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A blogueira vigarista
e seu incrível Q.I. (3)
(Continuação da edição anterior)
Salim Lamrani, jornalista e escritor francês entrevista a blogueira Yoani
Sánchez em Havana.
Salim Lamrani - A seu ver, quem é responsável por este conflito entre EUA e
Cuba ?
Yoani Sánchez - É difícil apontar um culpado.
SL - Neste caso específico, são os Estados Unidos que impõem sanções
unilaterais a Cuba, e não o contrário.
YS - Sim, mas Cuba confiscou propriedades dos Estados Unidos.
SL - Tenho a impressão de que a senhora faz o papel de advogada de
Washington.
YS - Os confiscos ocorreram.
SL - É verdade, mas foram realizados conforme o direito internacional. Cuba
também confiscou propriedades da França, Espanha, Itália, Bélgica, Reino
Unido, e indenizou estas nações. O único país que recusou as indenizações
foram os Estados Unidos.
YS - Cuba também permitiu a instalação de bases militares em seu território
e de mísseis de um império distante...
SL - ... Como os Estados Unidos instalaram bases nucleares contra a URSS na
Itália e na Turquia.
YS - Os mísseis nucleares podiam alcançar os Estados Unidos.
SL - Assim como os mísseis nucleares norte-americanos podiam alcançar Cuba
ou a URSS.
YS - É verdade, mas creio que houve uma escalada no confronto por parte de
ambos os países.
Os cinco cubanos presos nos EUA
SL - Outro tema. Fala-se muito dos cinco presos políticos cubanos nos
Estados Unidos, condenados à prisão perpétua por infiltrar grupelhos de
extrema direita na Flórida envolvidos no terrorismo contra Cuba.
YS - Não é um tema que interesse à população. É propaganda política.
SL - Mas qual é seu ponto de vista a respeito?
YS - Tentarei ser o mais neutra possível. São agentes do Ministério do
Interior que se infiltraram nos Estados Unidos para coletar informações. O
governo de Cuba disse que eles não desempenhavam atividades de espionagem,
mas sim que haviam infiltrado grupos cubanos para evitar atos terroristas.
Mas o governo cubano sempre afirmou que esses grupos estavam ligados a
Washington.
SL - Então os grupos radicais de exilados têm laços com o governo dos EUA.
YS - É o que diz a propaganda política.
SL - Então não é verdade.
YS - Se é verdade, significa que os cinco realizavam atividades de
espionagem.
SL - Neste caso, os Estados Unidos têm de reconhecer que os grupos violentos
fazem parte do governo.
YS - É verdade.
SL - A senhora acha que os Cinco devem ser libertados ou merecem a punição?
YS - Creio que valeria a pena revisar os casos, mas em um contexto político
mais apaziguado. Não acho que o uso político deste caso seja bom para eles.
O governo cubano midiatiza demais este assunto.
SL - Talvez por ser um assunto totalmente censurado pela imprensa ocidental.
YS - Creio que seria bom salvar essas pessoas, que são seres humanos, têm
uma família, filhos. Por outro lado, contudo, também há vítimas.
SL - Mas os cinco não cometeram crimes.
YS - Não, mas forneceram informações que causaram a morte de várias pessoas.
SL - A senhora se refere aos acontecimentos de 24 de fevereiro de 1996,
quando dois aviões da organização radical Brothers to the Rescue foram
derrubados depois de violar várias vezes o espaço aéreo cubano e lançar
convocações à rebelião.
YS - Sim.
SL - No entanto, o promotor reconheceu que era impossível provar a culpa de
Gerardo Hernández neste caso.
YS - É verdade. Penso que, quando a política se intromete em assuntos de
justiça, chegamos a isso.
SL - A senhora acha que se trata de um caso político?
YS - Para o governo cubano, é um caso político.
SL - E para os Estados Unidos?
YS - Penso que existe uma separação dos poderes no país, mas é possível que
o ambiente político tenha influenciado os juízes e jurados. Não creio, no
entanto, que se trate de um caso político dirigido por Washigton. É difícil
ter uma imagem clara deste caso, pois jamais obtivemos uma informação
completa a respeito. Mas a prioridade para os cubanos é a libertação dos
presos políticos.
SL - Wayne S. Smith, último embaixador dos EUA em Cuba, declarou que era
“ilegal e imprudente enviar dinheiro aos dissidentes cubanos”. Acrescentou
que “ninguém deveria dar dinheiro aos dissidentes, muito menos com o
objetivo de derrubar o governo cubano”.
Ele explica: “Quando os EUA declaram que seu objetivo é derrubar o governo
cubano e depois afirmam que um dos meios para conseguir isso é oferecer
fundos aos dissidentes cubanos, estes se encontram de fato na posição de
agentes pagos por uma potência estrangeira para derrubar seu próprio
governo”.
YS - Creio que o financiamento da oposição pelos Estados Unidos tem sido
apresentado como uma realidade, o que não é o caso. Conheço vários membros
do grupo dos 75 dissidentes presos em 2003 e duvido muito dessa versão. Não
tenho provas de que os 75 tenham sido presos por isso. Não acredito nas
provas apresentadas nos tribunais cubanos.
SL - Não creio que seja possível ignorar esta realidade.
YS - Por quê?
SL - O próprio governo dos Estados Unidos afirma que financia a oposição
interna desde 1959. Basta consultar, além dos arquivos liberados ao público,
a seção 1.705 da lei Torricelli, de 1992, a seção 109 da lei Helms-Burton,
de 1996, e os dois informes da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre,
de maio de 2004 e julho de 2006. Todos esses documentos revelam que o
presidente dos Estados Unidos financia a oposição interna em Cuba com o
objetivo de derrubar o governo de Havana.
YS: Não sei, mas... (Continua na próxima edição)
(continua na próxima
ediçã0)
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