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O Brasil, o
Diap e o zero à esquerda
CARLOS
RAMIRO*
Numa das definições mais precisas para o “zero”
que logo vamos abordar, seja de Afif, Alckmin ou Serra, o “Aurélio” fala de
“pessoa ou coisa sem valor ou préstimo”, cuja nulidade pode ainda ser
descrita como “zero à esquerda”.
Passados cem anos do nascimento de Aurélio
Buarque de Holanda, autor do excelente dicionário, ainda está para ser
escrito termo mais exato para o comportamento de parlamentares ou
governantes que traem o acordo firmado com seus eleitores. Ainda mais,
quando envolvem aspectos essenciais para o desenvolvimento e a soberania
nacional, como o petróleo e a energia, ou a defesa dos direitos da classe
trabalhadora, expressos na Constituição Cidadã de 1988.
Infelizmente, tal “traição” está longe de ser um
paradoxo como foi a descoberta do zero, que quantificava a representação do
nada, do inexistente. Ela somente revela, conforme o nosso dicionário de
referência, “crime de quem, perfidamente entrega, denúncia ou vende alguém
ou alguma coisa ao inimigo”.
Ao ser questionado recentemente por um programa
de TV sobre a nota “zero” que recebeu do Diap (Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar), quando era deputado-constituinte, no final dos anos
80, Guilherme Afif Domingos, atualmente candidato a vice-governador na chapa
de Geraldo Alckmin, foi taxativo: “O Diap é um órgão fascista”.
A histeria contra quem congrega e presta
serviços para mais de 900 entidades sindicais de trabalhadores, como
centrais, confederações, sindicatos e associações, faz sentido. Em vez de se
calar diante do poder financeiro, como a imprensa venal, o Diap informou que
na Constituinte, Afif “certamente contrariou seu eleitorado. Votou contra a
proteção da empresa nacional e disse não à nacionalização das reservas
minerais. Absteve-se quanto à licença-paternidade, mas não teve dúvidas em
apoiar a UDR, votando contra a reforma agrária. Disse não ao direito de voto
aos 16 anos e votou contra o tabelamento de juros”. Para completar, “foi a
favor da comercialização de sangue humano ao votar contra a emenda que
vedava a mercantilização de órgãos, tecidos e substâncias humanas para fins
de transplantes, pesquisa e tratamento, bem como a coleta, processamento e
transfusão de sangue e seus derivados”.
A “resposta” de Afif foi, portanto, digna de um
sem argumentos, como recorda o site da Agência Sindical, pois “quem fez a
fama – no caso, má fama – de Afif foi um livro de quase 700 páginas, onde,
na de número 579, fica-se conhecendo o comportamento do então liberal na
votação de matérias de interesse dos trabalhadores, como direito de greve,
Piso salarial, jornada de 40 horas, entre outros. Foi assim: zero no
primeiro turno da Constituinte; zero no segundo turno; e zero na média
final”.
Na página 621 do mesmo livro, os votos de José
Serra, “média 3,75”, atual candidato de demos e tucanos à Presidência: 1)
contra o monopólio nacional da distribuição do petróleo; 2) contra garantias
ao trabalhador de estabilidade no emprego; 3) contra a redução da jornada
de trabalho para 40 horas; 4) contra a implantação de Comissão de Fábrica
nas indústrias; 5) negou seu voto pelo direito de greve; 6) negou seu voto
pelo abono de férias de 1/3 do salário; 7) negou seu voto pelo aviso prévio
proporcional; 8) negou seu voto pela estabilidade do dirigente sindical;
9) negou seu voto para garantir 30 dias de aviso prévio; 10) negou seu voto
pela garantia do salário mínimo real. Nem é preciso falar sobre a prática de
Serra como governador de São Paulo, pois aí seria covardia. O arrocho
salarial e a repressão e perseguição ao funcionalismo, a desvalorização e
desmantelamento da escola pública, o alastramento dos pedágios o furor
privatizante falam por si.
Embora tenha conseguido passar raspando em 1988,
nota 7 do Diap, Geraldo Alckmin logo resolveu se desculpar com a direita,
passando a abraçar as teses mais reacionárias e entreguistas, das quais
tornou-se um ardoroso e fiel defensor. O macacão com o logo das estatais,
que vestiu no embate contra Lula em 2002, só estampou o que todos já sabiam.
Como ex-presidente do Programa Estadual de Desestatização do governo
estadual e posteriormente desgovernador de São Paulo, é um dos grandes
responsáveis, junto com Fernando Henrique Cardoso, pela desnacionalização do
setor energético paulista, entregue a multinacionais norte-americanas, como
a AES-Eletropaulo, ou aos colombianos da ISA, que abocanharam a Companhia de
Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP). O resultado a população
paulista está sentindo na pele: apagões, aumento de tarifas, precarização e
multiplicação dos acidentes.
Moral da história: zero elevado a qualquer
número é sempre zero!
*Vice-presidente da CUT-SP |