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A divisão calculada de Pierpoint
Brecht nunca chegou a levar “Santa Joana” aos
palcos, apenas dirigiu uma versão reduzida em uma leitura radiofônica em 1932.
No entanto, escreveu bastante sobre ela. E a peça parece mesmo ter esta sina: é
uma das menos encenadas do autor, mas muito se escreve sobre ela. Sua beleza,
complexidade e profundidade inspiram a crítica, mas mantém os palcos a uma
distância respeitosa.
A decisão de montar “Santa Joana”, 80 anos
depois de sua criação e justo no meio de uma crise mundial de proporções – e
origens - semelhantes às de 1929, demandou um estudo aprofundado não apenas da
fortuna crítica da peça como também – e principalmente – dos escritos de Brecht.
Uma questão nos chamou sobremaneira a atenção: Em uma pequena nota introdutória,
Brecht ressalta que a peça “deve mostrar a etapa atual do desenvolvimento do
homem fáustico”.
Fosse maior o espaço e mais propícia a
ocasião, poderíamos traçar um paralelo não apenas entre os personagens de Goethe
e Brecht (é inevitável não lembrar da tragédia de Gretchen quando da imolação de
Joana), mas inclusive entre cenas inteiras, em especial a partir do Quinto Ato
da Segunda Parte do poema goethiano. Deixaremos tal tarefa ao espectador, mas
acreditamos encontrar na questão da “ação” uma chave de leitura possível para a
afirmação de Brecht. O mote para que Fausto seja abordado por Mefistófeles é
justamente a tradução que o doutor está fazendo da bíblia. Depois de muito
procurar pelo termo mais justo, escreve: “Do espírito me vale a direção, / E
escrevo em paz: Era no início a Ação!” Fausto era um homem dilacerado, “opresso
pela livralhada”, que, em sua inação, declara: “Não julgo algo saber direito, /
Que leve aos homens uma luz que seja / Edificante ou benfazeja.” Ao descobrir
que no início era a ação – e não o verbo – surge-lhe o diabo na frente, que o
tomará pela mão e o levará pelo mundo.
Goethe localizava no homem a fonte do bem e
do mal. Mas acreditava, como a maior parte dos humanistas, na perfectibilidade
do ser humano. Lembremos que todo o desenrolar do poema de Goethe aponta
justamente para a superação da divisão através da ação. Ela – a divisão entre a
alma que se aferra ao “mundo e à matéria” e a que busca a “plaga etérea” - é o
ponto de partida de Fausto.
A obra monumental de Goethe mostra, no
alvorecer do capitalismo, o homem burguês se lançando à ação. Mas, por mais
genial e visionário que fosse Goethe, ele não poderia, escrevendo antes mesmo da
formação do Estado Nacional na Alemanha, prever todas as conseqüências do
desenvolvimento daquele que rompia com o sistema feudal e empreendia a
construção de uma nova sociedade. O homem ativo de Goethe não tem consciência
plena das conseqüências de seus atos. Mas também não é à toa que o poeta
estabeleceu, como seu parceiro de jornada, o próprio demônio. Parece que antevia
possibilidades sombrias no desenvolvimento da burguesia.
Em “Santa Joana dos Matadouros”, Jack
Pierpoint e Joana também agem freneticamente. Mas se ela mantém-se presa ao
ideal goethiano, pressupondo que suas pregações irão garantir a vitória do Bem
existente no homem, ele age calculadamente. O resultado é o triunfo de Pierpoint
no mundo capitalista e a apropriação da figura de Joana como elemento ideológico
pelos causadores da miséria que ela acreditava combater.
Brecht vive um período em que a desproporção,
intrínseca no sistema, entre a capacidade de produção e o nível de consumo das
grandes massas já havia empurrado o capitalismo para o estágio imperialista,
gerando uma guerra mundial e estando a caminho de deflagrar outra. Seu olhar
sobre a trajetória do homem fáustico é retrospectivo. A produtividade sonhada
por Goethe, o “trabalho produtivo em prol da humanidade” já não une espiritual e
material: a apropriação privada do trabalho social transforma tudo, espírito e
matéria, em mercadoria. Se no “Fausto” o personagem central decide o que será
feito, mas não tem idéia de todas as conseqüências, na obra de Brecht as ações
de Pierpoint são friamente calculadas.
No mundo de Pierpoint, a ação do capitalista
gera necessariamente mais miséria e exploração, e deve ser mascarada.
É por isso que Pierpoint precisa simular uma
alma sensível. É por isso também que, na citação mais explícita a Goethe, Brecht
recue dez mil versos e coloque na boca dos vencedores os versos do Fausto que
ainda não havia deixado sua condição de alquimista medieval: “Em cada homem
habitam / Duas almas opostas”. Pierpoint parece chegar ao ponto de onde Fausto
parte. Se Fausto nega sua divisão com a ação, Pierpoint manipula a crença nessa
divisão como meio de iludir a platéia para obter lucros.
O velho poeta realmente esperava que surgisse
daquele momento histórico um homem purificado. Já Brecht, que tinha a revolução
por horizonte, acabou revelando-se profético quanto ao comportamento dos
capitalistas: não há nada mais contemporâneo do que grandes conglomerados
financeiros com “responsabilidade social”, grandes poluidores com
“responsabilidade ambiental”, “amigos da escola”, “voluntários”, “mecenas” com o
dinheiro alheio.
Não há na peça uma divisão maniqueísta entre
operários bonzinhos e patrões malvados. Existem sujeitos concretos,
condicionados por uma situação histórica, de cujas ações dependem a mudança ou a
manutenção da situação. Os operários só se libertarão se descobrirem as causas
de sua opressão. Os burgueses precisam manter a alienação dos operários.
Em tempo: o JP Morgan – banco fundado pelo
inspirador do personagem Pierpoint – fundiu-se com o Chase, de Rockfeller, em
2000, e no auge da pior crise do capitalismo, desde 1929, aumentou
significativamente sua participação no mercado financeiro, adquirindo
concorrentes quebrados. Em 2008 distribuiu U$ 5,6 bilhões aos seus acionistas,
pagou bônus de U$ 8,69 bilhões aos seus executivos, depois de embolsar uma ajuda
bilionária do governo americano para salvar-se, e ao sistema, das conseqüências
de seus atos.
VALÉRIO BEMFICA |