulares com o governo. Eliana deixou a Secretaria de
Desenvolvimento Social para ajudar Arruda na Câmara.
Para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ),
primeiro local onde os três processos de impeachment serão analisados, foram
escolhidos os deputados Batista das Cooperativas (PRP); Eurides Brito (PMDB)
- que aparece em um dos vídeos enchendo a bolsa de dinheiro; Geraldo Naves (DEM);
Chico Leite (PT); e Dr. Charles (PTB). Naves foi escolhido como presidente e
Charles, vice. Geraldo Naves escolheu o deputado Batista das Cooperativas
(PRP) como relator dos processos de impeachment. Ele tem 20 dias para
analisar os requerimentos e dar um parecer. Se aprovados, os processos
seguem para a Comissão Especial. Esta também elegeu os deputados Cristiano
Araújo (PTB); Alírio Neto (PPS); Chico Leite, Batista das Cooperativas e
Geraldo Naves.
A manobra dos deputados, desrespeitando a
opinião pública e preparando a operação abafa nas investigações, segue a
mesma linha do governador Arruda que, em reunião na semana passada, deu
gargalhadas na frente da TV ao falar da roubalheira. Ele disse que perdoava
“aqueles que ofenderam” a sua “honra”. Esse desdém do governador com a
população não é de agora. Arruda é reincidente. Ele negou de forma veemente
em 2001 que tivesse violado o painel de votação do Senado quando era líder
do governo FHC e, logo em seguida, ao ser desmentido por testemunhas, voltou
à tribuna para, sem a menor cerimônia, dizer que tinha mentido. Renunciou
para não ser cassado. Agora, pego em flagrante novamente, volta a mentir.
Ao que parece o “quase vice” de Serra não está tendo a noção exata da
gravidade de sua situação. Os organizadores dos protestos contra a corrupção
prometem não dar sossego aos ladrões encastelados no Palácio do Buriti.
Para consumar o golpe nas comissões, o deputado
Leonardo Prudente impediu a entrada das lideranças populares no interior da
Assembléia Distrital. Contou para isso com a ajuda de Arruda, que, mais uma
vez, jogou a Polícia Militar contra a população. Os manifestantes
enfrentaram a violência policial. Denunciram também um grupo de funcionários
públicos coagidos por Arruda para “apoiar” a permanência da sua quadrilha.
Segundo comunicado assinado por Prudente, “tendo em vista um parecer da
Coordenadoria de Segurança da Câmara” o acesso às dependências da Casa não
será liberado para o público. Ele informou também que decidiu retornar ao
cargo porque “é um direito constitucional”.
Paulo Tadeu (PT-DF), único integrante da
oposição na CPI, argumentou que as investigações têm que ser levadas a
sério. Ele apresentou dois requerimentos. Um deles convocando o
ex-secretário Durval Barbosa. O outro solicitando informações ao Superior
Tribunal de Justiça (STJ) sobre o inquérito da operação da PF. Raimundo
Ribeiro (PSDB) orientou a rejeição dos requerimentos. A votação foi adiada.
As propostas vão ser votadas na quinta-feira. A maioria dos integrantes da
comissão é composta por deputados que recebiam propina. Portanto, não estão
ali para investigar nada.
Ao contrário. Para tentar intimidar a oposição,
o deputado distrital Geraldo Naves (DEM) leu, durante a sessão da CPI, um
requerimento em que os integrantes da máfia pedem o afastamento do
vice-presidente da Casa, Cabo Patrício (PT). Em resposta, cinco deputados de
oposição protocolaram pedido de afastamento de Leonardo Prudente até que
sejam concluídos os processos que tramitam contra ele. Nas ruas, a multidão
em frente ao prédio mostrava que não vai parar enquanto os ladrões não forem
punidos.
SÉRGIO CRUZ