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Cristina Kirchner defende uso de reservas em encontro no banco La Nación:
“Ação junto ao BC foi para impedir especulação com juros da dívida”
Presidente
do Banco Central foi destituído após descumprir orientações do governo.
Cristina fez alerta sobre “fundos abutres da especulação” que “querem usar
garras contra a Argentina”
O
governo argentino destituiu o presidente do Banco Central, Martin Redrado,
no dia 7, por “descumprimento de deveres do servidor público”, depois que
este desacatara decisões da presidente Cristina Kirchner.
Em primeiro
lugar, Redra-do protelou durante mais de 20 dias a execução da decisão do
governo de criar - por Decreto de Necessidade e Urgência (similar à medida
provisória no Brasil) - o Fundo do Bicentenário para pagar a dívida pública
em 2010 com US$ 6,5 bilhões de reservas cambiais do BC, cuja totalidade é
hoje de US$ 48 bilhões.
Depois disso,
ainda recusou-se a abrir uma conta especial do Tesouro no Banco Central que
autoriza o primeiro a dispor dos dólares das reservas para esse pagamento de
dívidas. Argumentou uma genérica preocupação com a possível escalada da
inflação quando ela esta sob controle com meta estabelecida pelo governo de
6% para 2010. Disse também que não podia concordar “com o estímulo fiscal da
medida”, porque assim o governo libera US$ 6,5 bilhões do orçamento para
investir em obras públicas e programas sociais e insistiu na “necessidade de
voltar aos mercados sem atalhos”.
REDUZIR JUROS
“Para o BC
aplicar a Resolução seria um mero registro contábil porque não implicaria no
momento a saída de nenhum dólar das reservas”, esclareceu Amado Boudou,
ministro de Economia. O mecanismo aprovado foi de constituir um Fundo de
Garantia e não de pagamento. Na Lei de Orçamento 2010 se estabelecem as
previsões de recursos para enfrentar o pagamento dos serviços da dívida. “O
objetivo que se busca com este Fundo é reduzir a taxa de juros da dívida
externa. Ele funciona como um seguro de que a Argentina vai cumprir seus
compromissos, por conseqüência diminui a chamada taxa de risco país, com o
que enfrentará juros menores que os previstos no Orçamento”, assinalou o
ministro, frisando que “não queremos que a dívida nos paralise, que o
dinheiro saia do necessário investimento para desenvolver o país”. Os 6,5
bilhões de dólares representam 37% das chamadas reservas internacionais.
Respondendo aos
que defendem a “independência do Banco Central”, Boudou reafirmou que a
política econômica é uma só e a política monetária forma parte da mesma.
“Uma clara referencia disso é que na Carta Orgânica do BC da República
Argentina se determina que o Banco é o ‘agente financeiro do Estado Nacional
e depositário e agente do país perante as instituições monetárias, bancárias
e financeiras internacionais às quais a Nação tenha aderido’ (Inciso c do
Art. 4 da Lei 24.144 C.O do BC), por isso, se é o Governo Nacional quem tem
como missão e função a de administrar os compromissos externos, é também
quem esta facultado para adotar mecanismos neste sentido”, sublinhou.
Cristina
Kirchner defendeu o Fundo do Bicen-tenário “para garantir o pagamento dos
compromissos durante 2010, sem recorrer a empréstimos e adiantando-se para
impedir o aumento de juros de uma dívida que deixaram os anteriores
governos. Deve haver os que querem que continuemos tomando dívida, a taxas
maiores, porque obviamente sempre a especulação financeira é um negocio
muito importante, se não perguntem aos fundos abutres, que estão ali
latentes e esperando para ver quando podem usar suas garras sobre a
Argentina”, disse a presidente durante um discurso no Banco Nación, no dia
11, em que anunciou créditos para produtores de trigo.
Lembrou que em
2003, quando Nestor Kirchner assumiu o governo, a dívida externa era de 160%
do PIB, enquanto que neste momento está pouco acima de 40%.
RESERVAS E
FMI
A presidente
destacou que em 2006, quando a Argentina cancelou a dívida com o FMI de 9,5
bilhões de dólares, com a concordância do próprio Redrado, foram usados
“quase 100% das reservas disponíveis de quase 10 bilhões de dólares, com um
PIB de 180 bilhões de dólares” e que agora “temos 305 bilhões de dólares de
PIB e o Fundo do Bicentenário representa só um terço das reservas e se
utilizará para o benefício do povo argentino”.
Cristina
Kirchner denunciou, a existência de uma “manobra política e da mídia, com
ajuda de setores da Justiça”. Referiu-se à juíza María José Sarmiento que,
articulada com os grupos de oposição, liderados pelo vice-presidente Julio
Cobos, transformou em ações ordinárias as medidas cautelares que tinha
concedido na última sexta, anulando os decretos de criação do Fundo e o que
exonera Redrado. Assim, dilata pelo menos uma semana o recurso apresentado
pelo governo.
Os advogados do
funcionário dizem que Carta Orgânica do BC foi violada com a destituiçãoi
sem a participação de uma comissão bicameral do Parlamento que tem apenas
caráter consultivo não vinculante. “Uma autoridade monetária não pode estar
acima do governo eleito democraticamente e sua aptidão técnica deve estar a
serviço de um modelo econômico que é determinado pelo governo coletivamente
e não por um homem só que se diz ‘autônomo’. O coro que a oposição fez em
torno dele fala em legitimidade, em respeito às instituições. Qual é a
legitimidade de um presidente do BC que se reúne com todos os representantes
da oposição, convocados com o principal detrator da legitimidade que é o
vice-presidente Cobos, eleito na base de um programa e hoje conspurca seu
cargo, afirmou o chefe de Gabinete, Aníbal Fernández.
SUSANA SANTOS |