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Não cabe aos EUA
interferir na segurança do Haiti, afirma ONU
A segurança do Haiti
segue sob responsabilidade da força de paz, afirmou Edmond Mulet, o novo
chefe da Minustah (a Missão da ONU). E completou: “pelo acordo entre
Washington e a ONU, caberá aos americanos ajudar apenas na assistência
humanitária”
A segurança e estabilização do Haiti seguem sob responsabilidade da força de
paz, afirmou Edmond Mulet, o novo chefe da Minustah (a Missão da ONU),
acrescentando que, conforme acordo assinado com Washington, cabe aos EUA
apenas “a ajuda na assistência humanitária” às vítimas do terremoto. Ao dar
essa declaração, em teleconferência de imprensa em Porto Príncipe, Mulet não
se fez de rogado para balizar a intervenção dos EUA no Haiti com 20.000
marines e paraquedistas – mais do dobro da força da ONU. Tal presença,
assinalou o diplomata, “é temporária” e “limitada”, e a tropa dos EUA nada
terá a fazer no Haiti “na fase de reconstrução”.
Na verdade, a presença desses 20.000 soldados dos EUA viola o próprio acordo
assinado pelo embaixador dos EUA, Kenneth Merten, por serem tropas de
assalto, treinadas para matar, mutilar, estuprar e torturar, e não para dar
“ajuda humanitária”. “Humanitário”? - eles nem sabem o que é isso. Os
marines – a tropa de choque imperial – dispensam apresentações. Quanto aos
paraquedistas que ocuparam o aeroporto de Porto Príncipe, da 82ª Divisão
Aerotransportada, cometeram algumas das maiores barbaridades no Iraque e no
Afeganistão, só para citar o que é mais recente. A 82ª também ficou famosa
por invadir Granada – além de aparecer no “Apocalipse Now”, no Vietnã, na
cena do insano bombardeio ao som de Wagner.
Mais cínico ainda é chamar de “navios humanitários” a um porta-aviões
nuclear, o Carl Vinson, que foi usado na invasão do Afeganistão; aos navios
de assalto dos marines; e à frotilha composta por cruzador com mísseis,
destróieres e barcos de suprimento. Também não podem ser considerados
“humanitários” os vôos diários sobre o Haiti realizados por avião emissor de
rádio, durante horas, em que o bondoso Merten ameaça encarcerar em
Guantánamo aqueles haitianos que, movidos pelo desespero, se lançarem ao
mar, em balsas, rumo a Miami. Ou o desembarque de paraquedistas nos
escombros do palácio presidencial.
O chefe da Defesa Civil da Itália, Guido Bertolaso, que recentemente liderou
o socorro às vítimas do terremoto que atingiu Áquila, traçou um retrato da
intervenção dos EUA no Haiti neste terremoto. “É um show de força
verdadeiramente poderoso, mas completamente fora de contato com a realidade.
Eles não têm uma relação próxima com o território, eles certamente não têm
uma relação com as organizações internacionais e os grupos de ajuda”,
afirmou em entrevista à RAI (TV italiana).
No mesmo sentido, a diretora da Ong “Médicos Sem Fronteiras”, Françoise
Saulnier, responsabilizou em entrevista à TV Reuters a ocupação militar dos
EUA do aeroporto de Porto Príncipe, que bloqueou o tráfego à ajuda
humanitária. “Perdemos três dias”, que criaram “um enorme problema de
infecções e gangrenas, com amputações que agora são necessárias, enquanto
poderíamos realmente ter poupado isso a essa gente”. “Você tem os primeiros
três dias para tentar tirar as pessoas sob os edifícios, outros três para
lhes dar assistência médica e cirúrgica”, afirmou Françoise. “Todo o resto -
emergências, comida, abrigo, água - vem depois disso”, assinalou. Ela
denunciou que “tudo foi misturado e a atenção urgente e vital ao povo foi
adiada [devido à] logística militar, que é útil, mas não no terceiro dia,
não no quarto dia, mas talvez no oitavo dia. Esta logística militar
realmente congestionou o aeroporto e levou a esta má gestão”.
Então, a prioridade do Pentágono era a “segurança” – isto é, a ocupação -, e
para levá-la a cabo não se melindrou em atropelar a ONU, a força de paz
liderada pelo Brasil, as organizações internacionais, as equipes de resgate
e os demais países. Enquanto os EUA enviaram paraquedistas para o palácio
presidencial em ruínas, o Brasil organizou, diante do mesmo palácio, uma
grande operação de distribuição de 22 mil litros de água e 10 toneladas de
alimentos à multidão abrigada nas imediações. O comando brasileiro da força
de paz compareceu à distribuição, e os caminhões com comida portavam as
bandeiras do Haiti e do Brasil. (ver matéria ao lado).
RECONSTRUÇÃO
Na Conferência em Montreal dessa segunda-feira dia 25, Canadá, por recursos
para a reconstrução do Haiti, o ministro das Relações Exteriores do Brasil,
Celso Amorim, afirmou que “não podemos ver um desastre do tamanho que
atingiu o Haiti, com a pobreza que existe no Haiti, e não fazer nada”. Ele
informou que a ajuda do Brasil – empenhada direta ou indiretamente – já
chega a US$ 230 milhões. Amorim disse, ainda, que é vital reconstruir os
símbolos nacionais do Haiti. “Penso que isto é muito importante, de modo que
o povo haitiano sinta também que não apenas estão recebendo comida e água,
mas também recobrando sua autoestima”. Sobre os 20 mil soldados que os EUA
despacharam para o Haiti, Amorim destacou que “uma da razões pela qual a
Minustah é muito respeitada é porque ela restabeleceu a ordem mas não tem
uma presença ostensiva, que pareça uma força de ocupação.”
ANTONIO PIMENTA
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