|
A Joana de Bertold Brecht
Com direção de José Renato, estréia no dia
04/06, no Teatro Denoy de Oliveira, a peça
“Santa Joana dos Matadouros”. O artigo que
publicamos abaixo é uma condensação do 20º
capítulo do livro “Brecht: Vida e Obra” (Editora
Paz e Terra, 1974), de autoria de Fernando
Peixoto
Brecht pesquisa, auxiliado por Elisabeth
Hauptmann, os monopólios norte-americanos, a
bolsa de valores de Berlim e Viena. E em 1930,
retoma temas esboçados em “A Padaria”
desenvolvendo-os de uma forma totalmente
diferente em “Santa Joana dos Matadouros”: é uma
análise da crise econômica de 1929 (e também da
crise social alemã, com o fracasso da República
de Weimar, a ascensão do nacional-socialismo, a
opressão das classes trabalhadoras e a traição
da pequena burguesia), uma paródia inteligente
de obras clássicas da literatura alemã
(sobretudo de A Virgem de Orleans de Schiller e
do Segundo Fausto de Goethe).
A forma e a estrutura, inclusive a linguagem
poética, da tragédia e do drama clássico são
colocadas em questão; o marcante contraste, como
afirma Chiarini, entre o elevado estilo patético
dos clássicos e a imediata “banalidade” do tema
tratado por Brecht, enfim o tema heróico
tradicional aplicado a conflitos da sociedade
contemporânea, através da paródia crítica. Quase
um ensaio sobre economia política, desnudando a
verdade e as contradições do capitalismo,
baseado na produção anárquica, no difícil
momento em que, diante de uma situação histórica
inédita, a produção se desorganiza, com a
saturação do mercado e o excesso de produção
levando os industriais a uma dependência total e
absoluta das bruscas oscilações da Bolsa de
Valores de Wall Street (um novo Deus que
determina todos os passos, os mais sórdidos e
aparentemente mais inocentes, dos industriais,
colocados à beira de um colapso total [...] Os
industriais vivem num clima de terror e sangue,
enquanto os operários, jogados no mais brutal
desemprego, o que significa miséria e fome,
organizam a incontrolável revolta. A religião,
personificada no Exército da Salvação (na peça
intitulado “Chapéus de Palha Pretos”), intervém
na batalha de classes procurando atenuar as
contradições, enganar o povo com as promessas da
felicidade eterna após a morte. A repressão
violenta tenta silenciar as reivindicações cada
vez mais violentas dos desempregados [...]
A princípio, Joana se identifica com os
propósitos dos Chapéus Pretos: nestes negros
tempos de caos ordenado, de injustiças
planejadas, quando a cidade é dominada pela
insegurança e o mundo se transforma num
matadouro, atraída pelos gritos da violência ela
vem apelar à pacificação do povo — que não
destruam seus instrumentos de trabalho, se
reconciliem com Deus, única salvação para os
pobres:
“Que Deus caminhe no coração da miséria
E que sua voz ressoe do fundo dos matadouros.”
Joana afirma que é no céu que é necessário
conquistar um bom lugar, não na terra. A
desgraça vem como a chuva: ninguém é responsável
por ela, apesar disso ela vem. Mas um operário
responde de onde vem a miséria: “De Lennox e Cia”.
Os operários escutam os sermões enquanto dura a
sopa. Joana quer saber a verdade e procura o rei
da carne, como Joana D’Arc procurou o rei da
França e o reconheceu sem nunca tê-lo visto
antes [...] Depois de três vezes descer ao
inferno (tomar contato direto com a vida do
povo, descrita realisticamente: o homem do povo
não é idealizado, mas também um homem vil,
pervertido por uma determinada sociedade; para
Brecht a virtude deve ser discutida em função de
uma situação social concreta e quando um
personagem procura mostrar a Joana a baixeza e a
imoralidade do povo, ela afirma: “o que você
está me mostrando não é a imoralidade dos
pobres, mas sua pobreza” - a verdade dialética
substitui uma aparente verdade fundamentada num
juízo formal).
Joana descobre que o sistema é como uma
gangorra: os que estão em cima permanecem em
cima graças aos que estão em baixo; e por isso
sempre manterão os de baixo em baixo. E os de
baixo têm que ser cada vez mais numerosos, para,
manter a posição da gangorra.
Joana acredita na conversão dos bons patrões,
mas quando afirma que a bondade existe ouve-se
ao longe as metralhadoras da repressão. Os
operários estão decididos à luta:
“Se vocês estiverem em grupos
Eles vão bater em vocês.
Nós dizemos: fiquem em grupos.
Se vocês combaterem
Seus tanques virão esmagá-los.
Nós dizemos: combatam.
Este combate será vencido
E talvez também o próximo será vencido.
Mas vocês aprenderão a lutar
E aprenderão por experiência
Que nada se consegue sem violência
E sem a vossa própria ação.”
Mas Joana não acredita que a violência possa
construir: “se desde a infância a marca da
miséria e da fome me tivesse ensinado a
violência, eu seria um deles e não faria
perguntas. Mas agora, eu preciso ir embora”.
Apesar de seu esforço de lucidez, Joana não se
liga aos que organizam a greve: sua trajetória
de compreensão não é a mesma de “A Mãe”.
Permanece prisioneira do sistema de valores
morais cristão, acreditando na caridade, na
bondade, e, encarregada pelos dirigentes
operários de uma importante missão para a
deflagração de uma gigantesca greve, recua,
novamente iludida pelas falsas promessas dos
capitalistas. Joana morre sem lutas e sem
glória, de uma pneumonia contraída no frio e na
neve dos matadouros de Chicago. Mas sua morte
será usada contra o povo. Joana será canonizada
pelos exploradores, numa apoteose glorificante
que traduz, como afirma Chiarini, a necessidade
de acobertar com uma fraseologia idealista e
mística os interesses mais terrenos e impuros. O
povo não ouvirá suas últimas palavras:
“E eu? o que é que eu fiz? Nada.
Sejam quais forem as aparências
Que nada seja computado como uma boa ação
Se não for uma ajuda real.
Que nada seja considerado honrado
Senão aquilo que muda o mundo
Definitivamente: ele precisa ser transformado”.
Para Chiarini, “Santa Joana” é o primeiro
esforço de Brecht para libertar-se do frio
estilismo didático das “Lehrstuck” e atingir uma
forma dialética mais complexa. Seria o princípio
de uma nova fase de sua obra. Brecht teria
descoberto o psicólogo que se ocultava em Marx:
o que este deixou em suas investigações
políticas e econômicas, afirma Holthusen, Brecht
transformava em vida dramática sob a forma de
diferenciações psicológicas - Brecht vê no fato
de trocar a representação falsa da realidade por
uma representação fiel e verdadeira, o “shock”
decisivo que condiciona as peripécias
dramáticas. Assim a Joana francesa foi chamada
para cumprir uma missão religiosa e nacional por
uma iluminação sobrenatural, enquanto que a
Joana operária de Brecht se converte à realidade
por uma súbita tomada de consciência [...]
Joana, na lenda e na história, troca suas roupas
de camponesa pelo uniforme militar; a Joana de
Brecht, expulsa das fileiras dos Chapéus Pretos,
troca o uniforme pelas roupas de camponesa. E
parte para lutar ao lado dos operários, embora
sem compreender os elementos básicos desta luta,
mas compreendendo a miséria e a fome que os
esmaga. Ela toma consciência de classe, mas não
consegue objetivá-la. Um operário chega a
comentar com precisão; “ela vai embora, quando a
verdadeira neve começa a cair”. O personagem
adquire, em certo sentido, uma conotação mais
ampla: para alguns é o símbolo de toda uma
geração, a de após-guerra, que fracassa na
Alemanha.
Santa Joana dos Matadouros
A peça estréia no dia 4 de junho e fica em
cartaz todos as sextas e sábados, às 21h e
domingos, às 19h. Teatro Denoy de Oliveira, rua
Rui Barbosa, 323, Bela Vista – Tel: 3289-7475.
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00
(estudantes, terceira idade, classe artística e
professores da rede estadual com carteira da
APEOESP). |