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O assassinato de
Patrice Lumumba
“Nous ne sommes
plus vos singes” (“Nós não somos mais vossos macacos”), disse o
primeiro-ministro do Congo, Patrice Lumumba, ao rei Baudoin, da Bélgica, no dia
da independência do país, 30 de junho de 1960.
Baudoin, nesse
dia, proferira um dos mais arrogantes discursos já ouvidos de um colonizador. Na
então Leopoldville (hoje, Kinshasa), o rei belga fizera uma elegia à
“genialidade” de seu tio-avô, Leopoldo II – que em 1885, por cima até do Estado
belga, tornara o Congo uma fazenda pessoal, com sua população como escravos.
O discurso de
Lumumba foi um dos mais irrecorríveis libelos já pronunciados contra a
escravidão, o racismo e o colonialismo – que em breve iremos publicar.
Assim nascia, há
50 anos, a República Democrática do Congo. Um país que teve a independência
liderada por um homem como Patrice Lumumba – um dos maiores que já existiram – e
que conseguiu sobreviver aos colonialistas belgas, aos imperialistas
norte-americanos, e a Mobuto, está, certamente, destinado a um grande papel na
História da Humanidade.
O texto que
publicamos nesta página saiu originalmente em nossa edição de 7 de novembro de
2003. Para a republicação de agora, reescrevemos, para maior clareza, alguns
trechos, revisamos a base documental, acrescentamos algumas informações e
corrigimos um problema factual – a verdadeira identidade de Joseph Scheider,
agente da CIA que depôs na Comissão Church, enviado a Leopoldville para
envenenar Lumumba.
C.L.
CARLOS LOPES
Até hoje o conjunto dos documentos sobre a ação do
governo dos EUA para assassinar o líder da independência do Congo e
primeiro-ministro do país, Patrice Lumumba, não foram liberados. No entanto, em
1975, o relatório da comissão presidida pelo senador Frank Church revelou o
conteúdo da maior parte deles.
Após Watergate e o
arrombamento do consultório do psicanalista de Daniel Ellsberg - que havia
divulgado a documentação secreta sobre o Vietnã conhecida como “Papéis do
Pentágono” - o escândalo da ação ilegal da CIA dentro dos EUA fez com que Gerald
Ford, que sucedera Nixon, instalasse uma comissão de inquérito, sob a chefia de
Nelson Rockefeller. Era uma investigação de fancaria – Rockefeller, durante o
governo Eisenhower, tinha sido o mentor das operações encobertas da CIA.
Porém, as
informações começaram a vazar. Daí, a investigação do Congresso, que levou à
demissão de William Colby, diretor-geral da CIA (e à nomeação de seu sucessor,
George H. Bush, indicado por Nelson Rockefeller).
Colby fora um dos
maiores assassinos da CIA durante quase 30 anos. Após sua demissão da CIA,
tornou-se pacifista – em especial, ativista anti-guerra nuclear. Em 1996, Colby
desapareceu, durante um trajeto de caiaque. Seu corpo foi encontrado nove dias
depois – o inquérito subsequente concluiu que ele sofrera um infarto enquanto
remava, caindo fora do caiaque e afogando-se.
No início de seus
vários depoimentos no Congresso, Colby parecia querer reconhecimento pelos
crimes da agência. Bem antes da Comissão Church, em 1971, ao lhe ser perguntado
se era verdade que o Programa Phoenix - concebido e dirigido por ele no Vietnã -
assassinara 60 mil “suspeitos” de serem “ativistas comunistas”, Colby
respondeu que não, que os assassinados tinham sido “entre janeiro de 1968 e maio
de 1971”, precisamente, 20.587 vietnamitas.
O deputado Ogden
Reid, então republicano de Nova Iorque, um ex-embaixador dos EUA, perguntou: “Você
está seguro de que sabemos distinguir uma pessoa leal ao Vietcong da
coletividade de cidadãos do Vietnã do Sul?”.
Colby: “Não”.
Reid insistiu: “Você
declararia peremptoriamente que o [Programa] Fenix nunca perpetrou
matança premeditada de civis não-combatentes?”.
Resposta de Colby: “Não,
eu não poderia dizer isso... Eu certamente jamais diria isso”.
Em suas memórias –
que têm o título de “Homens de Honra” - Colby afirma que “a CIA nunca matou
alguém por si própria”, isto é, sem ordem superior – sem ordem do presidente
dos EUA, única autoridade acima da CIA. Todas as provas mostram que a afirmação
é verdadeira. Naturalmente, com uma exceção: quando a vítima foi o próprio
presidente.
EISENHOWER
O assassinato de
Lumumba é o primeiro dos assassinatos de líderes políticos pela CIA relatado
pela Comissão Church:
“A comissão
coletou sólida evidência de uma conspiração para assassinar Patrice Lumumba. A
forte hostilidade para com Lumumba, proclamada pelos mais altos níveis do
governo, pode ter tido a intenção de iniciar uma operação de assassinato; no
mínimo, ela engendrou tal operação. A evidência indica que é provável que a
forte inquietação que o presidente Eisenhower expressou sobre Lumumba na reunião
do Conselho de Segurança Nacional de 18 de agosto de 1960 foi tomada por Allen
Dulles [diretor da CIA e irmão do secretário de Estado de Eisenhower, Foster
Dulles] como uma autorização para assassinar Lumumba. Nota da
Comissão Church: “De fato, um membro do Conselho presente à
reunião de 18 de agosto acredita que testemunhou uma ordem presidencial para
assassinar Lumumba” (United States Senate, Select committee to study
governmental operations with respect to intelligence activities, “Interim
Report: III. Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders”, pág.
13).
Realmente, não se
tratava de uma “autorização”, eufemismo adotado, como outros - segundo as
memórias de Colby - devido à pressão da CIA. Todos os testemunhos constantes do
relatório demonstram que Eisenhower ordenou o assassinato de Lumumba.
Patrice Lumumba
viajara a Washington no mês anterior à ordem de Eisenhower. Recebera algumas
“ofertas de ajuda” do governo americano. No entanto, o primeiro-ministro do
Congo não estava disposto a ver - num dos países de maiores riquezas naturais do
mundo, inclusive a maior reserva de urânio da Terra - a exploração belga, contra
a qual lutara por longos anos, ser substituída pela dos norte-americanos.
Nos seus 67 dias de
governo, Lumumba não fez nenhuma nacionalização ou restrição aos interesses
americanos. No entanto, era óbvio que o negro - e pobre, líder de um povo pobre
- Lumumba não era daqueles que se submetiam. Daí o ódio de Eisenhower, no qual
era evidente o elemento racista.
“Na semana que se
seguiu à reunião de 18 de agosto”, prossegue o relatório Church, “um
conselheiro do presidente frisou ao Grupo Especial – a subcomissão do Conselho
responsável por planejar as operações encobertas - ‘a necessidade de ação muito
direta’ contra Lumumba e incitou a uma decisão que não descartasse a
consideração de ‘qualquer tipo de atividade que possa contribuir para livrar-se
de Lumumba’. No dia seguinte, Dulles telegrafou ao Funcionário da Base da CIA em
Leopoldville, República do Congo, que ‘nos altos escalões’ a ‘remoção’ de
Lumumba era ‘um urgente e prioritário objetivo’. Logo depois, o serviço
clandestino da CIA formulou uma trama para assassinar Lumumba” (III. “Assassination
Planning and the Plots, A. Congo”, pág. 13).
DULLES
O partido de Lumumba,
o Movimento Nacional Congolês (MNC), vencera por ampla margem as eleições que
precederam a declaração de independência, no dia 30 de junho de 1960.
Logo em seguida, a
CIA enviou à sua base no Congo um novo membro, Victor Hedgman. É este que o
relatório Church designa como o “Funcionário da Base”. A razão é que ele tinha
contato direto com a direção da CIA, sem subordinar-se ao chefe da base, Larry
Devlin.
Hedgman, ao depor na
comissão Church “disse que o assassinato de Lumumba não foi discutido em seus
comunicados à CIA anteriores à sua partida do Congo, nem durante seu breve
retorno ao quartel-general em conexão com a visita de Lumumba a Washington em
julho”.
Realmente, os
telegramas entre a CIA e sua base em Leopoldville (atual Kinshasa) só começaram
a se referir diretamente ao assassinato a partir de agosto, ou seja, depois da
reunião em que Eisenhower “expressou” sua “forte inquietação”.
Mas a CIA já estava
conspirando: um telegrama do mesmo dia da reunião, do Congo para a sede da CIA,
depois de mostrar dúvidas sobre se Lumumba era ou não comunista, fala em “ação
para evitar outra Cuba” e que “o objetivo operacional da base é
substituir Lumumba pelo grupo pró-ocidental”.
No mesmo dia, o
chefe da Divisão África da CIA, Bronson Tweedy, respondeu que “estava
procurando a aprovação do Departamento de Estado para a operação proposta,
baseada na ‘sua e nossa crença de que Lumumba deve ser removido’”.
Logo no dia
seguinte, já depois da reunião com Eisenhower, “o diretor do ramo de
operações encobertas da CIA, Richard Bissell, assinou um telegrama para
Leopoldville, dizendo que ‘você está autorizado a prosseguir com a operação’”
(rel. cit. pág. 15).
Cinco dias depois,
em 24 de agosto, Hedgman enviou o seguinte relatório ao diretor da CIA, Allen
Dulles, sobre os congoleses que a CIA estava subornando: “abordaram Kasavubu
[presidente do Congo] com plano de assassinar Lumumba. Kasavubu recusou
concordar, dizendo-se relutante [quanto] ao recurso à violência [por]
não existir outro líder com suficiente estatura para substituir Lumumba”
(rel. cit. Pág. 15).
No dia posterior,
Dulles foi a uma reunião do Grupo Especial. As minutas da reunião descrevem que
depois de Dulles expor o “esboço de alguns planos da CIA para ações políticas
contra Lumumba, tais como arranjar um voto de não-confiança no parlamento
congolês, Gordon Gray, o Assessor Especial do Presidente para Assuntos de
Segurança Nacional, relatou que o presidente ‘expressou sentimentos extremamente
fortes sobre a necessidade de uma ação sem rodeios’”.
Dulles não tinha
escrúpulos quanto a assassinatos. Mas não era um idiota. Evidentemente, ele
sabia que os tais “planos de ação política” eram inviáveis, porque o MNC tinha
maioria ampla no parlamento. Portanto, seu objetivo ao apresentá-los era obter
uma confirmação explícita, por parte de Eisenhower (representado, na reunião,
por Gray), da ordem de assassinato. E conseguiu.
No dia seguinte, ele
mesmo enviou um telegrama à base da CIA em Leopoldville:
“Nos altos
escalões aqui é agudamente clara a conclusão de que se Lumumba continua a ocupar
alto cargo o inevitável resultado será no melhor dos casos o caos e no pior a
pavimentação do caminho para a tomada do Congo pelos comunistas, com desastrosas
consequências para o prestígio da ONU e para os interesses do mundo livre.
Consequentemente, nós concluímos que sua remoção deve ser um primeiro e urgente
objetivo e que sob as condições existentes isso deve ser uma alta prioridade de
nossa ação encoberta”.
Sobre a suposta
preocupação quanto à ONU, nesse momento ela (e, sobretudo, o seu secretário
geral, Dag Hammarskjold) apoiava Lumumba, que exigia a saída das tropas belgas
do país, enviando, a pedido do primeiro-ministro, forças de paz para o Congo.
Hammarskjold seria morto um ano depois, num suspeito acidente aéreo, quando
tentava um acordo na guerra civil que ensanguentou o Congo, após o assassinato
de Lumumba.
No mesmo telegrama,
Dulles dá à sua base no Congo “irrestrita autoridade (....) incluindo
mesmo a mais agressiva ação se ela puder ser mantida encoberta. Nós imaginamos
que os alvos de oportunidade devem estar presentes por si próprios a você”.
(pág. 16).
GOLPE
Se é possível dúvida
a respeito do significado desse telegrama, elas foram tiradas pelo depoimento,
na Comissão Church, do então diretor de operações encobertas da CIA, Richard
Bissell. Segundo Bissell, “o telegrama era um meio de indicar, através de um
circunlóquio, que o presidente queria Lumumba assassinado (Nota da
Comissão Church: Bissell depôs que Dulles teria usado a frase ‘altos escalões’
para referir-se ao presidente)”.
O mesmo disse
Bronson Tweedy, o diretor da Divisão África da CIA. Tweedy – que redigiu a
mensagem que Dulles assinou - disse que “o telegrama indicava que Dulles
tinha recebido autorização do ‘nível político’”, isto é, Eisenhower.
No dia 5 de setembro
de 1960, Kasavubu, a soldo da CIA, demitiu o primeiro-ministro Lumumba, passando
por cima do parlamento. No dia 14, Mobutu, o cão de fila, perpetrou um
sanguinário golpe de Estado, tramado e apoiado pela CIA.
Lumumba foi detido
em sua residência. As tropas da ONU impediram o seu assassinato naquele momento.
No entanto, mostra a
Comissão Church, “a evidência indica que o afastamento de Lumumba não aliviou
as preocupações a respeito dele no governo dos Estados Unidos. Durante esse
período, funcionários da CIA no Congo aconselharam e ajudaram contatos
congoleses conhecidos pela intenção de assassinar Lumumba. Os funcionários
também instaram alguns desses contatos congoleses ao ‘permanente descarte’ de
Lumumba. Além disso, a CIA se opôs à reabertura do parlamento depois do golpe
por causa da probabilidade de que o parlamento quisesse Lumumba de volta ao
poder” (pág. 16).
Sete dias antes do
golpe – e dois dias após a demissão de Lumumba - um telegrama de Leopoldville
para Dulles dizia, ao relatar um encontro com “políticos congoleses de alto
nível em estreito contato com a base da CIA”:
“Lumumba na
oposição é quase tão perigoso quanto no cargo [o que] indica e
implica a conclusão [que] deve ser eliminado fisicamente”.
No telegrama, a
“conclusão” é atribuída aos congoleses. Mas era a CIA que “instava ao permanente
descarte” de Lumumba. Na véspera do golpe, o diretor da Divisão África, Bronson
Tweedy, telegrafou à sua base: “Talentos e dinamismo de Lumumba aparecem
[como] fator esmagador no restabelecimento de sua posição a cada vez que
parece meio perdido. Em outras palavras, a cada momento Lumumba tem a
oportunidade de ter a última palavra. Ele pode influenciar os acontecimentos em
seu proveito”.
GOTTLIEB
Transcrevemos um dos
parágrafos do Relatório da Comissão Church:
“Um dia depois do
golpe de Mobutu, o ‘funcionário da base’ [Hedgman] relatou que estava
servindo como consultor de um esforço congolês para ‘eliminar’ Lumumba, devido
ao seu ‘medo’ de que Lumumba podia, na verdade, ter se fortalecido ao colocar-se
sob a custódia da ONU, o que permitia uma base segura de operações. Hedgman
concluía: ‘A única solução é removê-lo da cena rapidamente’ (Leopoldville
para o Diretor [Dulles], 15/09/60)”.
No entanto, os
traidores congoleses não tinham coragem de assassinar Lumumba, o que fez com que
a CIA redobrasse a instigação. No dia 17, o “funcionário da base” relatou outro
encontro, com um “senador congolês”: “[o senador] relutantemente concordou
que Lumumba deve ir permanentemente. Desconfia [de outro líder congolês]
mas deseja fazer a paz com ele para os propósitos de eliminação de Lumumba (Leopoldville
ao Diretor, 17/09/60)”.
Os traidores tinham
medo de Lumumba, ou seja, do povo. A CIA, então, que tinha tramado o golpe de
Mobutu, inventou um golpe de Estado... liderado por Lumumba: “o ‘funcionário
da base’ advertiu a um líder-chave congolês sobre a trama de golpe articulada
por Lumumba e dois correligionários, e ‘instou à prisão ou outro mais permanente
descarte de Lumumba, Gizenga e Mulele’ (Leopoldville para o Diretor, 20/09/60).
Gizenga e Mulele
eram os principais líderes do MNC, depois de Lumumba.
Nessa situação,
Washington mandou um enviado ao Congo: “Bissell pediu a um cientista da CIA,
Joseph Scheider, para fazer preparados para assassinar ou incapacitar um ‘líder
africano’. De acordo com [o depoimento de] Scheider, Bissell disse que o
encargo vinha da ‘mais alta autoridade’. Scheider procurou materiais biológicos
tóxicos e recebeu ordem de Tweedy para entregar esses materiais ao funcionário
da base em Leopoldville. Em setembro, Scheider entregou as substâncias letais ao
funcionário da base em Leopoldville e instruiu-o para assassinar Patrice Lumumba.
O funcionário da base testemunhou que foi dito por Scheider que o presidente
Eisenhower tinha ordenado o assassinato de Lumumba”.
Joseph Scheider,
sabe-se hoje, era um pseudônimo utilizado no relatório da Comissão Church para
encobrir Sidney Gottlieb, o chefe do MKultra – o notório departamento de
“controle de mentes” da CIA. Mais tarde, o chefe da base da CIA, Larry Devlin,
relatou (ver seu depoimento no documentário “Who Killed Lumumba?”, de David
Akerman, da BBC) que, quando Lumumba ainda estava sob a proteção da ONU, recebeu
ordens para esperar um enviado, e que este era o sinistro Gottlieb, que
entregou-lhe um tubo de pasta de dente envenenada, para que a introduzisse no
banheiro da residência de Lumumba.
Scheider, aliás,
Gottlieb, segundo o seu depoimento e o de Hedgman, partiu do Congo em 30 de
outubro. A prisão domiciliar de Lumumba ainda duraria até 27 de novembro.
No entanto, baseado
no fracasso das tentativas da CIA, o relatório Church conclui por sua inocência
e a do governo americano.
Para chegar a essa
conclusão, os membros da comissão ignoraram a ação da CIA na perseguição a
Lumumba, quando este tentou chegar a Stanleyville, onde seus partidários se
concentraram após o golpe de Estado, a ação americana para impedir que as tropas
da ONU o protegessem e evitassem sua prisão e tortura pública e, sobretudo, o
incitamento da CIA (documentado, entre outros, por Akerman) para que Mobutu o
entregasse ao psicopata Moise Tshombe - e aos mercenários belgas que o
sustentavam em Katanga. |