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Austeridade: por
que e para quem?
Os bancos
internacionais que foram resgatados pelos governos (dos seus próprios maus
empréstimos e maus investimentos), agora importunam os governos a quem
emprestaram, para que eles mostrem que são capazes de pagá-los. Os bancos
ameaçam tornar os empréstimos muito mais caros, mesmo impossíveis, a menos que
tais governos imponham “a austeridade”. Quase todos os líderes políticos atuais
dos principais países capitalistas responderam positivamente à exigência dos
bancos pela austeridade, mas quem pagará os impostos aumentados e quem sofrerá a
redução dos gastos do governo?
RICHARD D.
WOLFF*
Claramente, a crise capitalista global iniciada em
2007 não será curta nem superficial. O resgate pelo governo do setor financeiro
dos EUA, bombeou bastante dinheiro extra dentro da economia e reduziu as taxas
de juros suficientemente para dar aos bancos e ao mercado de ações a
intensamente propagandeada “recuperação”, que começou em março de 2009 e acabou
agora. E o pior é que essa “recuperação” nunca atingiu a maior parte do resto da
economia. Também fracassaram os esforços para ampliá-la ou estendê-la para além
de um débil ano. Esse fracasso custou a Washington trilhões de dólares que o
governo tomou emprestado e que agora os credores exigem garantias de que eles
serão pagos com juros. Exigências semelhantes são feitas hoje a muitos outros
governos que, do mesmo modo, contraíram pesados empréstimos para enfrentar a
crise nos seus países.
A garantia pedida
pelos credores é “a austeridade”. Os credores querem que os governos aumentem os
impostos, ou cortem gastos, ou ambos. Os governos, assim, terão mais dinheiro
disponível para pagar os juros e reembolsar os empréstimos. Os governos que não
conseguirem impor a austeridade, enfrentarão juros mais altos nos novos
empréstimos, e na renovação dos antigos, ou lhes serão negados outros
empréstimos, o que mutilaria as suas operações habituais. A austeridade é ainda
outro fardo extremo imposto à economia global pela crise capitalista (além do
sofrimento de milhões de desempregados, da redução do comércio global, etc.).
Quem são esses
credores que estão exigindo austeridade? As empresas financeiras presentes
globalmente – a maior parte, bancos que entraram em colapso com a crise e foram
resgatados por seus governos – são, no conjunto, também os principais credores
desses governos. Os bancos possuem dívidas dos seus próprios governos, mas
também dívidas de outros governos. Por exemplo, os principais bancos na França e
na Alemanha estão entre os principais credores do governo grego. Bancos dos EUA
e empresas financeiras correlatas possuem montantes significativos das dívidas
de outros governos, e bancos de outras nações possuem muito da dívida do governo
dos EUA.
A crise de 2007
congelou o sistema de crédito que sustenta a produção capitalista. Tomadores
privados de empréstimos – empresas e pessoas físicas – não podiam mais pagar os
empréstimos porque os seus investimentos haviam gerado muito pouco e os seus
rendimentos não haviam crescido o bastante. Os bancos fracassaram em avaliar
adequadamente os riscos, ao decidir quanto emprestar e a quem. Por isso,
deixaram de emprestar a tomadores de empréstimo privados, porque tinha ficado
demasiado arriscado. Como os tomadores privados de empréstimos tornaram-se
inadimplentes e atrofiaram-se novos empréstimos, o capital dos bancos e os seus
lucros entraram em colapso. A totalidade do sistema capitalista foi travado
porque o crédito se tornara indisponível. A única solução que a maior parte dos
líderes dos países capitalistas puderam conceber foi descongelar o crédito
através da garantia governamental de solvência dos bancos, da garantia [do
governo] a muitas dívidas privadas, do investimento e empréstimos maciços [do
governo] a bancos privados, e, por último, tornando-se [os governos]
tomadores de empréstimos de uma enorme parcela de fundos creditícios. Os
bancos, em todo lugar, emprestaram aos governos porque tinha ficado perigoso
emprestar a quase qualquer outro. Os governos, em todo lugar, usaram o dinheiro
emprestado para resgatar os bancos e outras empresas financeiras.
Essa peculiar “nacionalização” da dívida
serviu ao capitalismo tendo o governo a função temporariamente de
emprestador e de tomador de empréstimo como último recurso. A nacionalização
descongelou o sistema de crédito suficientemente para deter a crise, impedindo o
colapso global. Poucos políticos (e poucos outros) incomodaram-se muito, em 2008
e no início de 2009, com as consequências de aumentar tão maciçamente as dívidas
do governo. A possível aparição de um colapso do sistema capitalista sobrepujou
qualquer preocupação com o “longo prazo”.
Os bancos internacionais que foram resgatados
pelos governos (dos seus próprios maus empréstimos e maus investimentos), agora
importunam os governos a quem emprestaram, para que eles mostrem que são capazes
de pagá-los. Os bancos ameaçam tornar os empréstimos muito mais caros, mesmo
impossíveis, a menos que tais governos imponham “a austeridade”. A maior parte
dos líderes políticos reconhece que as ameaças dos bancos, se executadas sob a
batuta deles, acabariam, rapidamente e mal, com as suas carreiras. Todos os
capitalistas veem numa possível inadimplência governamental o espectro de um
outro congelamento de crédito com terríveis consequências para o capitalismo
global. Pior ainda para os bancos: governos inadimplentes provavelmente não
seriam capazes outra vez de tomar emprestado para resgatar novamente os bancos.
Quase todos os
líderes políticos atuais dos principais países capitalistas responderam
positivamente à exigência dos bancos pela austeridade (como no recente encontro
do G-20 no Canadá). Isto imediatamente levantou um conflito político básico que
sempre ferve em fogo brando dentro do capitalismo: quem pagará os impostos
aumentados e quem sofrerá a redução dos gastos do governo? Militantes na Europa
já marcharam e manifestaram-se contra a austeridade como um plano inaceitável
para fazer os trabalhadores pagarem o estrago; mais greves gerais estão
previstas em muitos países europeus, com uma greve geral europeia programada
para 29 de setembro. Enquanto isso, os capitalistas trabalham com políticos para
definir como “razoáveis em tempos de crise” os programas de austeridade que
misturariam aumentos de impostos (principalmente sobre os trabalhadores) e
cortes de gastos (principalmente sobre os trabalhadores).
Como disse um
motorista de caminhão de Atenas: “Empregados públicos aqui não trabalham
bastante, então é razoável cortar o seu salário”. Um funcionário público de
Paris considera “razoável aumentar por alguns anos a idade oficial de
aposentadoria; todos nós agora vivemos mais”. Um empregado de escritório de
Minneapolis concorda em que é “razoável, em tempos de crise, virar-se com menos
serviços públicos”. Um técnico de laboratório de Nova York apoia um novo imposto
sobre os celulares, considerando-o “provavelmente razoável; afinal, a gente usa
eles excessivamente”. Marcadamente, tais noções “do que é razoável” silenciam
sobre outras possíveis e, para dizer o mínimo, mais “razoáveis” formas de
austeridade.
Vamos considerar
alguns tipos “razoáveis” de alternativas de austeridade (isto é, austeridade
para outros) e então questionar a austeridade para si próprio. Esforços sérios
para arrecadar impostos sobre o faturamento das multinacionais sediadas nos EUA,
especialmente aquelas que usam mecanismos internos de preço para escapar à
tributação norte-americana, gerariam novas e vastas receitas federais. O mesmo
se aplica aos indivíduos ricos. Os EUA não têm qualquer imposto federal sobre
a propriedade de ações, títulos e contas de corretagem (Estados e municípios
também não cobram qualquer imposto sobre a propriedade). Se o governo
federal cobrasse um imposto de 1% sobre ativos entre US$ 100 mil e US$ 499 mil,
e de 1,5% sobre ativos acima de US$ 500 mil, isso arrecadaria muita receita
federal nova (os primeiros US$ 100 mil de todas as pessoas poderiam ser isentos,
assim como o imposto de renda atual isenta os primeiros poucos milhares de
dólares da renda individual). A saída dos desastres do Iraque e do Afeganistão
faria algo semelhante. Acabar com as isenções de impostos para
instituições educacionais privadas super-ricas (Harvard, Yale, etc.) e para
instituições religiosas (os frequentadores precisariam, então, pagar os
custos das suas igrejas) estariam entre as muitas outras medidas alternativas
“razoáveis” de austeridade. Alternativas comparáveis aplicam-se – e há lutas por
elas – em outros países.
*
Professor Emérito de Economia da Universidade de Massachusetts.
Professor-visitante da New School University e do Brecht Forum, Nova Iorque.
Ex-professor de economia da Universidade de Yale e da Universidade de Paris I (Sorbonne).
Artigo publicado originalmente na Monthly Review, 03/07/2010. |