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Cratera do Metrô completa 3
anos sem responsáveis punidos
“A morte de
Wescley foi culpa de alguém que não foi punido”
Thaís Ferreira
era mulher do cobrador Wescley Adriano da Silva, de 22 anos, que foi tragado
pela cratera quando entregava os convite do chá de bebê de seu filho, Cauã, hoje
com 3 anos
O
terrível acidente no canteiro de obras da futura estação Pinheiros do metrô de
São Paulo, que causou a morte de sete pessoas e deixou 65 famílias desabrigadas
no dia 12 de janeiro de 2007, completou três anos na última terça-feira. As
investigações levaram à abertura de processo criminal por homicídio culposo
contra 13 pessoas. Contudo, nenhum agente político foi responsabilizado pela
tragédia. Apenas técnicos do Metrô e do Consórcio Via Amarela (responsável pela
obra) foram apontados como responsáveis pelo acidente e acusados de imprudência
e negligência.
E a morte de pessoas como Wescley Adriano da Silva, o cobrador de 22 anos que
foi tragado pela cratera, está impune. Indignada, Thaís Ferreira Gomes, a viúva
de Wescley, estava grávida à época do acidente. Cauã tem hoje três anos e recebe
mensalmente R$ 590 do acordo feito com a construtora da obra.
“Sofro por ter perdido o pai do meu filho. A mãe dele sofre também por ter
perdido um filho. Sinto que a morte do Wescley foi causada pela
irresponsabilidade de alguém que não foi punido ainda”, afirmou Thaís à
reportagem do canal R7 de notícias.
O desmoronamento do canteiro de obras abriu uma cratera de 80 metros de diâmetro
e 30 metros de profundidade, que engoliu quatro caminhões, dois carros e uma van.
Segundo as construtoras responsáveis pelo trabalho – o consórcio formado por
Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Alstom e
Siemens – o acidente aconteceu devido à instabilidade do solo da região,
agravada pela chuva.
No entanto, operários da obra já previam o risco de desabamento meia hora antes
do acidente e nenhuma medida foi adotada para evitar a tragédia. Na véspera do
acidente, técnicos do consórcio também haviam detectado uma rachadura na parte
superior do túnel próximo à estação Pinheiros. O desabamento foi 11º acidente
grave nas obras da Linha 4, que já havia registrado afundamento e rachadura de
imóveis, rachaduras na linha e vazamentos de gás.
As autoridades vinham sendo alertadas pelo Sindicato dos Metroviários de São
Paulo, por deputados e entidades populares. Mas, após o acidente, o
comportamento dos responsáveis – incluindo o governador José Serra – continuou
sendo de omissão frente às tristes consequências do trágico acidente. “A obra é
de responsabilidade das construtoras, inclusive a segurança dela. Elas ganharam
a concorrência”, afirmou o governador, em seu único pronunciamento sobre o
assunto.
Sem perceber, Serra expunha a raiz dos problemas que fizeram desabar o túnel na
estação Pinheiros: omissão do governo do Estado e ganância do Consórcio Via
Amarela. O fato é que o governo estadual se omitiu totalmente quando assinou um
contrato do tipo “fechado” para a execução da obra, também conhecido como “turn
key”, com o qual transferiu ao consórcio a definição do modelo de construção, o
projeto e a fiscalização.
O promotor de Justiça que chefiou as investigações do acidente pelo Ministério
Público Estadual, Arnaldo Hossepian Jr., declarou ao comentar o caso um ano
depois que o desabamento “não foi um acidente, foi um crime”. O laudo do
Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo apontou que o fator preponderante
foi a não paralisação das obras, uma vez que na véspera do acidente já havia
indícios de que o canteiro poderia ruir.
A poucos dias de a tragédia completar dois anos, a denúncia do Ministério
Público concluiu que se desconsiderou a incompatibilidade entre o projeto e a
execução da obra, que não havia supervisionamento, que não foi feita nenhuma
adaptação do projeto à realidade revelada durante a escavação, entre outras
falhas ou omissões do gênero. Apesar disso, a denúncia não incluiu os
verdadeiros responsáveis pela obra, sendo dirigida contra cinco funcionários do
Metrô e oito do Consórcio Via Amarela.
Na peça de acusação, Hossepian Jr. ressaltou que as mortes poderiam ter sido
evitadas caso o entorno do local tivesse sido interditado para o trânsito de
veículos e pedestres “logo aos primeiros sinais do estado de risco iminente de
ruptura do local (desmoronamento), sinais esses que possibilitaram a evacuação
do subsolo”.
Marco Antonio Buoncompagno, José Roberto Leite Ribeiro, Cyro Guimarães Mourão
Filho, Jelson Antonio Sayeg de Siqueira e German Freiberg estão entre os
funcionários do Metrô denunciados. Os funcionários do Consórcio Via Amarela são
o engenheiro Fabio Andreani Gandolfo, diretor do Consórcio, José Maria Gomes de
Aragão, Alexandre Cunha Martins, Takashi Harada, Murillo Dondici Ruiz, Alberto
Mota, Osvaldo Souza Sampaio e Luis Rogério Martinati.
Um laudo divulgado no dia 6 de junho de 2008 pelo IPT (Instituto de Pesquisas
Tecnológicas) procura isentar de responsabilidades os chefes do governo de São
Paulo pelo acidente. O documento cita, por exemplo, a aceleração da obra, sem,
no entanto, designar quem seria o responsável pela ordem e de onde ela partiu. O
IPT chega a isentar o Metrô da verificação da estabilidade das estruturas –
segundo o estudo, o Consórcio Via Amarela era responsável por todos os riscos da
construção.
Ainda assim, juristas especializados em direito administrativo são quase
unânimes em apontar que os agentes políticos do Estado deveriam ser
responsabilizados pelo acidente. “Ao descrever as causas, o IPT pode identificar
falhas do projeto na execução e na qualidade dos materiais. Mas, quanto ao
projeto e à execução, a responsabilidade é do órgão que contratou, uma
responsabilidade objetiva”, afirmou Marcio Cammarosano, advogado especializado
em direito administrativo e professor da PUC-São Paulo. |