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Enchentes:
Governo de SP ficou três anos sem limpar o rio Tietê
“Tem que limpar
esse rio todo ano, senão vai ter enchente”, afirmou o engenheiro Júlio Cerqueira
No dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, o Centro de
Gerenciamento de Emergências da Prefeitura (CGE) colocou novamente toda a
capital em estado de atenção, situação que ficou até as 18h45. Às 20h, ainda
persistiam 18 pontos de alagamento, 17 deles transitáveis. Seis já estavam
inativos.
Nas comemorações da data, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) declarou que “estamos
vivendo hoje um desequilíbrio climático”. Já o governador do Estado, José Serra
(PSDB), preferiu não comentar o alagamento de São Paulo depois que até a Folha
de S.Paulo admitiu a imoralidade que é culpar a natureza pelas enchentes que,
desde o mês de setembro, param a maior metrópole da América Latina.
“É certo que chove um bocado neste janeiro. Mas também é imoral buscar nos
humores da natureza as razões de um colapso”, diz o texto da Folha, assinado por
Fernando de Barros e Silva. O texto segue dizendo que o problema das enchentes
se explica muito melhor pelo descaso associado à “incompetência e incapacidade
da administração demo-tucana”.
“Nesse ano que passou, de 2009, nós tivemos um ano absolutamente atípico sob o
aspecto hidrológico. Nós tivemos o fenômeno El Niño, que é conhecido. Isso não é
novidade. Dizer que surpreendeu, não surpreendeu ninguém, todo mundo conhece o
El Niño”, afirmou o engenheiro e professor da Escola Politécnica da USP, Júlio
Cerqueira César Neto, em entrevista ao programa Entre Aspas, da Globo News.
Choveu muito na região Sudeste devido ao fenômeno, que é sazonal. O que os
governos estadual e municipal não fizeram foi preparar a cidade para isso.
De acordo com o engenheiro, em São Paulo “nós temos dois tipos de enchentes.
Temos a enchente do canal do Tietê, do rio Pinheiros e do Tamanduateí, que são
responsabilidade do governo do Estado. Depois tem todos os córregos que vão até
esses canais principais, que são responsabilidade das prefeituras. São coisas
diferentes. Quando o canal do Tietê extravasa, cria o caos urbano completo,
completo”.
Assoreamento
A enchente que pára São Paulo, como a que gerou R$ 15 milhões em prejuízos aos
comerciantes do Ceagesp na semana passada, é causada, segundo Cerqueira, pelo
assoreamento do rio Tietê e pela falta de piscinões programados para reter a
água da chuva.
“O rio Tietê aqui na região metropolitana é praticamente plano”, explicou. “Os
afluentes trazem aquela quantidade de terra todos os anos e para no rio e
assenta. Para manter o rio limpo nós temos que tirar mil metros cúbicos por ano
de material lá de dentro”.
Desde o dia 8 de setembro, quando a primeira chuva forte do ano alagou São
Paulo, o governo do Estado divulga que retira metros e metros cúbicos de terra
dos rios que cortam a cidade. Mas, em reportagem publicada no blog Viomundo, a
jornalista Conceição Lemes afirma que, depois de questionar o Departamento de
Águas e Energia Elétrica (DAEE) e a Secretaria de Energia e Saneamento de São
Paulo, não encontrou vestígios de que tenha existido qualquer retirada de
sedimentos do fundo do Tietê de 2006 a 2008. “O rio Tietê pode ter ficado quase
três anos sem ser desassoreado”, afirma.
O engenheiro confirma. “A calha foi inaugurada em 2005. Em 2006, 2007 e 2008 não
se tirou um metro de terra de dentro do rio. Em 2009, se tirou metade”, disse
Cerqueira.
“Então, se você for verificar, nós devemos ter hoje dentro do rio pelo menos 4
metros de terra quando ele foi aprofundado em 2,5 metros. Se você faz um
aprofundamento de 2,5 metros e ele está com mais 4 metros de terra, é evidente
que não cabe a vazão lá dentro. Tem que limpar esse rio todos os anos, senão vai
ter enchente”, argumenta Júlio Cerqueira.
91 piscinões
Durante o governo Franco Montoro, Júlio Cerqueira foi diretor de Planejamento do
DAEE, participando da concepção do rebaixamento da Calha do Rio Tietê em 1986.
Na época “se projetou um canal do rio Tietê para [uma vazão de] 1.000 metros por
segundo. Dez anos depois se verificou que já não era 1.000 – e já estava no meio
da obra – era 1.400 metros cúbicos por segundo. E agora? Os japoneses já deram o
dinheiro, a obra já estava no meio... Como é que vamos fazer? Bom, aumentar a
calha não dá, porque ela já está encostada nas marginais... A única solução para
manter essa calha dentro do que foi projetada foi fazer piscinão”.
Segundo ele, os piscinões são “um mal necessário”, porque acabaram se
transformando em esgotos a céu aberto. “Mas, no caso, não tem outra alternativa.
Os piscinões retêm a vazão e deixam a calha na dimensão para a qual foi
projetada”, disse. Então, “o governo do Estado projetou 134 piscinões para
reduzir as vazões aos 1.000 que a calha comporta”.
Acontece que, como ressaltou Júlio Cerqueira, “dez anos se passaram, o governo
fez 43 piscinões. Faltam 91”. |