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Revolta contra
alagamentos causa protesto na Zona Sul de São Paulo
Sandra Regina
Gonçalves, moradora da Cidade Dutra, desabafou: “tem chuvas e chuvas, mas agora
estamos passando toda hora por isso”
A
falta de providências da Prefeitura e do governo de São Paulo no combate às
enchentes, que têm causado estragos em várias regiões da capital a cada chuva,
provocou um protesto de centenas de moradores no bairro Cidade Dutra (Zona Sul),
na tarde da última quarta-feira (20). Os manifestantes fecharam a Avenida
Belmira Marin, altura do número 5.000, com restos dos móveis danificados pela
chuva e atearam fogo.
“A comunidade protesta por acordos que foram prometidos pela prefeitura de São
Paulo e não foram cumpridos”, afirmou Rodrigo Andrade à editora do blog
“Conversa Afiada”, Flávia D’Angelo. O morador relatou que, com as chuvas do dia
anterior, um córrego que passa próximo ao Jardim Lucélia transbordou causando
inundações.
“Não apareceu nenhum bombeiro ou civil para ajudar os moradores. A situação
agora é de conflito e por aqui tem aproximadamente 500 pessoas. Temos aqui
Polícia Militar e Tático, mas já esteve aqui a Tropa de Choque. A prefeitura
havia prometido também limpar o córrego, mas nem isso foi feito”, contou.
Na noite anterior já haviam ocorrido protestos por causa do transbordamento do
córrego que, segundo os moradores, passou a ter alagamentos depois que obras
reduziram sua largura de 8 metros para 3,5 metros. “Tem chuvas e chuvas, mas
agora estamos passando toda hora por isso. A água pegou o motor da minha
geladeira e máquina de lavar”, reclamou Sandra Regina Gonçalves.
Houve confronto com a polícia, que usou bombas de efeito moral e tiros de
borracha contra a multidão, que respondeu com fogos de artifício e pedras. Os
manifestantes só foram completamente dispersados no início da madrugada, quando
muitas das pessoas atingidas pela chuva ainda não tinham ideia de onde passariam
a noite.
O blog “Conversa Afiada”, do jornalista Paulo Henrique Amorim, reproduziu
mensagem enviada às 18h47 da quarta-feira por um leitor, mostrando o drama dos
habitantes da região. “Nesse momento, centenas de moradores do Jardim Lucélia
estão paralisando novamente a Avenida Belmira Marin, reivindicando seu direito à
moradia digna, e denunciando o descaso do poder público”, afirmou o internauta
Danilo C.
O leitor destacou que os moradores tiveram suas casas inundadas pela chuva de
terça-feira e perderam tudo que tinham. “Ontem (19) à noite, revoltados, eles
também paralisaram a avenida, sofrendo por isso repressão violenta por parte da
polícia”, disse, observando que as manifestações revelam “a terrível situação em
que se encontram dezenas de comunidades da região, cujo sofrimento até então foi
ignorado”. Ele acrescentou que, além do Jardim Lucélia, outras comunidades da
região do Grajaú como Parque Cocaia I, Jardim Toca, Brejinho, Favelas 19 e 20
vêm sofrendo com as enchentes.
“Afetados pela enchente, moradores da Favela 19 e da Favela 20 (Rio Bonito)
também protestam. Depois de paralisar a Avenida Teotônio Vilela, os
manifestantes se dirigiram até a subprefeitura da Capela do Socorro, exigindo
uma reunião com o subprefeito Valdir Ferreira. Até agora os moradores não foram
atendidos”, continuou.
A mensagem destacou que enchente atingiu centenas de casas e, por várias horas,
os moradores esperaram em vão por ajuda das autoridades, até que começaram o
protesto, interrompendo o trânsito na avenida com os móveis destruídos. “Aí sim
o Estado apareceu, na figura de policiais que agrediram violentamente os
manifestantes. Eis aí a verdadeira face da ‘política pública’ para a população
pobre”, denunciou.
Não foi a primeira vez que a população saiu às ruas para protestar, denunciando
a omissão das autoridades. No final do ano passado, centenas de pessoas
protestaram contra o alagamento da região do Jardim Romano, Zona Leste. No
início de janeiro, a Avenida Sapopemba foi bloqueada por uma barricada feita por
moradores que protestam contra as enchentes na região.
O prefeito Gilberto Kassab foi alvo de críticas e cobranças de moradores do
bairro, quando visitou a localidade, no início do mês. Ele visitava o Jardim
Romano e Jardim Helena quando foi abordado por moradores, que cobraram solução
para o problema que já durava um mês.
Kassab também foi recebido com vaias e muitas críticas no Jardim Pantanal,
também na Zona Leste, favela assolada por alagamentos desde o início de
dezembro. “Vem botar o pé na lama”, gritavam os moradores, principalmente
mulheres. O prefeito se apressou em fugir do protesto, resolvendo antecipar sua
saída do local. |