|
Citi tem prejuízo no 4º trimestre e fecha ano
de 2009 no vermelho
Anunciou
lucro nos 3 primeiros trimestres à custa de especular com dinheiro do
Tesouro, maquiagem contábil e venda de subsidiárias. No 4º não deu para
disfarçar: prejuízo foi a US$ 7,6 bilhões
Depois de anunciar lucros durante três trimestres, o executivo-chefe do
Citigroup, Vikram Pandit, anunciou um prejuízo de US$ 7,6 bilhões no quarto
trimestre de 2009. O banco anunciou um prejuízo anual de US$ 1,6 bilhão.
Dos grandes bancos é o que está em situação de maior risco. Depois de bater
na lona, foi socorrido com US$ 45 bilhões no chamado bailout e ainda assim
não conseguia parar de ver suas ações despencarem e prejuízos crescerem. De
um valor de US$ 56 por ação, elas caíram a menos de um dólar. O jeito para
que não fechasse as portas foi o governo botar mais dinheiro adquirindo 27%
das ações que ninguém mais queria a um valor total de US$ 25 bilhões e
emprestar alguma credibilidade ao combalido Citi.
O primeiro resultado positivo foi anunciado em abril de 2009: US$ 1,6 bilhão
de lucros no primeiro trimestre, depois de uma perda de US$ 18,12 bilhões no
trimestre anterior, o último de 2008. Foi a primeira recuperação após 18
meses de perdas, o suficiente para que agências de notícias começassem a
trombetear a sua recuperação. A BBC falou em “resultados batendo as
previsões”; a Reuters anunciou “fortes resultados do Citigroup”.
MAQUIAGEM
Com exercícios de maquiagem contábil e os primeiros resultados da
especulação com o próprio dinheiro que o governo emprestou para evitar a
quebradeira generalizada e para garantir a retomada da economia através do
crédito (que, no entanto, continuou apertado) os grandes bancos que se
salvaram da enxurrada - mais de 100 fechados este ano - começaram a propalar
resultados positivos. Analistas da mídia e consultores de agências de
especulação imediatamente falaram em ‘recuperação do sistema financeiro’.
Para que o Citi pudesse dar aquele “salto”, passando de perdas de US$ 18, 2
bilhões em um trimestre para um ganho de US$ 1,6 bilhões no seguinte, o que
houve foi muita ‘matemática’ e acochambração contábil.
Depois de intenso lobby, os bancos foram autorizados pelas intituições
financeiras do governo dos EUA a mascarar perdas ou mais precisamente a
transformar perdas em lucros.
No artigo publicado pelo NYT, logo após o primeiro trimestre de “ganhos” do
Citigroup, são relatadas algumas dessas mutretas.
O Citi usou alguma contabilidade negativa. Muitos bancos estão fazendo o que
podem para aparecer bem, diz o jornaista Eric Dash.
O NYT cita o analista Meredith A. Whitney, que chamou a maquiagem de uma
“grande passagem de borracha para criar a impressão de que os bancos estão
se estabilizando de forma que os investidores privados invistam neles”.
Uma das manobras consiste na forma em que o Citi contabilizou a favor um
declínio em sua dívida.
A dívida do Citigroup perdeu valor no mercado de títulos por causa das
preocupações com a saúde da emprega. Pelas novas normas o Citi teve a
permissão de contabilizar um ganho aproximadamente equivalente a este
declínio por que em tese poderia comprar de volta sua dívida por um valor
mais baixo no mercado de títulos, o que o banco evidentemente não fez.
Outra forma de conta-bilizar lucros imediatos é mentir com relação aos
resultados obtidos e posteriormente informar que “houve erro” e corrigir os
erros depois de – é claro – obter ganhos com ações. John Gerspach, diretor
do financeiro do Citigroup, também admitiu que outros mecanismos contábeis
usados no meio do ano para esconder perdas – a fim de evitar queda nas ações
- tiveram que ser acrescidos na declaração de final de ano acrescentando US$
840 milhões ao conjunto das perdas. “Corrigindo um erro mecânico de
cálculo”, tergiversou.
LIXO
Jack Ciesielski, um assessor em contabilidade citado pelo NYT, define estes
lucros como “ingresso de lixo”. “Eles estão ganhando mais dinheiro por serem
péssimos devedores do que por oferecer empréstimo a bons pagadores”, afirma.
No segundo trimestre, o Citigroup informou lucro de US$ 4,3 bilhões após se
desfazer da subsidiária Smith Barney para o Morgan Stanley por US$ 6,7
bilhões.
O milhardário novo diretor do banco, Vikram Pundit jactou-se então da
competência e denodo de seus funcionários: “Nossos resultados financeiros de
hoje refletem os esforços incrivelmente dedicados de nosso pessoal em todo o
mundo e seu sucesso na implementação de nosso plano”.
Mas a bola logo começou a murchar. No terceiro trimestre o lucro ficou nos
pífios US$ 101 milhões e o prejuízo teve que ser assumido no quarto junto
com o resultado negativo de todo o ano. Às perdas do Citi juntaram-se as do
Bank of América (que também fechou com um prejuízo de 5,2 bilhões de dólares
no quarto trimestre, bem acima das perdas de igual período do ano anterior,
de US$ 2,4 bilhões ) expondo a fragilidade da suposta retomada.
Para se ter mais uma idéia do nível da inadim-plência do Citi, o banco se
desfez no período de um ano de 14 subsidiárias; além da Smith Barney, as
corretoras japonesas Nikko Cordial Securities, a Nikko Asset Mana-gement e a
unidade de cartão de crédito Diners Club North América. Com a venda de
ativos como estes apurou US$ 351 bilhões. Também demitiu 110.000
funcionários.
“O Citi retirou todos os freios”, disse David Hendler, analyst da
CreditSights, “Por enquanto o Citigroup tem feito progressos, mas sua
recuperação tende a ser mais volátil do que a dos outros grandes bancos”,
declarou.
NATHANIEL BRAIA
|