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Os BCs devem apoiar as políticas econômicas definidas pelo
voto
“...que os BCs apoiem
objetivos múltiplos: a inflação alta é uma calamidade, como também o são a
desocupação e a depressão econômica”, afirma o senador Eric Calcagno em seu
artigo denominado Tempestade em copo dágua, do qual
publicamos principais trechos.
ERIC CALCAGNO*
Existe uma desproporção entre a constituição
do Fundo do Bicentenário para garantir o pagamento de vencimentos de dívida
pública em 2010 e as repercussões movidas por vários setores políticos:
ações judiciais, anúncios catastrofistas.
O “uso das reservas” para pagar dívida é
apontado como grande problema porém estas reservas são mais que suficiente
para cobrir as necessidades do comércio exterior, desalentar presiones
especulativas e administrar o cambio conforme definido; além disso, no ano
de 2010 se prevê novos excedentes na conta corrente da balança de pagamentos
e o acúmulo de mais reservas.
Também não se pode pretender que se trate de
um financiamento fora de órbita: seu montante é de de cerca de 2% do PIB, um
financiamiento que em termos internacionais é muito moderado.
E ainda, em que pese a política anticrise que
expandiu os gastos públicos e o impacto da crise sobre a arrecadação
tributária, a Argentina é um dos poucos países que em 2009 apresentaram
contas fiscais equilibradas o ano terminará provavelmente com um pequeno
excedente fiscal primário e não com um déficit imanejável com em outras
épocas.
O Fundo do Bicentenário não gera nenhum
desequilibrio externo, nem fiscal, nem monetário. Busca dar aos operadores
financeiros uma mostra de solvência que melhore e barateie o accesso ao
crédito para o setor público e o privado, sem que isso signifique voltar a
depender dos capitais externos. Porque tanta revolta?
O que ocorre é que esta medida põe em
evidência a contradição entre um modelo econômico que recuperou a capacidade
para realizar políticas ativas de desenvolvimento econômico e os resquícios
da política neoliberal dos anos 90.
Um postulado central do neoliberalismo é que
são mercados desregulados e não o Estado os que deben orientar recursos,
determinar a distribuição dos ingressos e assegurar a autorregulação da
economia. Além disso, os países subdesenvolvidos devem atrair “poupança
ezterna” (quer dizer endividamento) para poder incrementar seus
investimentos e assim se desenvolver. Para isso deve-se ter juros elevados
e, sobretudo, inspirar confiança aos “mercados”. A forma de dar confiança
aos operadores destes “mercados” é retirar o Estado da economia: privatizar,
flexibilizar o trabalho, desregular, dar importância ao FMI... e delegar
grande parte da política económica a um BC “independente”.
Os resultados nos planos econômico e social
são bem conhecidos: perda de competitividade, forte queda do PIB, dos
investimentos e do emprego, maior desigualdade na distribuição de renda,
quebras, crise bancária, cambial, fiscal de balança de pagamentos, tudo
agravado com o superendividamento do Estado e a privatização das empresas
públicas.
A dívida externa por grande parte das
decisões soberanas nas mãos dos credores e do FMI nos anos 90. As atitudes
de submissão a estes poderes não foram efetivas para recuperar a economia.
Ao contrário, o resurgimento eonômico veio de
uma recuperação da soberania. A renegociação da dívida externa, a nova
política cambial e os subsequentes excedentes comerciais nos permitiram
liberar-nos da tutela do FMI e avançar no desendividamento externo. A
revalorização das aposentadorias e dos salários mínimos, o relançamento dos
mecanismos de negociação salarial, permitiram a expansão do consumo popular
que deverá se aprofundar para avançarmos rumo a uma sociedade mais justa.
Assim, podemos ver que a extensão do “espaço
de política” do Estado tem sido crucial para a recuperação econômica. Isto
rompe com a ortodoxia neoliberal, para a qual o Estado debe deixar que
funcione o “piloto automático” dos mercados. Também se viu que foi possível
aumentar os investimentos (de 12% para 24% por ciento do PIB entre 2002 e
2008) sem recorrer à “poupança externa”. Isto não quer dizer que alguns
capitais que aportem investimentos genuínos e tecnologia não possam ser
importantes para o desenvolvimento nacional: simplesmente não devemos
organizar toda a economia com o único fim de atraí-los nem outorgar-lhes
privilégios tributários ou garantir seus ganhos.
O aparato de Estado sofreu quase três décadas
de crise e neoliberalismo; ainda existem ordenamentos institucionais própios
daquela época. Assim segue vigente a “independência” do Banco Central com
relação aos poderes eleitos, ainda que nem sempre tenha sido independente do
establishment financeiro.
Aparentemente, as medidas adotadas pelo BC
seriam somente técnicas (não políticas) para alcançar un único objetivo
central: evitar a inflação. Na prática, as decisões monetárias são
essencialmente políticas já que incidem na distribuição do crédito, na
fixação dos juros e por consequencia no câmbio e portanto determinam ganhos
ou perdas a devedores e credores e diferentes setores da atividade. Tais
decisões não abarcam toda uma política econômica, mas a condicionam em
vários aspectos centrais.
É necessário que os Bancos Centrales
contribuam com a política económica definida pelo voto popular e que
persigam objetivos múltiplos: a inflação alta é uma calamidade, como também
o são a desocupação e a depressão econômica. A arte do banqueiro central é
identificar os problemas reais e as soluções possíveis. A autonomia bem
entendida é a que deixa margem ao Banco Central para a aplicação de
determinadas políticas decididas pelos poderes eleitos, mas não se deve
deixar nas suas mãos a definição nem a oportunidade dessas políticas.
*Senador
argentino pela Frente Para a Vitória
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