“Brasil fará sua parte no Haiti”, afirmou o presidente no Fórum
Ele cobrou a
ajuda aos haitianos que os países ricos se comprometeram antes e não
ajudaram
Recebido
com grande entusiasmo pelos participantes do Fórum Social Mundial (FSM) em
Porto Alegre, na noite de terça-feira, o presidente Lula resgatou, em
discurso de abertura no evento, o papel destacado que o Brasil vem assumindo
na ajuda ao Haiti e defendeu que fórum inicie uma ampla campanha de
solidariedade ao povo haitiano, vítima de um violento terremoto que devastou
o país. Ele culpou as seguidas ocupações estrangeiras pela situação de crise
porque passa o país caribenho e disse que essas invasões “solaparam a
independência conquistada pelo povo haitiano”.
“Não podemos esquecer que foi o primeiro país
negro do mundo a conquistar a sua independência, em 1804. E depois de
conquistar a sua independência, três vezes esse país foi, na verdade, tendo
a sua independência solapada por ocupação americana, ocupação francesa e
ocupação inglesa”, denunciou. “O que estava acontecendo no Haiti, até então,
era falta de respeito ao mínimo direito sagrado da cidadania a que um ser
humano tem direito”, acrescentou Lula.
Ressaltando a presença das Forças Armadas do
Brasil à frente da Missão de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU), na
ajuda ao Haiti há mais de cinco anos, Lula lembrou que faltou solidariedade
de outros países na superação da crise haitiana. “Não tem uma reunião que eu
participe, no mundo, que não reivindique o direito dos países doadores de
darem o dinheiro para os companheiros do Haiti. São bilhões prometidos, mas
esse dinheiro não chega, ora porque não se confia no governo, o dinheiro
chega via ONG, a pretexto de que o governo não tem condições de executar; e
ora o dinheiro não chega”, denunciou.
Lula disse que o Brasil está fazendo a sua parte
ao ajudar o Haiti ao mesmo tempo em que respeita as instituições e o Estado
haitiano e cobra que outros países façam o mesmo. “Estamos ajudando sem
promover ingerência indevida nos assunto internos dos haitianos”, destacou.
O resgate dos acertos do Brasil no Haiti e a conclamação para que o fórum
abra uma campanha mundial de ajuda ao povo haitiano foi feita pelo
presidente em resposta à insinuação de que o Brasil não estaria agindo
adequadamente em relação às recentes afrontas americana no Haiti. A resposta
e os esclarecimentos de Lula acabaram mostrando a todos que as afirmações de
Cândido Grzybowski, um dos organizadores do evento, estavam na prática
aliviando os agressores.
“Todos nós deveremos estar indignados com o
mundo desenvolvido, que é responsável pelo que aconteceu no Haiti”,
prosseguiu o presidente, ressaltando que “aqueles que criticavam a Força de
Paz do Brasil no Haiti, tiveram a oportunidade de ir ao Haiti e viram o
trabalho que as nossas FFAA faziam...”.
“Nós ensinamos ao mundo como é que uma Força de
Paz pode ser uma Força de Paz sem ter ingerência nas decisões políticas ou
praticar violência contra os inocentes que moram naquele país”, completou.
“O dado concreto é que embora estejamos a chorar, não sabemos ainda se 150
mil mortes ou 200 mil mortes, não ficamos parados”. “Lá dentro do Congresso
Nacional aprovamos o envio de mais 900 soldados brasileiros”, informou.
“Esse terremoto talvez mexa com a vergonha dos
seres humanos que governam este Planeta, para que a gente possa fazer no
Haiti agora aquilo que poderíamos ter feito 30 anos atrás, 40 anos atrás ou
ter feito dez anos atrás, quando começamos a discutir a democracia do
Haiti”, afirmou Lula. “E uma coisa eu quero dizer para vocês: o Brasil fará
a sua parte”. “É motivo de orgulho a quantidade de brasileiros que querem se
inscrever para prestar serviço de solidariedade ao Haiti”, apontou Lula,
lembrando que “não estamos mandando todos porque não podemos criar uma
desordem de solidariedade no Haiti”. “Quando tivermos estrutura para
receber as pessoas, e depois criar as condições para que elas possam
executar a sua função lá dentro, vamos recebê-las”, frisou.
“Nós, inclusive, no dia 25 do mês que vem
estaremos passando no Haiti e, possivelmente, em 30 dias a gente construa
uma Unidade de Pronto Atendimento, de quase 2.160 metros quadrados, para
atender o povo daquele país, junto com o hospital de campanha da Aeronáutica
que está assistindo as pessoas. E vamos querer levar médicos brasileiros
para prestar solidariedade, para ficar um, dois, três, quatro meses, fazer
um processo de revezamento para que a gente possa dar àquele país a
oportunidade de se desenvolver e virar um país soberano e um país com
democracia consolidada”.
No final do discurso, Lula cobrou menos de
resoluções e mais ação por parte do fórum. “Eu acho”, prosseguiu o
presidente, “que ao terminar este encontro aqui, não precisa ter dez
decisões porque, em política, quem tem dez não tem nenhuma, quem tem vinte
não tem nenhuma, ou seja, é tanta decisão, que a gente não sabe qual vai
encaminhar primeiro”, criticou. “Agora, eu acho que vocês deveriam tomar uma
decisão: dedicar, dessa data em que terminar este Fórum até a data do
próximo Fórum, um ano de solidariedade de todos os participantes do Fórum ao
povo, na reconstrução do Haiti, que, quem sabe, a gente possa ensinar como
fazer muitas coisas que tem lá”, conclamou.
Estiveram presentes à solenidade Olívio Dutra,
ex-governador do Rio Grande do Sul, Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa
Civil, os ministros da Justiça, Tarso Genro, da Secretaria-Geral da
Presidência da República, Luiz Dulci, de Políticas de Promoção da Igualdade
Racial, Edson Santos, da Pesca e Aquicultura, Altemir Gregolin, dos Direitos
Humanos, Paulo Vannuchi. O deputado estadual Ivar Pavan, presidente da
Assembleia Legislativa do estado do Rio Grande do Sul, o prefeito de Porto
Alegre, José Fogaça e o governador da Bahia, Jaques Wagner. Os senadores
Paulo Paim (PT/RS) e Ideli Salvatti (PT/SC)e os deputados federais Beto
Albuquerque (PSB), Fernando Marroni (PT), Henrique Fontana (PT), Manuela
D’Ávila (PCdoB), Marco Maia (PT), Maria do Rosário (PT), Paulo Roberto
Pereira (PTB), Paulinho (PDT), da Força Sindical, Pepe Vargas (PT) e Vieira
da Cunha (PDT).
SÉRGIO CRUZ