|
Dilma e Mandela
O nosso camarada Alon Feuerwerker, sabe-se lá por que, irritou-se com o
pertinente paralelo feito pelo presidente Lula entre as circunstâncias que
levaram Dilma e Mandela à condição de presos políticos, ambos sob acusação de
envolvimento com a luta armada em períodos nos quais, tanto no Brasil quanto na
África do Sul, os caminhos da democracia estavam fortemente obstruídos.
A prudência evitou que ele deitasse falação sobre a luta armada na África do Sul
– assunto que não tem, de fato, nenhuma obrigação de dominar -, mas não foi
suficiente para conter o seu ímpeto de ajustar contas, com umas tantas décadas
de atraso, com o que ele considera um equívoco: a luta armada no Brasil.
Para isso, foi desenterrar a velha e surrada cantilena do PCB sobre o tema,
apresentando-a em seu artigo, sem citar a fonte.
Ele diz: “Os movimentos guerrilheiros foram definitivamente neutralizados até
o início de 1974. Uma derrota militar completa. Mas em novembro daquele mesmo
ano a ditadura começou a morrer, soterrada pelos milhões de votos dados ao
Movimento Democrático Brasileiro (oposição) contra a governista Aliança
Renovadora Nacional (Arena)... Quem acabou com o autoritarismo, uma década
depois, foi o movimento de massas pacífico e institucional, na combinação das
mobilizações sociais e eleitorais... os grupos políticos remanescentes da luta
armada só decidiram aderir à assim chamada via pacífica quando o regime já
estava, na prática, batido, depois da revogação do AI-5 em 1978. Batido
exatamente por meio da tática e da estratégia que as organizações guerrilheiras
recusavam”.
O problema é que nem a análise nem a cronologia correspondem à realidade.
O fato é que de 1969 a 1972 - ou seja, do AI-5 até a afirmação da candidatura de
Geisel à sucessão - a resistência armada foi o principal instrumento com que o
povo brasileiro contou para impedir a estabilização da ditadura.
Sem ela o projeto de “abertura lenta, gradual e segura” não teria sido tirado da
gaveta, nem o MDB teria conquistado os 59% dos votos para o Senado e 48% para a
Câmara, em 1974.
E nessa altura do campeonato - as eleições de 1974 -, o que havia de mais
significativo nos setores que tinham empreendido o caminho da luta armada apoiou
candidatos do MDB e ingressou naquele partido, atuando com uma tática adequada
às novas condições de luta. Não porque tenham sido derrotados, mas porque as
condições haviam mudado.
A luta armada é um recurso extremo que cabe ser empregado quando não há
possibilidades de ampliar o grau de democracia por meios pacíficos. Havendo, ela
não é necessária - e, via de regra, é inconveniente, pois tende facilmente ao
isolamento. Não havendo, ela é imprescindível e, não seria exagero dizer,
inevitável, seja no Brasil, na África do Sul ou em qualquer lugar do mundo.
Mas quem preferir brigar com a história pode continuar tentando.
SÉRGIO RUBENS
|