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Project Censored: notícias mais abafadas pela mídia dos EUA
Publicamos hoje
uma das 25 notícias da lista de 2009
O artigo que publicamos hoje é uma das 25 notícias
mais abafadas nos EUA durante o ano de 2009, que constam da lista deste ano do
Project Censored (Projeto Censurado). Escolhemos a reportagem de Stephanie
Mencimer e Tom Breen sobre os cortes nos gastos sociais nos EUA sob a crise. Mas
toda a lista de notícias “mais censuradas” do Project Censored merece leitura e
atenção.
Há 34 anos o Project
Censored escolhe o ranking das notícias mais ignoradas pela mídia dos EUA no ano
anterior. Neste ano, especialmente, o projeto enfrenta dificuldades, devido a
cortes orçamentários na Sonoma State University, universidade pública (uma
raridade nos EUA) que o patrocina e nas verbas que vinham do governo da
Califórnia. Dificilmente se poderá atribuir estes cortes à crise
norte-americana: todo o projeto custa apenas US$ 150 mil por ano. Os
organizadores, em virtude dos cortes, estão promovendo uma campanha, da qual o
leitor poderá tomar conhecimento no site do projeto: www.projectcensored.org.
Tem sido muito
grande a contribuição do Project Censored – e não somente na luta contra a
ditadura midiática que impera nos EUA, mas também na denúncia dos crimes
cometidos pela casta dominante norte-americana em outros países.
Na lista de 2010 das
“top 25” mais censuradas, há material muito importante. Por exemplo, o artigo
“Obama’s Trilateral Commission Team”, de Patrick Wood, publicado originalmente
na “August Review” em janeiro do ano passado, mostra como a velha Comissão
Trilateral de David Rockefeller, denunciada energicamente no Brasil por Dom
Hélder Câmara, está presente no atual governo norte-americano.
A Trilateral é uma
tentativa, idealizada por Rockefeller - que apresentou a ideia em 1972, num
forum organizado por seu banco, o Chase Manhattan - de “harmonizar” as
contradições entre os monopólios dos EUA, Europa e Japão, fazendo uma repartição
consensual (isto é, que deixe todos de fora, com exceção desses monopólios) do
mundo e, quando foi fundada, em 1973, que unisse todos contra a URSS. Em suma,
uma tentativa de formar um super-cartel único, obviamente sob hegemonia
norte-americana – e sob hegemonia do grupo Rockefeller.
Em 1976, na primeira
lista do Project Censored, a notícia sobre as ligações entre o governo americano
e a Trilateral foi uma das “mais censuradas”. A notícia relatava que eram
membros da Trilateral: o chefe de gabinete da Presidência; o vice-presidente; os
secretários de Estado, da Defesa e do Tesouro; e o Conselheiro de Segurança
Nacional – que era o principal funcionário de Rockefeller na Trilateral,
Zbigniew Brzezinski.
Agora, mais de 30
anos depois, repete-se a mesma coisa. Atualmente, a Trilateral, nota Wood, tem
424 membros. Destes, 87 são norte-americanos. Quase um quinto dos membros
norte-americanos da Trilateral estão, oficial ou informalmente, em altas
posições no governo Obama. São membros da Comissão Trilateral:
1) Tim Geithner -
secretário do Tesouro.
2) Paul Volker –
coordenador do Comitê de Recuperação Econômica.
3) Dennis C. Blair
- diretor Nacional de Inteligência.
4) James L. Jones
- Conselheiro de Segurança Nacional.
5) Thomas Donilon
- vice-conselheiro de Segurança Nacional.
6) James Steinberg
– vice-secretário de Estado.
7) Susan Rice –
Embaixadora dos EUA na ONU.
8) Kurt M.
Campbell - sub-secretário de Estado para a Asia e Pacifico.
9) Richard Haass –
Enviado especial do Departamento de Estado.
10) Dennis Ross -
Enviado especial do Departamento de Estado.
11) Richard
Holbrooke - Enviado especial do Departamento de Estado.
Além disso, Zbigniew
Brzezinski foi exumado da tumba – isto é, do seu cargo na Herbert Hoover
Institution, onde era (ou ainda é) diretor da coleção de profundos estudos sobre
o comunismo, que notabiliza tanto essa instituição, quanto sua hospedeira, a
Universidade de Stanford – para ser o principal assessor de Obama na área
externa.
Teriam de ser
contados ainda outros membros da Trilateral: Gerald Corrigan, Alan Greenspan e
Peter G. Peterson, assessores do secretário do Tesouro; Brent Scowcroft, que
assessora Obama. E Robert Zoelick, presidente do Banco Mundial.
Patrick Wood aventa
que “à luz da crise financeira sem precedentes de hoje”, as pessoas se
revoltariam se lessem o seguinte trecho de Zbigniew Brzezinski, desde o início o
principal ideólogo da Trilateral, indicado por David Rockefeller, de quem é
assessor desde 1959:
“O Estado-nação
como uma unidade fundamental da vida organizada do homem deixou de ser a
principal força criativa: os bancos internacionais e as corporações
multinacionais agem e planejam em termos que são muito mais avançados do que os
conceitos políticos do Estado-nação” (Brzezinski, “Between Two Ages: America’s
Role in the Technetronic Era”, 1971).
Outro interessante
artigo dos “25 mais censurados” é “Katrina’s Hidden Race War” (A guerra racial
oculta do Katrina), de A. C. Thompson, publicado na revista “The Nation”. É uma
espécie de consolidação das reportagens do autor sobre a tragédia de Nova Orleãs,
e, como tal, um relato de horrores, com grupos brancos armados atirando na
multidão negra, após a destruição da cidade pelo furacão. Um trecho
relativamente suave:
“Enquanto a maior
parte da cidade estava inundada por causa do Katrina, a Guarda Nacional designou
o embarcadouro de ferry-boats do bairro de Algiers Point, que estava seco e é
majoritariamente branco, como centro de evacuação das vítimas que seriam
transportadas de ônibus ao Texas. (….) um grupo de moradores brancos armados
tentou fechar a área e livrar as redondezas de ‘intrusos’, enquanto o governo
local se dissolvia e a cidade se dividia racialmente. (….) A milícia branca
matou um total estimado de onze vítimas afro-americanas, a polícia local nunca
realizou investigações. Até agora, os crimes ficaram impunes”.
Já “US Repression of
Haiti Continues” é uma condensação de dois artigos, um de Kim Ives, o outro de
Cyril Mychalejko, e de um relatório do Robert F. Kennedy Memorial Center for
Human Rights, descrevendo como a DynCorp International, uma das companhias de
mercenários contratadas pelo Pentágono - com exceção de míseros 4%, todo o
faturamento da DynCorp provém do governo dos EUA – viola brutalmente os direitos
dos haitianos dentro do próprio Haiti, ao mesmo tempo que o governo dos EUA tem
bloqueado fundos para a ajuda aos haitianos quanto ao crucial problema da água.
“Além de ser a
mais pobre nação do Hemisfério Ocidental, o Haiti tem também a pior água no
mundo, estando em último lugar no ranking do Water Poverty Index. O RFK Center
divulgou documentos do Departamento do Tesouro dos EUA de 4 de agosto de 2008
expondo ações politicamente motivadas pelas quais foram bloqueados empréstimos
de US$ 146 milhões que o Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) aprovou
para o Haiti. O BID aprovou os empréstimos em julho de 1998, incluindo US$ 54
milhões para projetos urgentes de saneamento e necessidade de água. Entretanto,
os documentos mostram que o BID e o staff do Departamento do Tesouro dos EUA
buscaram meios de amarrar a liberação dos empréstimos a condições políticas que
os líderes dos EUA queriam que o governo haitiano cumprisse. Esta intervenção
foi uma violação direta da carta do BID”.
O RFK Center,
citando uma organização de Washington, frisa que “a água é a principal causa
de mortalidade infantil e doenças nas crianças... O Haiti agora tem a mais alta
taxa de mortalidade infantil do Hemisfério Ocidental... [e] mais de metade de
todas as mortes no Haiti foram devidas a doenças gastro-intestinais transmitidas
através da água...”.
São artigos e
matérias desse tipo que fazem parte do ranking do Project Censored.
CARLOS LOPES
Recessão corta
gastos estatais com assistência social nos Estados Unidos
STEPHANIE
MENCIMER E TOM BREEN
Muitos governadores
dos 50 estados americanos atuam agressivamente para excluir milhares de mães
que recebem o benefício de Ajuda Temporária a Famílias Necessitadas (TANF, sigla
em inglês), programa tradicionalmente conhecido como Welfare (Bem-estar). Agora
esses governos negam esse apoio às famílias, argumentando que devem poupar para
reorientar o orçamento do respectivo estado.
Em escala nacional,
o total de benefícios do Welfare baixou mais de 40% entre 2001 e junho de
2008. Os estados de Louisiana, Texas e Illinois reduziram em 80% os benefícios
para adultos desde janeiro de 2001. O estado da Geórgia teve um decréscimo de
90%. Agora são pouco mais de 2.500 adultos georgianos que recebem este auxílio,
contra 28.000 que receberam em 2004, enquanto em 2008 recebiam o TANF apenas 18%
das crianças que vivem abaixo do nível de pobreza, o que significa menos
de 733 dólares por mês para uma família de três membros.
Em 2006, a Coalizão
da Geórgia contra a Violência Doméstica realizou uma pesquisa para descobrir por
que tantas mulheres repentinamente não puderam receber os benefícios sociais.
Descobriram que os funcionários do Welfare (do estado) falavam ativamente com as
mulheres sobre tópicos alheios ao benefício e denunciaram que esses funcionários
orientavam às candidatas que deveriam ser esterilizadas cirurgicamente para
poderem solicitar novamente o benefício. Às mulheres deficientes
respondiam que não se aplicavam para postularem benefícios porque não podiam
cumprir o requisito de trabalhar. Outras foram advertidas que o estado poderia
tomar seus filhos se solicitassem essa vantagem.
As mulheres são cada
vez mais vulneráveis à agressão sexual e à exploração, as vezes proveniente dos
mesmos funcionários ou empregados do Welfare designados para ajudá-las. As
detenções de mulheres por prostituição e pequenos crimes aumentaram por ser cada
vez maior o número de famílias a que se negam os benefícios do Welfare.
Os estudantes
universitários próximos a obterem seus diplomas foram desinformados: disseram a
eles que negariam a ajuda uma vez que completassem 20 anos, sem importar a
situação de sua graduação. Aos estudantes mais jovens, como os de 16 anos,
disseram que deveriam trabalhar em tempo integral ou perderiam as vantagens do
benefício.
O Texas reduziu a
quantidade de casos ao delegar a tramitação do benefício a uma empresa
terceirizada, um centro de atenção telefônica que não só nega ilicitamente o
benefício a algumas famílias, como diminuiu o total de aplicações.
Na Flórida, uma
região inovadora, se começou a exigir dos candidatos ao TANF assistirem a 40
horas de aulas antes de poderem fazer sua solicitação do benefício. Os
solicitantes que tentavam restaurar benefícios perdidos podiam apresentar seus
documentos e obter ajuda de funcionários designados para esse trabalho, mas em
2005, os funcionários designados para esse trabalho foram reduzidos a apenas um
empregado, que atendia ao público duas horas por semana. A quantidade atual de
solicitações ao TANF da região baixou para a metade em um ano.
Devido à recessão,
muitos americanos acudiram à rede de seguridade dos programas de ajuda do
governo, tais como bônus de racionamento e auxílios desemprego do Welfare.
Em um esforço para
desanimar os solicitantes, os legisladores de pelo menos oito estados quiseram
que os beneficiários fossem submetidos ao vexame de um exame de drogas. Em março
de 2009, a Câmara de Representantes do Kansas aprovou uma medida para que fossem
submetidas a exames anti-drogas as 14.000 pessoas que têm ajuda do estado. Em
fevereiro, o Senado de Oklahoma aprovou por unanimidade uma medida que requeria
a prova de droga como condição para receber benefícios do TANF. Disposições
similares foram introduzidas no Missouri e Havaí. Um membro da Câmara de
Representantes de Minnesota apresentou uma moção que exige exame de droga aos
cidadãos pobres do estado que solicitam ajuda pública.
Durante a reforma do
Welfare na era Clinton, foi designado aos estados uma quantidade fixa de
dinheiro sem levar em conta as suas necessidades. A subvenção global ao TANF
ascendeu a 16,5 bilhões de dólares, sendo que destes, só a Geórgia obteve 370
milhões ao ano.
Os estados podiam
desviar os fundos para qualquer programa relacionado vagamente com a assistência
ao necessitado. Posto que os estados recebiam a mesma quantia de fundos federais
sem importar quantas pessoas recebiam ajuda, incitou os governos a que negassem
os benefícios. “Inclusive se a quantidade de casos por tratar fosse zero,
conseguiam a mesma soma de dinheiro”, observou Robert Welsh, do Orçamento da
Geórgia e do Instituto de Política.
Os estados têm
utilizado o dinheiro “que sobra” do TANF para ampliar a assistência às
crianças, formação de trabalho e transporte para ajudar os beneficiários a
encontrar emprego. O Departamento de Responsabilidade do Governo descobriu em
2006 que muitos estados estavam movimentando os fundos federais para o Welfare
fora da ajuda efetiva aos pobres, por exemplo, destinando-os a
“trabalhos de assistência” ao cuidado de crianças para tapar os buracos do
orçamento estadual.
O TANF era também uma porta de ingresso para
a educação, a reabilitação anti-drogas, a assistência à saúde mental,
assistência às crianças, incluindo transporte e benefícios para a mobilidade dos
incapacitados. “O Welfare é o único programa efetivo da rede de seguridade
social para as mães solteiras e seus filhos”, afirmou Rebeca Blank, economista
da Brookings Institution. “Com a recessão, temos que nos preocupar com aumento
do número de mulheres que ficaram desempregadas e não têm como sobreviver”,
analisou. |