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Obama requenta
promessas em pronunciamento ao Congresso
O presidente
assegurou que em agosto “todas as tropas de combate” serão tiradas do Iraque
- não falou que 25 mil a 30 mil continuarão lá. Por falta de tempo, não deu
para prometer duas casas para cada americano, uma para morar e outra para
alugar
Em seu primeiro discurso do Estado da União, o presidente Barack Obama, que
enfrentará em novembro uma eleição parlamentar de meio de mandato, prometeu,
como dizia um saudoso camarada nosso, uma mulher para cada homem, um homem
para cada mulher e, seguindo a modernidade, um bofe para cada dengoso, e
instalar ladeiras que só descem, que é para ninguém ficar extenuado. Além de
uma lei, para a qual convocou o Congresso dos EUA, pela geração de empregos,
doravante sua “prioridade número 1”, quando há 25 milhões de sem-emprego no
país.
Anunciou, ainda, para o ano que vem, o início do combate ao colossal
déficit. Em US$ 3,550 bilhões de orçamento anual e US$ 1,350 bilhões de
déficit orçamentário, um corte de US$ 20 bilhões/ano. Que, se não resolve
nada, pelo menos não deixa a bandeira só com os republicanos. “Os mercados
estão agora estabilizados e nós recuperamos a maior parte do dinheiro gasto
com os bancos”, aventurou-se o presidente a proclamar, como justificativa
para ter endossado o bailout iniciado por W. Bush.
ARMÁRIOS VAZIOS
O “Le Monde classificou o discurso de “Obama nos primeiros dias de Obama”,
embora os republicanos o tenham considerado “louvável, mas insuficiente”. O
presidente asseverou que, em agosto, “todas as tropas de combate” serão
retiradas do Iraque (o que não inclui – sobre isso ele não falou – 25 mil a
30 mil que continuarão como “conselheiros” e futuros presuntos aleijões). Já
no Afeganistão, a retirada começaria em julho de 2011 (caso o Taleban esteja
à venda). Por absoluta falta de tempo, não falou de Guantánamo – nem de
Bagram, no Afeganistão. Anunciou, ainda, que prepara lei para que,
finalmente, os gays do Pentágono possam sair dos armários [possivelmente o
pessoal do “Projeto do Século Americano” já começou a estudar o know-how de
Roma].
Obama garantiu ter impedido “uma 2ª Depressão”, e voltou à tese de que,
“após dois anos”, a economia está “crescendo novamente”; os fundos de pensão
“começaram a recuperar parte do valor”; as empresas “começaram a voltar a
investir” e, vagarosamente, “a contratar gente”. Em suma, como ele se
explicou, foi eleito “não para fazer o que era fácil, mas o que era
preciso”. Tipo de declaração capaz – ao lado das relações carnais entre sua
equipe econômica e bancos, mais o desemprego recorde e os bônus dos
banqueiros -, de transformar a eleição para o substituto de Ted Kennedy, o
mais distinto senador dos EUA, orgulho de Massachusetts, e ferrenho defensor
da reforma da saúde, que morreu de câncer, de uma barbada, em uma derrota
para o republicano Scott Brown.
O presidente também defendeu a reforma do sistema financeiro, e concla-mou o
Congresso a “derrotar os lobistas”. Desde que, após a derrota em
Massachusetts, passou a falar em novo imposto sobre os bancos e a apoiar a
proposta do ex-presidente do Federal Reserve, o octagenário Paul Volcker, de
retomar em certa medida à separação entre bancos comerciais e bancos de
“investimento”, Obama tem sido chamado de “populis-ta” por praticamente toda
a mídia dos EUA. Volcker, na década de 80, com seu aumento descomunal no
juro dos EUA de 21%, deflagrou a crise da dívida nos países dependentes,
como o Brasil, e causou a “década perdida”. “É tão bizarro que Volcker seja
essencialmente o herói dessa história”, espantou-se o cineasta Michael Moore
ao analisar tal situação vivida pelo governo Obama.
Segundo o presidente, o bailout e o programa de estímulo evitaram a perda de
“2 milhões de empregos no ano passado”, e para 2010 sua expectativa é de
mais “1,5 milhão”. Obama disse, também, que 18 milhões de norte-americanos
tiveram seus seguros desemprego “estendidos ou aumentados de valor”. Propôs
que US$ 30 bilhões arrecadados do pagamento do bailout fossem destinados aos
bancos comunitários, para garantir mais credito para as pequenas e médias
empresas que geram empregos. Prometeu aumentar os impostos das empresas “que
exportam empregos para o exterior” – o que é a prática de todas as grandes
corporações - e usar esse dinheiro como para dar um crédito fiscal às
empresas “que criam empregos dentro dos EUA”.
“PROSA DE GOVERNAR”
Ele afirmou que “não vai desistir” da reforma da saúde, embora, submetida às
seguradoras e às corporações da saúde privada, esta tenha se transformado
numa caricatura. Questão que se tornou mais complexa, desde que, com a
vitória no Senado em Massachusetts, os republicanos recuperaram sua
capacidade de vetar qualquer votação. “Até o fim do meu discurso desta
noite, mais norte-americanos terão perdido seus planos de saúde. Milhões
perderam este ano”.
Voltando à “poesia de campanha”, em meio à “prosa de governar” – na imagem
de uma colunista da BBC -, Obama se lembrou daqueles tipos que vagaram nos
seus discursos anteriores, e agora mandam cartas. “A mudança não veio rápido
o bastante” para muitos americanos, concedeu. Eles não entendem “porque
parece que o mau comportamento em Wall Street é recompensado mas o trabalho
árduo em Main Street [a economia real], não”. Estão, asseverou, “cansados de
partidarismo, gritaria e mesquinhez”. Preocupou-se, adiante, com a “perda de
fé” de demasiados cidadãos nas “nossas maiores instituições – nossas
corporações, nossa mídia, e sim, nosso governo”. “Maiores instituições”: os
monopólios e bancos que tiram o couro das famílias norte-americanas e dos
povos do mundo inteiro; a mídia que mente e mente de novo para dar suporte à
guerra e à especulação desenfreada e, sim, o governo. Dos monopólios, para
os monopólios e pelos monopólios.
ANTONIO PIMENTA
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