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O
assassinato de John Kennedy (1)
Em 1963, duas semanas após o
assassinato do presidente John Kennedy, o historiador e general Nelson Werneck
Sodré publicou “Quem Matou Kennedy”. Na época em que surgiu o livro, Nelson
Werneck Sodré encabeçava o Departamento de História do Instituto Superior de
Estudos Brasileiros (ISEB). Após o golpe de 1964, com a depredação e depois
fechamento do ISEB pela ditadura, “Quem Matou Kennedy” foi um dos primeiros
livros do historiador a ser proibido e apreendido nas livrarias.
Quem não viveu aquela época provavelmente não sabe que um dos problemas que
havia, depois de 1964, era ter certos livros em casa. Mesmo antes do AI-5
(dezembro de 1968), havia momentos em que os livros tinham que sumir – e,
realmente, sumiam – na expectativa, ou apenas possibilidade exagerada pela
tensão, de uma visita indesejada. Não era necessário que fossem livros
especialmente incendiários – se é que eles existem. Às vezes era impossível
saber o que devia sumir e o que devia ficar: um exemplar de “O Vermelho e o
Negro”, romance de Stendhal publicado em 1830 – e um dos clássicos da literatura
francesa - foi apreendido, lá por 1965 ou 1966, talvez 1967, na casa de um
poeta, no Rio de Janeiro. O poeta conseguiu escapar – hoje, convertido e
esgotado o seu élan poético, escreve arengas direitistas na imprensa - mas o
título do livro foi suficiente para que algum gênio concluísse que se tratava de
obra subversivíssima.
“Quem Matou Kennedy” era desses livros que não escapavam a uma visita desse
tipo. Lembro que foi numa época dessas que um exemplar, na casa de meu pai,
desapareceu um dia. Mas, graças aos céus, esperamos em vão pela visita.
Em 1989, o grande historiador incluiu “Quem Matou Kennedy” no livro “A Marcha
para o Nazismo” - um estudo da fascistização da sociedade dos EUA e suas bases
políticas, sociais e econômicas. Foi desse último livro que retiramos o texto
que hoje passamos a publicar.
Nelson Werneck Sodré foi um grande amigo da Hora do Povo, para quem enviou
vários de seus textos inéditos – sempre em manuscrito. Tivemos a honra de
publicar pela primeira vez, no começo dos anos 90, o seu ensaio “A Farsa do
Neoliberalismo”, um claro descortinar do que aconteceria nos 10 ou 12 anos
seguintes, com a certeira previsão da derrocada inevitável daquele estado de
coisas.
A ele, pensador do Brasil e general do Exército Brasileiro, a nossa homenagem.
CARLOS LOPES
NELSON WERNECK SODRÉ
Na manhã de 22 de novembro de 1963
os jornais de Dallas, Texas, publicaram com destaque textos em que apareciam
frases como estas: “Por que Kennedy substituiu a Doutrina de Monroe pelo
espírito de Moscou?” e “Por que Gus Hall, líder comunista americano, elogiou
todas as ações políticas do governo e anunciou que o Partido Comunista apoiaria
a reeleição de Kennedy em 1964?”1.
O presidente John F. Kennedy deveria chegar a Dallas pela manhã, onde
pronunciaria um discurso, anunciado como de abertura de campanha pela reeleição,
no Texas. Começava pelo pior: Dallas era uma cidade onde a opinião direitista
extremada predominava de forma absoluta; ali Kennedy não fora apoiado, em sua
campanha presidencial, por nenhum jornal, e merecera deles, depois de empossado,
a mais violenta campanha de oposição. O sentimento de numerosas camadas podia
ser expresso em cartazes como aqueles que começaram a aparecer nas ruas, ao
aproximar-se a hora da chegada do presidente: “Por causa de suas ideias
socialistas sinto completo desprezo por ti, Kennedy”. 2
Kennedy sabia do ambiente em que seria recebido em Dallas. Seus assessores o
avisaram, antes, de que havia riscos, até certo ponto inevitáveis. Stevenson
[N.HP: Adlai Stevenson, um dos líderes do Partido Democrata, na época embaixador
dos EUA na ONU] telefonara para a Casa Branca para solicitar a Salinger [N.HP:
Pierre Salinger, secretário de imprensa de Kennedy] que evitasse a ida de
Kennedy a Dallas, onde ele, dias antes, fora rudemente desfeitado em público
recebendo os maiores insultos. Conseguira falar a Arthur Schlesinger [N.HP:
historiador e assessor especial de Kennedy] relatando suas apreensões. Sua
advertência não foi levada em consideração. Kennedy decidira realizar a viagem e
considerava importante seu contato com o povo do Texas, terra de Johnson, seu
vice-presidente, que o acompanharia na visita.
[NOTA DO AUTOR: Depoimento de professor brasileiro José Honório Rodrigues, que
estava em Dallas quando do crime, pode esclarecer bem o clima ali reinante:
“Primeiramente, o incidente com Adlai Stevenson, no dia comemorativo das Nações
Unidas, quando foi injuriado e atacado pelos extremistas da direita. (...) Era
proibido erguer no Texas a bandeira das Nações Unidas, e apesar das desculpas
pedidas, nada mudou no ambiente irresponsável e odiento daquela cidade (...)
Depois lembrei-me do discurso pronunciado por um jornalista de Dallas, ao saudar
um grupo de jornalistas e estudiosos latino-americanos, sem uma palavra sobre a
América Latina – que Dallas despreza com todo seu vigor – e todo dedicado aos
males e ao perigo do comunismo. Vira, depois, no dia 17 de novembro, o programa
Lawless Government (Governo sem Lei), feito por Dan Smoot, de ataque brutal ao
governo de Kennedy e ao seu programa de ajuda externa. O tom, os conceitos, as
palavras, o ar de falsa indignação lembravam-me as campanhas de certos políticos
brasileiros, a fúria e a agressão do ataque pessoal, que não esperava encontrar
nos Estados Unidos, mesmo no Texas. Smoot afirmava, em linguagem simples e
aparentemente ingênua, que o governo de Kennedy era sem lei, desrespeitava a
Constituição, o Congresso e ameaçava a liberdade americana, o American way of
life; Dean Rusk, Earl Warren, eram comunistas; e Kennedy servia aos comunistas.
(...) Na própria universidade, a iniciativa é sempre conservadora, quando não
direitista. A grande visita ao campus da universidade, um mês antes do
assassinato, fora a de Madame Nhu, cujo sucesso empolgou o grande público que
acompanhou suas conferências. (...) O ambiente não só de Dallas, mas de Austin,
a capital do Texas, variava não de natureza, mas de grau. Se lá dominava o ódio,
em Austin dominava a indiferença ao presidente, e em ambas o conservadorismo
hostil ao progressismo da Nova Fronteira. A literatura de ódio contra Kennedy,
em Dallas e Arlington, quinze milhas ao oeste de Dallas, foi intensamente
divulgada”. (José Honório Rodrigues: “Um assassinato visto do Texas”, in
América, Mito e Violência, Rio, 1968, coletânea de vários autores)].
O automóvel em que viajavam – ele, sua esposa, mais o governador do Texas,
Connally, e esposa – era um carro aberto. Ao aproximar-se de um parque, a leste
do viaduto, a senhora Connally comentou com Kennedy o calor dos aplausos que o
presidente vinha recebendo. Kennedy tinha, no povo de Dallas e do Texas,
realmente, numerosos simpatizantes, particularmente entre os negros. Os aplausos
não o surpreenderam, e assim respondeu à sua interlocutora. Às 12h31 o carro
percorria a rua ao lado do parque, sobre o qual passava o viaduto, quando se
ouviram tiros, percebidos por poucas pessoas, porque se confundiram com o ruído
das manifestações. Nesse momento Kennedy levou a mão à testa e tombou sobre o
assento. Sua esposa, assustada e surpreendida, tentou acudi-lo e ampará-lo, e
suas vestes cobriram-se de sangue. Connally também fora atingido e tombara. O
carro ganhou velocidade, conduzindo os alvejados para o Hospital Parkland.
Kennedy faleceu menos de uma hora depois de ter ali dado entrada.
Às 14h15 foi preso num cinema, pela polícia de Dallas, o indivíduo Lee Harvey
Oswald. Segundo informações que as autoridades policiais de Dallas se apressaram
em divulgar, Oswald vivera três anos na União Soviética, era membro do Comitê
Jogo Limpo com Cuba, pertencera à Marinha e ali fora tido como bom atirador. Nos
testes de parafina – esclarecia a polícia, logo depois – foram encontrados
vestígios de pólvora em suas mãos. Outros indícios contra Oswald foram, a
seguir, distribuídos pela polícia: ele escrevera a uma loja especializada
solicitando a venda de um fuzil, com nome falso e endereço trocado; em seu poder
foi encontrado papel com esse nome e esse endereço, bem como um mapa da cidade
de Dallas onde o local, do qual, presumidamente, haviam sido feitos os disparos,
estava assinalado. Teria, além disso, em conflito a pouca distância do local do
atentado, assassinado um patrulheiro e fugido: a descrição do fugitivo coincidia
com os traços de Oswald. No fuzil encontrado, havia impressões digitais, embora
imperfeitas.
Para a polícia de Dallas, que encarava o atentado como crime comum, estava tudo
resolvido e claro: as provas eram concludentes e até abundantes; a ação fora
pronta e enérgica. O capitão Will Fritz, um de seus mais destacados elementos,
sentia-se seguro para afirmar: “Temos o caso no bolso. Raramente estive tão
convencido da culpabilidade de um assassino nas investigações que efetuei até
agora. Ele é o assassino”. Acabara de interrogar Oswald. As provas pareciam,
realmente, esmagadoras: vários funcionários da Biblioteca de Dallas, onde foram
disparados os tiros, segundo versão oficial, viram Oswald no sexto andar do
edifício, antes e depois do atentado; as cápsulas das três balas que mataram o
presidente e feriram o governador do Texas foram encontradas na janela em que
estiveram Oswald; o fuzil fora encontrado escondido no sexto andar; Oswald tinha
comprado esse fuzil, por reembolso postal, sob nome falso, em março; havia uma
fotografia de Oswald com o fuzil em punho; a mulher de Oswald afirmara que o
fuzil desaparecera de seu domicílio no dia do crime; um policial vira Oswald
sair da Biblioteca, depois do atentado, tendo se identificado como funcionário;
tomara o ônibus para casa e dissera ao motorista e a uma passageira que o
presidente Kennedy havia sido assassinado; passara, depois, para um táxi; três
testemunhas viram quando disparara contra um policial que o interpelara na rua:
em descampado, substituíra as balas deflagradas do seu revólver, tornando a
carregá-lo; tentara matar o policial que o fora prender dentro de um cinema;
impressões palmares de Oswald foram encontradas no fuzil; exames feitos em sua
mão, com parafina, revelaram que acabara de disparar uma arma de fogo. Se nisso
tudo não há lógica e há contradições, não é problema nosso, mas da polícia de
Dallas.
A essa esmagadora versão policial juntam-se outras versões, entre elas a de que
Oswald pretendia assassinar Connally e não Kennedy, porque fora afastado do
serviço militar com desonra e, apelando para Connally, então secretário da
Marinha, não fora atendido. A versão oficial, entretanto, foi aquela que
mereceu, de início, a preferência das agências telegráficas internacionais.
Jornais brasileiros publicaram, a 24 de novembro, a conclusão: “O capitão Will
Fritz, chefe do Departamento de Homicídios da Polícia de Dallas, anunciou hoje,
oficialmente, que a polícia de Dallas tem provas de que o presidente Kennedy foi
assassinado por Lee Oswald, e que agiu sem cúmplices”3.
“Elementar, meu caro Watson”, diria certamente Sherlock Holmes: o presidente dos
Estados Unidos visita uma cidade onde os ânimos foram preparados para
hostilizá-lo; avisado dos perigos, insiste em realizar a visita; pretende
continuar a campanha pela sua reeleição; aceita desfilar em carro aberto; é
assassinado. Assim, a polícia mais organizada do mundo, no país mais policiado
do mundo, é impotente para assegurar a vida do homem mais guardado do mundo. Mas
isso não tem grande importância: a polícia, que fora impotente para assegurar a
vida da mais alta autoridade do país, está suficientemente organizada para
descobrir e prender o assassino duas horas depois do crime, e para armar contra
ele um conjunto de provas esmagador, solucionando, em prazo curtíssimo, um
problema que não pudera prevenir.
O caso não se resumiria nisso, entretanto, se é que é pouco: dois dias depois do
assassínio de Kennedy, no dia 24, às 12h21, no momento em que ia ser
transportado de uma para outra prisão, nos subterrâneos da polícia de Dallas,
ante um aparato bélico inédito, diante de câmeras de televisão, Lee Oswald é
assassinado por Jack Ruby, proprietário de um clube noturno, desordeiro
conhecido, jogador, marginal com numerosos antecedentes policiais.4 Noticiou-se,
em seguida, que o FBI havia sido avisado, nesse mesmo dia, de que Oswald seria
eliminado. Pouco depois a agência alemã DPA divulgava que o FBI descobrira
diversas provas da inocência de Oswald. Entre elas, a coincidência, certamente
ligada à eficiência americana, de que um enfermeiro do Hospital de Parkland já
estava preparado para receber Oswald, lá, antes mesmo de seu assassínio na
prisão. Outra coincidência, e esta ligada, certamente, à modelar eficiência da
polícia de Dallas, estava na distribuição da fotografia e biografia de Oswald
horas depois do assassínio do presidente.
O fato é que, no recinto da polícia de Dallas, sob os cuidados de dezenas de
policiais fortemente armados, com as mãos algemadas, Oswald foi assassinado por
um homem que de forma alguma poderia estar naquele local, ao qual tiveram
ingresso os jornalistas e pessoal da televisão e do rádio mediante rigorosa e
minuciosa revista individual. Pois ali penetrou Ruby, criminoso conhecido,
armado, e ali, diante do aparato policial e diante do público de milhões de
norte-americanos que assistiam à televisão, eliminou o suposto criminoso, isto
é, do ponto de vista formal, destruiu aquele sobre quem aquela mesma polícia
havia acumulado um convincente conjunto de provas. Um gangster como Ruby tinha,
pois, condições de acesso ao recinto e realizara seu propósito. E as fotografias
reproduzidas nos jornais de todo o mundo mostram a impassibilidade dos guardas
que rodeiam Oswald, assistentes do gesto de Ruby. Essas fotografias são
irrespondível documento da conivência da polícia de Dallas. Mas não somos nós os
primeiros a levantar o problema da conivência.
O Lubbock Texas Avalanche Journal, ao noticiar esse espantoso crime, escreveu o
seguinte: “Trágico foi a estupidez da polícia de Dallas, em sua tentativa de
transferir Lee Harvey Oswald da prisão da cidade para a do condado. O fato de
que um estranho pudesse situar-se a uma distância de um pé (30 cm) de Oswald, e
feri-lo fatalmente, enquanto os policiais estavam ao seu lado às dezenas, é tão
difícil de acreditar quanto a real e amarga história do meio-dia de sexta-feira
última”. O circunspecto New York Times escreveria: “Foi simplesmente uma grande
violação da responsabilidade policial, não importa quais fossem as exigências de
repórteres e cinegrafistas, transladar Oswald em público, sob circunstâncias nas
quais poderia ser facilmente vítima de um ataque”.
O presidente do Conselho Municipal de Dallas explicou a presença de Ruby no
subterrâneo desta maneira: “Ele se encontrava ali porque havia ajudado os
jornalistas a deslocar suas pesadas câmeras de televisão. Nada vejo que se
pudesse ter feito para proibir o acesso de jornalistas e fotógrafos ao local”.
Ruby, ouvido sobre o crime, afirmou que matara Oswald como desforra para a
esposa do presidente assassinado e porque acreditava que Oswald fazia parte de
uma conspiração comunista que teria culminado no assassínio de Kennedy. É
curioso que a maior manchete já aparecida no vespertino carioca O Globo fosse
justamente a seguinte: “MATOU OSWALD PARA VINGAR JACQUELINE”, e que a revista O
Cruzeiro, no artigo de sua página final, classificasse o atentado a Kennedy como
obra de um demente, despojando-o de toda e qualquer significação política.
Notas:
1 - Jornal do Brasil, Rio, 26 de novembro de 1963.
2 - Jornal do Brasil, Rio, 23 de novembro de 1963. A informação consta de
despacho da UPI distribuído a vários jornais em nosso país.
3 - O Estado de São Paulo, 24 de novembro de 1963.
4 - O Globo, Rio, 25 de novembro de 1963.
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