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Câmara de
SP homenageia Zé Renato
O diretor de teatro José Renato recebeu a
medalha José Anchieta (concedida pela Câmara Municipal de São Paulo) no dia
25 em homenagem a sua carreira no teatro e ao Teatro de Arena, fundado por
ele em 1953.
Além de José Renato, foi homenageada a atriz Eva
Wilma e o produtor Roger Levy.
Eva Wilma integrou um dos primeiros elencos do
Teatro de Arena (com a peça Uma mulher e três palhaços, na qual atuavam
também o próprio José Renato, John Herbert e Jorge Fischer Jr.) e Roger Levi
levantou os recursos para a montagem do teatro em sua primeira sede.
A proposta da homenagem partiu do vereador
Floriano Pêsaro, que destacou a ruptura revolucionária do Teatro de Arena e
que, com um cenário leve e saindo da forma do tradicional palco italiano,
caminhava em direção ao público e interagia com ele.
“Encenávamos em escolas, fábricas, festas em que
éramos convidados. Atuávamos muito próximo ao público”, afirmou a atriz Eva
Wilma. “Foi acima de tudo uma alegria, uma honra participar do grupo que
criou o Arena”, destacou a atriz.
“O Zé é um desbravador. A ideia do Teatro de
Arena foi pela primeira vez realizada na América Latina sob direção dele. É
um visionário”, acrescentou. “Ele me conheceu em 53, foi o meu primeiro
mestre”, lembrou. “O pioneirismo deste teatro fez com que por ele passasse
uma geração de autores, que colocavam a vida do povo e do país em cena. Foi
através do Arena que teve início uma dramaturgia realmente brasileira com o
José Renato, Guarnieri, Vianinha, Boal”.
Entre os presentes à homenagem estava Hersch
Basbaum, autor do livro biográfico sobre José Renato, Energia Eterna. No
livro, Basbaum cita a peça levada pelo Teatro de Arena em 1958, de autoria
de Gianfrancesco Guarnieri e sob a direção de José Renato, Eles não usam
black-tie, “marco histórico fundamental no teatro brasileiro”.
“José Renato tem a inteira responsabilidade de
um autêntico pioneiro. A hipótese de uma dramaturgia brasileira, a ideia de
lançar novos autores estavam sempre presentes nos propósitos do Arena”,
afirma Basbaum.
Entre os atores presentes destacamos Gésio
Amadeu, que atuou no premiado filme com base na peça de Guarnieri. “Conheci
o Arena quando cheguei em São Paulo. Esta homenagem é mais do que merecida,
foi através do Arena que se formaram alguns dos principais artistas do
teatro brasileiro”.
Foi entregue também uma Salva de Prata à
instituição Teatro de Arena, representado na figura da atriz Eva Wilma. O
Teatro de Arena se mantém vivo até hoje administrado pela Fundação Nacional
de Arte (FUNARTE), com o nome Teatro de Arena Eugenio Kusnet, no Rio de
Janeiro.
José Renato criou também o Teatro dos Arcos, no
bairro da Bela Vista, e vai estrear em junho uma montagem de “Santa Joana
dos Matadouros”, de Bertolt Brecht, dirigida por ele, no Teatro Denoy de
Oliveira.
Além de Eva Wilma, passaram pelo Arena atores
destacados como John Herbert, Paulo José, Dina Sfat, Flávio Migliaccio,
Milton Gonçalves, Lélia Abramo, Geraldo Matheus, Myrian Muniz, Juca de
Oliveira, Renato Consorte, Nelson Xavier, Raul Cortez e Ary Toledo.
“Foi na arena deste Teatro que se construiu um
espaço onde os atores podiam arriscar na própria pele uma dramaturgia
autenticamente brasileira, como foi a encenação de Eles não usam Black-tie,
em 1958, de Gianfrancesco Guarnieri”, declarou o autor da proposta que
resultou na homenagem, o vereador Pêsaro.
Também ele destacou que Eles não usam Black-tie
foi um marco histórico nos palcos brasileiros. “Seja pelo inesperado e
prolongado sucesso de bilheteria, seja pela guinada estética e política que
significou, ao aproximar teatro e povo, até então separados. No Arena, o
público tinha uma proximidade imensa com o espetáculo e algumas vezes podia
interagir com os atores, nas cenas”.
“A cidade de São Paulo precisa reverenciar a
quem muito fez pela cultura paulistana e brasileira. José Renato e Roger
Levy levaram o nome de São Paulo aos quatro cantos do país com a idéia
revolucionária do Teatro Arena”.
Em seu pronunciamento José Renato lembrou
“aquela pequena garagem vazia na rua Teodoro Bayma, que mais tarde, graças
ao talento de todos os que nela trabalharam, viria a se tornar um marco na
dramaturgia brasileira”.,
“Um teatro popular, engajado numa linguagem
verdadeira, despojada, tentando focalizar os problemas sociais da época que
vivíamos, tentando utilizar um gestual que todos conheciam e a todos
sensibilizava”, destacou o diretor.
“O Teatro é a grande arte da confraternização,
da festa, da convivência. E é a única arte que não conserva a memória do que
realiza; a não ser através, é claro, dos textos escritos”, prosseguiu.
“Mas”, acrescentou ainda, “dos espetáculos, a
memória se extingue com a vida dos que assistiram ou participaram desses
espetáculos, dos que gozaram desse instante de confraternização. O cinema, a
televisão, a literatura, as artes plásticas, conservam a sua memória, por
muito tempo, ainda mais agora com os registros da tecnologia avançada. Mas,
o teatro, por suas características fundamentais, como a presença física do
ator, por exemplo, não tem esse poder”.
“A maioria absoluta das pessoas presentes não
viram os espetáculos do Arena. Não sabem o que perderam... Era uma alegria,
um encontro, um debate sem fim... Uma vontade em marcha, vibrante, e
tentando ter consciência do seu pensamento” enfatizou José Renato.
Ele concluiu estendendo a homenagem “aos meus
companheiros que ficaram na caminhada, Vianinha, Boal, Guarnieri, Zé Marques
da Costa, Jorge Fischer, Flávio Império, Riva Nimitz e tantos outros que
continuam até hoje batalhando por uma arte sublime... mas, sem memória!”
E por isso fez questão de ressaltar a homenagem
como uma forma de “provar que este país tem memória”. |