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EUA: regulamentação passa mas deixa
intactos os grandes bancos
A
reforma feita pelo Senado não refaz a separação dos bancos comerciais
daqueles dedicados à especulação. Mas há avanços e meio-avanços – afinal,
está se deixando para trás uma situação em que alavancagem de 1 para 70
virara uma rotina
Escorado pela repercussão dos escândalos das fraudes cometidas pelo Goldman
Sachs e do bônus recorde de US$ 140 bilhões, o Senado dos EUA aprovou no dia
20 sua versão da lei de reforma do sistema financeiro, restaurando em parte
a regulamentação derrubada nos últimos anos, mas sem mexer, no essencial,
nos grandes bancos. Os assim chamados “too-big-to-fail” [grandes demais para
quebrar], como o JP Morgan Chase (que abocanhou o Bear Stearns), o Bank of
America (ainda digerindo o Merrill Lynch), o Citibank (pendurado no Tesouro
dos EUA) e o Wells Fargo (entalado com o Wachovia). A Câmara de
Representantes já havia, em dezembro, votado a questão, e agora as duas
versões terão de ser combinadas em um projeto final por um comitê conjunto.
“HORDAS”
Obama cantou “vitória” sobre as “hordas de lobistas”, mas nas 1.500 páginas
da versão do Senado há inúmeras provisões exceto a “criação de uma Lei
Glass-Steagall do século XXI” – como assinalado pela jornalista e fundadora
do conhecido site, Arianna Huffington.
Assim, a reforma aprovada no Senado não refaz a separação obrigatória dos
bancos comerciais - com depósitos do público garantidos por lei -, daqueles
dedicados à especulação com papéis, os ‘bancos de investimentos’, sem essa
garantia. Decisão que foi o centro da reconstrução, pelo governo Roosevelt,
do sistema financeiro dos EUA na década de 30, após as investigações da
Comissão Pecora sobre os “banksters”. Também não toca na monstruosa
monopolização, que às vésperas da derrocada de setembro de 2008, fazia com
que os cinco maiores bancos detivessem 80% dos derivativos segundo dados
oficiais, e que se agravou desde então.
Mas há avanços e meio-avanços – afinal, está se deixando para trás uma
situação em que o descontrole era tal que alavancagem de 1 para 70 virara
rotina (o banco emprestava, ou apostava, 70 dólares para cada dólar que
dizia ter). Será feita uma auditoria no Fed sobre o bailout. O governo
federal passará a ter poder para tomar e liquidar empresas financeiras em
colapso. Será criado um “Procom” dos serviços financeiros para “evitar os
empréstimos predatórios” e a escorcha no cartão de crédito. Embora vá
funcionar, na proposta do Senado, dentro do Fed, que como se sabe, é muito
preocupado com os consumidores - além de ser um banco central privado. A lei
estabelece um novo conselho de reguladores de “risco sistêmico”, que tentará
evitar que grandes corporações e bancos cheguem ao quadro em que seu colapso
se torne uma ameaça à economia dos EUA.
Fundos de hedge e outros fundos especulativos terão de se registrar pela
primeira vez, e parte dos derivativos terá de ser negociada em bolsa ou
câmara de compensação. Mas, como apontou Arianna, a lei “deixa abertos
perigosos buracos na regulação de derivativos” – segundo um entrevistado do
programa “Democracy Now”, “dá para passar um caminhão”.
A “draconiana proibição de os bancos operarem mesas de derivativos ‘swaps’ -
proposta da senadora democrata Blanche Lincoln -, foi depois melhor
esclarecida. O Citibank – que recebe garantias federais - não poderia
operar, mas a empresa holding, o Citigroup, sim, bastando criar uma
subsidiária para isso. Os bancos reclamam que isso requeriria “muito capital
adicional”.
Não há também qualquer proibição de venda de ações ou títulos a descoberto –
isto é, a venda do que o especulador não tem nem pediu emprestado. Medida
que, por exemplo, o governo alemão considerou fundamental para deter a
especulação.
Quanto às agências de rating, a lei maquia o amancebamento entre bancos e
estas. Agora, será uma autoridade que irá definir a cada caso qual das
agências do cartel de rating que irá receber a comissão do banco para
“classificar o risco” – imparcialmente, claro.
“SEM FECHADURAS”
Ninguém melhor que o senador Chris Dodd, o democrata que encabeça o comitê
dos Bancos do Senado, para definir a situação. “Aqui estamos 17 meses após
alguém ter arrombado nossa casa e nos roubado, e nós ainda nem mesmo mudamos
as fechaduras das portas”, ele analisou no mês passado.
Não mudaram as fechaduras, mas já tem gente ajeitando a gazua. Arianna
Huffington resumiu a “reforma”. “Em público, os grandes bancos se queixam.
Em privado, eles contam seus lucros recordes, observam as ações dispararem
após o voto do Senado, e concordam que os US$ 1,4 milhão por dia que o setor
financeiro gastou fazendo lobby no Congresso foi um dinheiro bem gasto”.
ANTONIO PIMENTA |