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Cláudio Campos:
“Construir um Estado efetivamente nacional”
O fundador da
Hora do Povo, Cláudio Campos, completaria 63 anos no último dia 5 de maio.
Nós, que o
conhecemos bem ao longo de anos, que sentimos a energia que colocava em tudo
aquilo que fazia, sua poderosa inteligência que jamais se contentava com
supostas verdades estabelecidas, ou com aquilo que já era sabido, sua imensa
generosidade e capacidade de amar os seres humanos, sua indômita coragem que
tanto desprezava o abjeto servilismo, não poderíamos deixar esta data sem um
registro, sem uma singela homenagem a quem ajudou tantos a ver que valia a pena
lutar pelo futuro.
Há um aspecto da
obra e da grandeza de Cláudio, seu amor pelo Brasil, que o levou a formular o
caminho estratégico que hoje ainda percorremos, que merece, nessas horas que
antecedem mais uma batalha que o país travará por sua liberdade, por sua
independência, por seu direito de ser uma grande nação, ser destacado – e por
isso, este ano, o escolhemos para lembrar de Cláudio na data de seu aniversário.
Em agosto de
1982, vivíamos ainda sob a ditadura. Foi nesse momento, já depois da anistia,
mas ainda em condições de clandestinidade para as organizações revolucionárias,
que Cláudio pronuncia o Informe do Comitê Central ao III Congresso do Movimento
Revolucionário Oito de Outubro.
Já se passaram
quase 30 anos. No entanto, quem lá estava há de se lembrar – e lembrará para
sempre – do impacto causado pelo informe de Cláudio, que condensava em algumas
horas todos os meses anteriores de discussões, e, a rigor, décadas de debates
sobre a estratégia da revolução brasileira. Porém, aos que lá não estiveram,
basta ler o texto desse informe para perceber que as questões fundamentais ali
apontadas são plenamente atuais – mais do que isso, Cláudio ali estabeleceu os
fundamentos e resolveu os problemas estratégicos, permitindo a liberação das
forças nacionais, democráticas e populares para o combate não somente contra a
ditadura, mas para o que veio depois, para aquele combate que, hoje, muito
depois do fim daquele malfadado regime, travamos por um país livre e justo.
“O que está em
pauta neste Congresso é o assumimento preciso e completo do caráter mais
profundo, central e determinante da atual revolução brasileira: o seu caráter
nacional”, disse Cláudio no início de seu informe, definindo a questão da
independência nacional, a questão da superação dos vínculos de dependência do
país em relação ao imperialismo, como “o cerne e o centro da questão
democrática”, do que decorria que “a tarefa democrática central é a constituição
de um Estado efetivamente nacional”.
É um trecho
desse informe que oferecemos aos nossos leitores, por ocasião do 5 de maio –
data de nascimento, também, de Karl Marx, sobre quem, tantas vezes, Cláudio
manifestou a sua imensa gratidão. No texto abaixo, retiramos algumas referências
que eram específicas da época. Mas quase tudo está na íntegra.
CARLOS LOPES
CLÁUDIO CAMPOS
Em seu aspecto
político, a questão nacional e a
democrática
são expressão, em níveis de abstração diferentes, exatamente de um mesmo
fenômeno de fundo. Na verdade, no Brasil de hoje, a
questão nacional é exatamente o cerne e o centro da questão democrática. A
tarefa democrática central, é pois, exatamente a constituição de um Estado
efetivamente nacional.
Creio que não há necessidade, entre nós, de
nos atermos na demonstração do equívoco de quem julga que os conceitos de “povo”
e “nação” eludem as contradições de classe. A contradição entre a Nação e o
Imperialismo é uma contradição de classe. De um lado, colocam-se as classes e
setores sociais objetivamente interessados na ruptura da dependência. Do outro,
as classes e os setores de classe, fora e dentro da Nação, interessados na sua
manutenção.
É interessante lembrar que um salto
qualitativo da democracia é a questão política chave em qualquer revolução
verdadeira. Marx dizia, e com razão, que também na revolução socialista a
questão política essencial é a “conquista da democracia”, no sentido de uma
democracia proletária, da passagem da “democracia” burguesa à democracia
proletária. Se tudo isso é verdade – e é – torna-se evidente que não avançamos
muito quando afirmamos que o aspecto político central de tal ou qual revolução
concreta – e não das revoluções em geral – é o aspecto democrático
(geral). Isso é verdadeiro em todas as revoluções. O que distingue uma
revolução concreta de outra é justamente qual a tarefa democrática que
está na ordem do dia, qual o caráter central e o conteúdo de classe da
democracia que se faz necessária. Na revolução democrática burguesa dos países
centrais foi a ruptura com o autoritarismo feudal ou escravagista, e a
constituição de um Estado democrático burguês, sob a hegemonia da burguesia ou
da aliança operário-camponesa. Na revolução socialista, a constituição de uma
democracia proletária. Na revolução nacional e democrática dos países
dependentes – caso particular da revolução democrático-burguesa – a ruptura com
Estados submissos aos interesses do imperialismo e a constituição de Estados
efetivamente nacionais e democráticos.
Por outro lado, é evidente que mesmo esta
democratização guarda um determinado nível de abstração: não se fazem, por
exemplo, revoluções nacionais e democráticas “em geral”, mas revoluções
nacionais e democráticas concretas, que mantêm diferenças acentuadas de
país para país.
Muito bem, a nível político – superestrutural
– o que está em causa em nossa revolução atual é, também, a “conquista da
democracia”, mais concretamente, no nosso caso, a constituição de um Estado
nacional e democrático.
Mas é preciso, sobretudo, caracterizar a
revolução em seu aspecto de fundo, isto é, econômico e social. Não se pode,
portanto, fugir à seguinte questão: quais são as transformações econômicas e
sociais – infra-estruturais – que correspondem a essa “conquista de democracia”,
no plano político?
Sabemos que, do ponto de vista objetivo,
qualquer revolução só se torna possível e necessária quando as relações de
produção existentes no país atrasam-se em relação ao desenvolvimento de suas
forças produtivas, tornando-se um entrave ao avanço destas. Para responder à
questão que acabamos de formular, é preciso, pois, apontar quais as principais
características das relações de produção, no Brasil, que entravam o
desenvolvimento atual de nossas forças produtivas. Será o fato de serem relações
de produção capitalistas? Parece-nos claro que não. É evidente que, do
ponto de vista econômico, não é o capitalismo em geral o que está centralmente
em jogo em nossa revolução atual, nem tampouco a constituição já de uma economia
socialista.
O principal entrave
ao desenvolvimento das forças produtivas do Brasil de hoje não é o caráter
capitalista das nossas relações de produção, é o caráter dependente
dessas relações. É essa dependência o que é preciso, centralmente, romper agora.
As imensas energias produtivas acumuladas no país, mesmo sob a dependência,
estão hoje sendo sufocadas por um modelo de desenvolvimento que tem suas
principais diretrizes e prioridades definidas a partir de interesses externos –
mais concretamente, a partir dos interesses dos círculos financeiros
internacionais e das grandes corporações multinacionais.
Com o objetivo de otimizar seus lucros e
conseguir um máximo rendimento dos investimentos que fazem em tecnologia e bens
de produção nos países centrais, tais corporações se empenham em exportar essa
tecnologia e esses bens – ainda que em seus estágios mais atrasados e
ultrapassados – para os países dependentes. Priorizam, dessa forma, no Brasil, a
produção de bens de consumo de luxo – notadamente automóveis e eletrodomésticos
sofisticados – com base nesses processos, em detrimento da produção de bens de
produção, inclusive tecnologia, e de bens de consumo de massa. Em decorrência, o
país fica cada vez mais na dependência dos altos preços cobrados no comércio
internacional de máquinas, equipamentos e tecnologia, o que gera crescente
dependência e sangria financeira. Além disso, os bens de consumo altamente
sofisticados encontram um mercado consumidor restrito em países como o nosso,
onde o quadro geral de pauperização das massas é exacerbado pelo violento
arrocho salarial imposto com o objetivo de atrair os investimentos externos. A
tecnologia importada empregada na produção desses bens, caríssimos e
intensamente poupadora de mão-de-obra, restringe enormemente o emprego da força
de trabalho – o que sufoca ainda mais o crescimento do mercado interno. Tudo
isso acarreta um formidável bloqueio ao desenvolvimento da nossa economia.
Por outro lado, o país já desenvolveu forças
produtivas mais que suficientes para um crescimento autocentrado e basicamente
auto-sustentado, desde que rompa com a sangria financeira, promova a moratória
da dívida externa, e invista os recursos assim poupados na reorientação da nossa
economia, com prioridade para a produção de bens de produção e de consumo de
massa. O rompimento do atraso das relações produtivas no campo, com o aumento da
produtividade agrícola, a maior absorção da força de trabalho e o barateamento
dos insumos agrícolas e dos alimentos – e, consequentemente, dos preços de
produção na indústria – constitui a outra vertente das medidas capazes de
liberar o pleno desenvolvimento de nossas forças produtivas.
A importância
central e decisiva da ruptura da dependência externa no desenvolvimento de
nossas forças produtivas comprova que a questão nacional, a superação da
contradição entre a Nação e o imperialismo, é o problema central do atual
estágio da revolução brasileira também em seu aspecto econômico. Nem poderia ser
de forma diferente. Na verdade, é exatamente a partir da percepção e da
identificação desta contradição fundamental em nossa base econômica que nós,
marxistas, concluímos que a tarefa popular e democrática central, a nível
político, é a constituição de um Estado efetivamente nacional, capaz de cumprir
papel decisivo na ruptura da dependência e de inaugurar uma nova etapa na vida
política do país.
Qual o caráter de classe desse Estado?
Como sabemos, nem mesmo um peso decisivo da
classe operária na direção do Estado lhe retirará o caráter burguês, na medida
em que as providências que ele implementar – por mais avançadas e
revolucionárias que sejam – não estejam ainda em condições de promover a ruptura
das bases fundamentais da sociedade burguesa. Ao contrário dos que tergiversam a
respeito, nós devemos deixar claro que não há nenhuma transição revolucionária
objetivamente colocada no Brasil de hoje que não implique exatamente num mais
acelerado desenvolvimento capitalista. O Estado nacional e democrático não se
constituirá num entrave ou num freio ao desenvolvimento do capitalismo. Pelo
contrário, ele será chamado exatamente a remover os obstáculos que entravam esse
desenvolvimento, hoje.
Tal verdade ainda se constitui numa
verdadeira heresia para certos setores que professam um “socialismo” confuso,
simplório e, este sim, populista. Tais setores não conseguem conceber como possa
interessar à classe operária participar de um Estado burguês, e, menos ainda,
aspirar à direção de um tal Estado. Sentem-se, aliás, frequentemente mais à
vontade rotulando de “socialista” e “operário” o que nada tem nem de socialista
nem de operário.
O que essas correntes ainda não conseguiram
assimilar é que não há, em termos históricos gerais outro caminho para o avanço
em direção ao socialismo. Sabemos que essa lei geral não impede que determinados
países particularmente atrasados, onde predominam inclusive relações de produção
pré-capitalistas, possam transitar diretamente para o socialismo, em função da
presença e do apoio, a nível internacional, do campo socialista. Mas este,
evidentemente, não é o caso do Brasil, nem tampouco da maioria dos países da
América Latina. O Brasil é um país capitalista, possui já um importantíssimo
parque industrial – o 8º do mundo – e está submetido às leis gerais do
desenvolvimento capitalista. Estando ainda ausente as condições objetivas e
subjetivas para a edificação da sociedade socialista, ele não tem outro caminho
para amadurecê-las que não seja através do desenvolvimento nos marcos do
capitalismo.
A ruptura da dependência, no Brasil, não
viabilizará outra coisa senão um grande surto de desenvolvimento... capitalista.
Isso não é do interesse da classe operária “apenas” porque, a prazo, aproxima a
sociedade do socialismo. Tal coisa está de acordo também com seus interesses
imediatos: rompe com a recessão, o desemprego e o esmagamento salarial, reforça
o peso do proletariado na sociedade, cria as condições objetivas para o avanço
da democracia política.
Por outro lado, o fato de estarmos diante de
uma revolução que se coloca dentro dos marcos burgueses, não significa de forma
alguma que a classe operária deva inibir-se à margem da luta, nem, igualmente, -
ao contrário do que afirmam, e, mais do que isso, praticam, os setores
“direitistas” do movimento comunista – que a classe operária deva atribuir,
necessariamente , a direção da luta à burguesia nacional. Quem dirige é a
capacidade, o acúmulo e o peso político de cada classe que decidirá, a cada
momento. O nosso proletariado não entra sem perspectivas nessa disputa. Exemplo
disso é o papel que sabidamente o nosso partido tem cumprido na definição dos
rumos e na política de construção da unidade nacional e democrática.
É preciso ter em conta que afirmar que a
revolução é burguesa, e o desenvolvimento, capitalista, é lembrar apenas uma
preliminar inelutável.
Dentro de tais marcos, várias são as direções
possíveis. Embora não seja do que se trata no Brasil de hoje, até mesmo o
determinado “capitalismo de Estado” chamado por Lênin de “ante-sala do
socialismo” é ainda capitalismo. Em que direção interessa objetivamente aos
trabalhadores impulsionar esse desenvolvimento? É claro que em direção ao
socialismo. Será que por causa disso eles estão menos interessados do que a
burguesia nacional em promover o desenvolvimento mais completo e acelerado
possível do capitalismo? Muito pelo contrário. A direção operária e popular na
nossa revolução nacional é justamente a mais interessada num rápido
amadurecimento do capitalismo, de maneira a poder passar, então, às tarefas da
construção socialista. A direção burguesa na revolução nacional é a menos
comprometida com a completa remoção dos escolhos da dependência que tolhem o
desenvolvimento capitalista, exatamente porque ela vacila em romper o cordão
umbilical com o imperialismo. Não falamos em romper as relações com os países
capitalistas centrais. Falamos em romper as relações imperialistas que os
países capitalistas centrais mantêm em relação ao Brasil. Nós seremos capazes de
fazer valer relações em pé de igualdade.
Afirmar que o desenvolvimento será
capitalista, e que nos interessa que ele seja o mais completo e acelerado
possível, além de não implicar necessariamente em que a burguesia seja a classe
mais capacitada a dirigir a luta de forma consequente, não significa tampouco
que se deva inutilmente tentar imitar no Brasil os caminhos “clássicos” do
desenvolvimento capitalista nos países centrais, ocorrido em condições
históricas inteiramente diferentes. Em presença de um campo e de relações
internacionais intensamente monopolizadas, uma tal tentativa não tem o menor
espaço para vingar. A livre concorrência e outros preceitos do capitalismo
“clássico” vão ficando cada vez mais para trás. Será indispensável que a
sociedade – e notadamente o proletariado – desempenhe um progressivo papel
orientador da economia, inclusive para combater a sua crescente e precoce
monopolização. Será preciso também que as empresas estatais cumpram
crescentemente o papel de fazer frente aos monopólios imperialistas e de abrir
espaço para as empresas nacionais, e não, como ocorre hoje, o de se aliarem aos
monopólios imperialistas para esmagar a pequena e média empresa nacional –
indubitavelmente a base, hoje e ainda durante muito tempo, de toda a nossa
atividade econômica.
Interessa à classe operária, durante a
revolução nacional e democrática, conquistar as melhores posições possíveis,
tanto a nível político, quanto a nível econômico. Evidentemente, não se
alcançará esse objetivo deblaterando a cada instante contra a burguesia nacional
e os “burgueses”, mas principalmente demonstrando a toda a sociedade a maior
consequência de suas propostas e de sua orientação na luta comum contra a
dependência e contra o imperialismo, pela democracia e pela soberania nacional.
Nós gostaríamos de lembrar que a principal
tarefa “anticapitalista” que a nossa revolução nacional e democrática
desempenhará será precisamente a de desenvolver o capitalismo. A única coisa
realmente fatal para o capitalismo é o seu próprio desenvolvimento, é o
desenvolvimento das forças produtivas sociais nos marcos das relações de
produção capitalistas. É isso o que nos permitirá passar às tarefas
(transformações) socialistas, as únicas verdadeiramente “anticapitalistas”.
Rejeitar a direção burguesa conservadora está ainda longe de ser uma “tarefa
anticapitalista”...
Como vemos, não têm também a menor pertinência os protestos de que
“não é mais possível, hoje, um capitalismo auto-determinado”. O que vai ser
“auto-determinado” no Brasil, não é o capitalismo, é o povo e a Nação
brasileira. Não é porque não existem ainda condições objetivas e subjetivas para
o socialismo que nós estamos condenados à dependência. Tal raciocínio,
aparentemente tão “radical”, não passa, na verdade, de completo esmagamento
ideológico diante do imperialismo. É claro que uma autodeterminação
verdadeiramente completa é um processo longo, que continuará inclusive depois da
revolução socialista. Mas o que se trata agora é de saber se, como tantos outros
povos do mundo, temos condições ou não de que o aspecto principal, aquele que dá
a qualidade das nossas relações internacionais, seja o da independência e não o
da dependência. Muito em breve, será difícil encontrar quem deixe de dar uma
resposta positiva a essa questão. |