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A trapaça do
“desmatamento evitado”, a British Petroleum e outros temas ecológicos
Os textos abaixo
foram originalmente publicados no portal “Alerta em Rede”, do qual o autor,
Nilder Costa, é editor. São, na verdade, três artigos: “A trampa ambientalista
do ‘desmatamento evitado’”, “Vazamento no Golfo do México: cadê o Greenpeace?” e
“ONGs e British Petroleum, o abraço de afogados”.
A única
alteração que nossa edição fez em relação aos textos originais foi retirar
algumas informações sobre o vazamento da BP no Golfo do México que eram atuais
na época da publicação do segundo desses artigos – mas que, depois, foram
superadas pela revelação, no Congresso dos EUA, de documentos secretos da BP.
Escolhemos estes
textos para apresentar aos nossos leitores porque são uma exposição clara,
baseada solidamente em fatos, da ação pseudo-ambientalista e seu vínculo com os
monopólios imperialistas. Para os leitores que quiserem ler outros trabalhos do
autor – assim como bons trabalhos de outros autores – recomendamos o acesso a
www.alerta.inf.br, onde poderão encontrar uma variedade de estudos sobre o tema.
C.L.
NILDER COSTA*
A consultora estadunidense David Gardiner &
Associates (DGA) acaba de elaborar o relatório Farms Here, Forests There
- Tropical Deforestation and U.S. Competitiveness in Agriculture and Timber
(Fazendas aqui, Florestas Lá - Desmatamento nos Trópicos e Competitividade dos
EUA na Agricultura e na Indústria Madeireira), por encomenda da ONG Avoided
Deforestation Partners e da poderosa National Farmers Union (União
Nacional de Produtores Rurais).
A tese central do
relatório é que a destruição das florestas tropicais para a produção de grãos,
gado e madeira causou não apenas um agravamento nas mudanças climáticas –
leia-se “aquecimento global” - como também levou a uma dramática expansão de
commodities que competem diretamente com produtos dos EUA. Como está dirigido
claramente para a Amazônia, o relatório está circulando no Brasil e o deputado
Aldo Rebelo (PCdoB-SP), relator da comissão especial de revisão do Código
Florestal, chegou a mencioná-lo no programa Globo News Painel, da Rede Globo,
onde foi um dos debatedores.
O objetivo principal
dos patrocinadores do relatório é convencer o Congresso estadunidense a aprovar
a controversa lei de mudança climática - proposta do presidente Obama – que está
atualmente emperrada do Senado. O “mapa da mina” para os estadunidenses está
explícito neste parágrafo do documento:
“Acabar com o
desmatamento [de florestas tropicais] por meio de incentivos dos EUA e
internacionais de ação climática poderia aumentar a renda agrícola estadunidense
em cerca de 190 a 270 bilhões de dólares entre 2012 e 2030. Este aumento inclui
de 141 a 221 bilhões de dólares em benefícios diretos do aumento da produção de
soja, carne bovina, madeira, óleo vegetal e substitutos para óleo vegetal, além
de uma economia estimada em 49 bilhões de dólares, nos custos do cumprimento de
regulamentações climáticas, devido aos custos mais baixos de energia e
fertilizantes, resultantes da inclusão de compensações (offsets) das
florestas tropicais, de custos relativamente baixos”.
Em resumo, poderiam
matar vários coelhos com uma só cajadada: “economizam” dezenas de bilhões de
dólares para continuar a emitir o demonizado CO2, embolsam outras dezenas de
bilhões com as vendas de soja e outros produtos que não seriam mais produzidos
pelo Brasil, impulsionam o bilionário mercado de carbono que é negociado na
Bolsa Climática de Chicago (CCE), a primeira “bolsa de carbono” do mundo, e, de
quebra, podem posar de bons moços como “salvadores” da Floresta Amazônica.
É tão mirabolante
que poderia até se suspeitar que se trataria de mais um documento apócrifo sobre
a Amazônia para confundir ou desacreditar seus legítimos defensores, mas não
parece ser o caso, uma vez que autores e patrocinadores são reais. David McLane
Gardiner, dono da DGA, é um ambientalista egresso da ONG Sierra Club (onde
trabalhou por 15 anos) e foi importante assessor da Agência de Proteção
Ambiental (EPA) dos EUA, por seis anos, nos dois governos de Clinton. Entre
outras missões, Gardiner chefiou a Força Tarefa para Mudanças Climáticas da Casa
Branca e integrou várias delegações oficiais dos EUA, incluindo a que negociou o
Protocolo de Kyoto (cf. verbete “David Gardiner (environmentalist)”, Wikipedia,
capturado em 21/06/2010).
Como tantos outros,
Gardiner desempenha um importante papel como elo de ligação entre conhecidas
instituições do governo estadunidense e as redes de ONGs ambientalistas. Por
exemplo, Bill White, vice-presidente da DGA e ex-funcionário da EPA, é também
membro da diretoria do Conservation Strategy Fund (CSF), uma das ONGs
estadunidenses que operam na Amazônia. Por sua vez, o CFS é bancado pelo governo
americano via USAID, além de receber contribuições do WWF, Conservation
International, The Nature Conservancy e fundações “filantrópicas” como a Gordon
& Betty Moore Foundation, do bilionário dono da empresa Intel. O CSF integra a
rede de “parceiros” da USAID para operacionalizar o Amazon Basin Conservation
Initiative (ABCI), o famigerado programa de US$ 65 milhões da USAID para a
Amazônia com nítidos propósitos geoestratégicos na região e que já foi
amplamente analisado por este Alerta. Com certa regularidade, o CSF produz
“documentos” atacando a consecução de obras de infra-estrutura na Amazônia, tais
como as rodovias BR-163 (Cuiabá-Santarém) e BR-319 (Manaus-Porto Velho) e a
hidrelétrica de Belo Monte. (cf. “Apagão” à vista: ONGs se articulam em
Altamira, Alerta Científico e Ambiental, 24/05/2006).
De fato, trata-se de
uma outra vertente de grandes produtores rurais estadunidenses em tentar
“controlar” a produção brasileira da oleaginosa. Apenas para recordar, em 2002,
a FOCUS ON SABBATICAL (FOS), entidade que reúne produtores rurais do Canadá e
EUA, trouxe a seus congêneres brasileiros a ideia de reduzir em 29 milhões de
toneladas a produção mundial de soja (então estimada em 182 milhões de
toneladas) para “forçar” uma reversão na queda dos preços do grão no mercado
internacional verificada nos anos anteriores e, com isso, aumentar a renda dos
sojicultores. O plano da FOS era formar um fundo entre os sojicultores dos EUA,
Canadá e Austrália para pagar US$ 165 por hectare da ‘produção evitada’ no
Brasil e na Argentina. Para que a idéia se concretizasse, o Brasil, por exemplo,
teria que reduzir sua produção de soja em 15% por um ano e a terra não plantada
ficaria “repousando” neste ano “sabático”, daí o nome da entidade. Felizmente,
os produtores brasileiros rejeitaram a proposta, mas ficou o precedente. (cf.
Do desmatamento à produção evitada, Alerta Científico e Ambiental,
30/11/2008).
Existem ainda outros
esquemas para pagar o tal “desmatamento evitado” na Amazônia e outras florestas
tropicais. O mais badalado deles é um esquema financeiro conhecido como REDD,
sigla inglesa para ‘Reduzindo Emissões do Desmatamento e Degradação’,
efusivamente patrocinado pelo príncipe Charles, da Inglaterra. O objetivo
declarado de seus mentores é transformá-lo na principal engenhoca pós-Kyoto para
combater o aquecimento global e foi desenhado sob medida para os países
tropicais.
Em qualquer das
vertentes, o conceito básico é um só: a promessa - que jamais será cumprida - de
grandes somas de dinheiro para que produtores rurais brasileiros (e outros do
“Sul”) deixem de produzir, seja em nome de causas nobres, como o da necessária
proteção ambiental, ou de outras meramente mercantis. Por detrás do ardiloso
“desmatamento evitado” se encontra mesmo é a fatídica “produção evitada”.
VAZAMENTO DA
BP: ONDE ESTÁ O GREENPEACE?
“Mais óleo está
vazando agora no Golfo do que em qualquer outro momento de nossa história. Este
é, sem dúvida, o maior desastre ambiental já enfrentado pelos Estados Unidos”,
afirmou a desolada conselheira de energia da Casa Branca, Carol Browner, sobre o
catastrófico vazamento de petróleo da plataforma Deepwater Horizon, operada pela
British Petroleum (BP), no Golfo do México.
Em tal quadro, se
avolumam as críticas, dentro e fora dos EUA, contra a atuação da BP e do próprio
governo estadunidense. Dentre essas vozes, contudo, não se ouve uma das mais
estridentes em casos parecidos: a do Greenpeace. Por exemplo, em janeiro de 2000
houve um acidente com o oleoduto da Refinaria Duque de Caxias (Reduc) que
ocasionou um lamentável vazamento de 1,2 milhão de litros de óleo na baía de
Guanabara. Ato contínuo, o Greenpeace desencadeou uma intensa campanha
internacional contra a Petrobras que chegou, mesmo, a afetar os papéis da
estatal em Wall Street. Entre outras medidas, o Greenpeace e caterva exigiam a
“remoção da Reduc daquela região” e o Ministério Público chegou ao extremo de
anunciar a intenção de interditar a refinaria, alheio ao fato dela ser
responsável, na época, pela produção de 80% dos lubrificantes e 100% do
querosene de aviação consumidos no País, além de abastecer 700 mil residências
com gás natural.
Uma das
interpretações para essa postura infame de dois pesos e duas medidas da ONG é o
“pedigree” das empresas envolvidas: de um lado, uma estatal de país em
desenvolvimento; do outro, uma joia da Coroa Britânica, uma das ex-Sete Irmãs
que formataram a geopolítica do petróleo desde os primórdios da sua exploração.
Outras interpretações nos remetem diretamente ao advento do próprio
ambientalismo, que se entrelaça com poderosas personalidades do establishment
britânico, onde a BP sempre ocupou posição de destaque. Seja como for, a
pergunta que persiste na lambança da BP no Golfo do México é: cadê o Greenpeace?
Ocorre que o
Greenpeace tem companhia – e das boas – em seu paradoxal e eloquente silêncio
sobre o “affair” ambiental que se desenrola no Golfo do México. Segundo matéria
de capa publicada no renomado jornal estadunidense “Washington Post”, algumas
das grandes ONGs ambientalistas que atuam nos EUA também silenciaram sobre o
episódio por causa das suas ligaçõe$ com a BP. Em português não tão castiço,
porque têm o “rabo preso” com a petroleira britânica (V. “Nature Conservancy
faces potential backlash from ties with BP”, Washington Post, 24/05/2010).
Aos fatos.
·
A The Nature Conservancy (TNC) – maior e mais rica ONG do mundo, lista a
BP como um de seus parceiros. Mais que isso, a BP tem assento na direção do
International Leadership Council – criado pela ONG - e já recebeu mais de US$ 10
milhões da petroleira britânica, tanto em “cash” quanto em imóveis. É bom
lembrar que a TNC atua fortemente no Brasil – onde faz acordos “verdes” com
empresas do chamado agronegócio.
·
A
Conservation International (ou Conservação Internacional por aqui)
recebeu US$ 2 milhões em “doações” da BP e criou parcerias especiais com a
petroleira em diversos projetos, incluindo um que tratava de métodos de extração
de petróleo. Além disso, entre 2000 e 2006, John Browne, então diretor executivo
da BP, integrou a diretoria da ONG.
·
O Environmental Defense Fund (EDF), que também atua indiretamente por
aqui, encontrou um jeitinho para burlar sua própria propaganda de não aceitar
doações de empresas. Simplesmente criou uma entidade colateral, a Partnership
Climate Action, em parceria com a BP, Shell e outras mega-empresas do mesmo
calibre. No Brasil, como se recordam nossos leitores, Stephan Schwartzman, do
EDF, teve participação seminal na decolagem do mito Chico Mendes, na organização
do famoso Encontro de Altamira (onde a construção das hidrelétricas de Belo
Monte e outras da região foram adiadas por décadas) e na fundação do Instituto
Socioambiental (ISA), onde ainda integra a Assembleia de Sócios, órgão máximo de
decisão com todos os poderes da ONG.
Outros monstros
sagrados do ambientalismo estadunidense – os lendários Sierra Club e
Audubon Society - igualmente se “amasiaram” com a BP para criar um outro
colateral, o American Wind & Wildlife Institute.
Como bem assinala o
Washington Post, o prestígio e a credibilidade que essas mega-ONGs
estadunidenses ainda tinham na mídia e na opinião pública estão afundando junto
com a BP nas águas profundas do Golfo do México. Um autêntico abraço de
afogados.
* Engenheiro, membro fundador e diretor do
Movimento de Solidariedade Ibero-Americana (MSIa), co-autor de “Máfia Verde”,
“Máfia Verde 2: ambientalismo, novo colonialismo” e de “A Hora das Hidrovias:
estradas para o futuro do Brasil”. |