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Drenagem de
recursos ao exterior supera IDE em
US$ 26,99
bilhões
Em 2009, saíram do
país US$ 52,944 bilhões
Enquanto o sr. Henrique Meirelles anuncia uma nova e revolucionária teoria
econômica – segundo a qual, para que o país cresça, é imprescindível aumentar os
juros - a instituição que preside divulgou os resultados do setor externo de
2009.
Quanto à teoria meirellista, seu equivalente é aquela outra – a de que, para que
um paciente fique curado, é necessário matá-lo. Certamente porque o objetivo é
matar - e não curar; assim como o de Meirelles é aumentar os juros - e não que o
país cresça. Aliás, ele descobriu agora que a melhor forma de aumentar os juros
é propalar que o país vai crescer uma enormidade. Na quarta-feira, garantiu que
o crescimento em 2010 vai ser de 5,8% (por que não 5,7% ou 5,9% - ou, digamos,
5,4%? Como é possível uma precisão tão grande, que vai até uma casa decimal, com
um ano de antecedência? Não é à toa que o ministro Mantega reclamou: nada expõe
tanto o caráter dessas previsões de crescimento quanto a matemática do
Meirelles).
Alguns economistas apontaram a hiper-valorização do real como a principal causa
do rombo nas contas externas. E a hiper-valorização do real é devido: 1) à
guerra cambial dos EUA contra os outros países, através de uma super-emissão de
dólares sem lastro, que invadem economias onde há beatos do câmbio flutuante que
só flutua para cima; 2) ao diferencial de juros, que permite aos bancos externos
e outros especuladores tomar dólares em seus países à juro zero, ou quase isso,
e entrar com eles aqui, ganhando himalaias de dinheiro com juros muito mais
altos do que nas economias de onde vêm.
Diz o sr. Meirelles que o câmbio não é sua atribuição (o que é vigarice, tanto
assim que ele vive vendendo e comprando dólares no “mercado” para influir na
taxa de câmbio). Mas os juros, esses são a sua precípua atribuição – pelo menos
até que o BC deixe de ser uma repartição do BankBoston.
Os resultados da sua competência estão na tabela XXVII do relatório do BC: uma
entrada de US$ 46 bilhões, 158 milhões de dinheiro puramente especulativo,
meramente predatório, totalmente inútil para o desenvolvimento do país, aliás,
completamente nocivo a ele. Esse dinheiro (o chamado IEC - “investimento
estrangeiro em carteira”) entra no país “atraído” pelos juros, apenas para, com
a hiper-valorização do real em relação ao dólar e as milagrosas taxas de juro do
sr. Meirelles, voltar ao seu país de origem multiplicado vezes e vezes. Sem
produzir nada, sem criar um emprego, sem que nem um parafuso tenha que ser
apertado ou um único prego seja cravado numa estopa, os dólares sem lastro
voltam ao seu país muito bem lastreados, pois sua multiplicação equivale aos
recursos do nosso país – o produto do nosso trabalho, do nosso esforço – que
eles carregam para fora.
Reparemos que essa montanha de dólares, esse capital fictício, é quase o dobro
do saldo comercial de 2009, que foi US$ 25 bilhões e 347 milhões. Ou seja, é
quase o dobro de tudo o que produzimos para vender no exterior além do que
importamos, riqueza real, concreta, que conseguimos com o comércio exterior.
Porém, apesar de ser capital fictício, imprestável para o país, esses dólares
especulativos vão provocar a saída de muito mais do que os US$ 46 bilhões e
158 milhões que entraram. E esse “muito mais” é, precisamente, a riqueza que
é drenada daqui para fora.
Durante 2009, saíram do país, sob a rubrica rendas (lucros oficiais,
principalmente) e serviços (lucros ocultos mais alguns itens menores, como
viagens a outros países), nada menos do que US$ 52 bilhões e 944 milhões. Isto
é, as remessas para o exterior superaram (em 6,8 bilhões) até mesmo a
enxurrada de capital especulativo que entrou, apesar da super-emissão
de dólares sem lastro dos EUA, do diferencial de juros e do escambau.
E, se compararmos essa saída com a entrada de “investimento direto estrangeiro”
(IDE), isto é, dinheiro para comprar empresas, e não apenas para a especulação
usurária, estamos diante de um massacre: entraram, em 2009, US$ 25 bilhões e 948
milhões em IDE. Saíram, em remessas para o exterior, US$ 52 bilhões e 944
milhões. Portanto, a drenagem de recursos do país para fora superou a entrada de
IDE em US$ 26 bilhões e 995 milhões. Isto é, os recursos do Brasil que foram
para outros países somaram mais que o dobro do que veio para cá em investimento
direto estrangeiro e mais que o dobro do que obtivemos de riqueza real no
comércio exterior. E isto num ano onde houve queda nas remessas (em
2008, elas foram US$ 57 bilhões e 234 milhões). Todas as previsões são de que
este ano elas aumentarão, sobretudo pelo câmbio hiper-valorizado, que permite às
multinacionais transformarem os reais em muito mais dólares do que aqueles com
que entraram no país – parte do lucro que é inteiramente parasitária, pois
resulta apenas da troca dos dólares que entram por reais e da troca, outra vez,
desses reais pelos dólares que serão enviados ao exterior.
MAIS REMESSAS
Quase todo o IDE entra no Brasil para adquirir empresas, ou seja, para adquirir
o que já foi construído por brasileiros. Portanto, do ponto de vista do
crescimento, do aumento da capacidade instalada, sua importância é pequena. Pelo
contrário, sempre a aquisição de uma empresa brasileira pelo capital estrangeiro
leva a um aumento das importações, que a agora filial passa a fazer da matriz.
Porém, em qualquer caso, mesmo quando ele vem, como raramente, para construir
novos empreendimentos (os chamados empreendimentos “greenfield”), o IDE de hoje
é a remessa de lucros de amanhã. Por essa razão, ele não pode ser a base do
desenvolvimento de um país: sua função é, sobretudo, a acumulação de capital em
outro país, no país onde a empresa tem sua sede.
Não se trata de teoria, mas de um fato: as remessas eram US$ 14,6 bilhões em
1994; com a entrada em massa de IDE, elas atingiram US$ 57,2 bilhões em 2008. E
quanto mais IDE, mais remessas. Os recursos que entram sob essa forma também
saem multiplicados, carregando os nossos recursos e o nosso trabalho. Até
porque, não existe multinacional que traga mais IDE para um país do que tire
dele em lucros, em remessas para o exterior, em prazo razoavelmente curto.
Toda a trajetória do governo Lula teve por objetivo “diminuir a vulnerabilidade
externa” em que Fernando Henrique deixou o país. Porém, não por acaso se fala
agora tanto nas “contas externas”. O que se poderia esperar da hiper-valorização
do real – como consequência de um regime cambial que colabora com a agressão
monetária ao país – e de juros confeccionados para despertar a sanha de piratas
financeiros? E, sem dúvida, o remédio não pode ser o anunciado pelo ministro
Mantega – depender do capital estrangeiro para cobrir o rombo, isto é, depender
do próprio veneno que debilita a economia -, muito menos o de Meirelles – que é
sempre aumentar os juros, faça sol, chuva, ou aconteça, que Deus nos livre, um
terremoto.
CARLOS LOPES
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