Candidato do atraso perdeu por 12 milhões
de votos de frente
Dilma, assim como Lula, condensa a vontade do país de ser independente para
se desenvolver
Várias
pessoas, entre as quais líderes populares e dirigentes dos partidos que
compõem a coligação “Para o Brasil Seguir Mudando”, observaram que jamais,
em todas as campanhas presidenciais da História do país, adversários
recorreram a tanta baixeza, com tamanha falta de escrúpulos e limites
morais, quanto Serra e sua trupe, derrotados no último dia 31.
O leitor pode achar estranho que comecemos a notícia da vitória de Dilma por
esse aspecto.
Mas nada mostra tão bem a grandeza luminosa dessa vitória – e, de resto, da
própria candidata - quanto a pororoca de lama que ela teve de enfrentar,
esconjurar, e derrotar. Os antigos gregos gostavam de aumentar o porte dos
inimigos que tinham vencido, para, assim, ressaltar a si próprios. Nós não
temos essa sorte. Aqui, é a pequenez, a mesquinharia, a cretinice, a
sociopatia do outro lado – que não precisamos exagerar, pois já é dose mais
que suficiente em seu estado real – que indica a dimensão humana, diríamos
mesmo heroica, da nossa vitória, com o que alguns chamam de sociedade civil,
isto é, a nação, levantando-se para impedir que o país fosse outra vez
usurpado pelos seus inimigos – e, desta vez, sem nem ao menos disfarçar o
odor de nazi-fascismo.
Dilma obteve 12.041.141 (12 milhões, 41 mil e 141) votos a mais do que Serra
(55.752.529 contra 43.711.388). Sem dúvida, ela era apoiada pelo presidente
Lula – e não por acaso era ela a candidata de Lula. Mesmo assim, não deixa
de ser espantoso como Dilma, que nunca até então havia concorrido numa
eleição, quebrou um candidato que já tinha nove eleições disputadas, muito
mais experiente do que ela na parafernália que cerca as campanhas
eleitorais, e tão sofregamente ambicioso pelo poder, que sempre dizia que se
“preparara durante a vida inteira” para ser presidente.
Dilma afirmou – e não há porque duvidar - que nunca pensara em ser
presidente. Nem ela nem a maior parte das pessoas (quase todas) que estão
mais preocupadas em ser bons seres humanos, honrados e decentes, do que em
ser presidente. Mas a preparação de Dilma, feita desde a tenra juventude na
luta pelo Brasil, nos abnegados sacrifícios da luta contra a ditadura em seu
pior período, no desinteresse pessoal de quem combate pela liberdade a ponto
de colocar a vida em risco, no comportamento digno na hora mais difícil, na
vida pública visando o bem comum, é excelente para ser presidente; muito
melhor que a do preparado elemento que se forjou na fuga do país e da luta,
no servil e mal explicado conluio que o transportou do Chile de Pinochet
para as dispendiosas academias privadas dos EUA (aquelas que um de seus
reitores, McGeorge Bundy, descreveu orgulhosamente como “uma extensão de
nosso serviço de inteligência”) e nas negociatas penumbrosas – sobretudo
armando as maiores delas, as privatizações do governo em que foi ministro.
O que o povo quer e merece para presidente é alguém que se identifique com
ele, com a sua vida, com as suas dificuldades, com o seu sofrimento. Por
isso, o Nordeste e as áreas mais populares do país em todas as regiões,
elegeram uma presidente para quem “não podemos descansar enquanto houver
brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto
crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte” (ver a íntegra do
pronunciamento de Dilma na página 8). Alguém cuja meta é “a erradicação
da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e
brasileiras”.
Serra, segundo seus próprios correligionários, teria dito, ainda antes da
campanha, que “vocês não estão vendo que esta é a minha última chance?”.
Ainda bem que, graças à Dilma e ao povo, foi a última. Não adianta, agora,
encenar o papel de Lord Voldemort – o vilão do Harry Potter – e prometer a
volta triunfal, até porque Voldemort não teve um bom fim nessa volta. Serra
está acabado – com algum atraso, mas o que importa é que acabou. Expôs o seu
caráter em toda a sua repugnante crueza – e isso foi o fim. A história de
que “sou como se diz na bandeira de São Paulo: não sou conduzido, conduzo”
terminou mal, pois o que ficou claro é que ele jamais conduziu nem a si
próprio – há mais de 30 anos que é conduzido pela reação mais antinacional,
antipopular e antidemocrática.
A questão em jogo foi muito bem sintetizada por Dilma em seu discurso:
“... não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para
impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes
nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e
nossas próprias decisões econômicas”.
A eleição foi, antes de tudo, a escolha do país por ter as suas próprias
políticas, por tomar as suas próprias decisões para crescer, contra aqueles
que queriam novamente atrelá-lo às decisões de outros, às políticas de
outros – ou seja, tornar nossa economia outra vez um apêndice definhante da
economia definhante dos EUA, dos seus cartéis e monopólios falidos, e tornar
nosso Estado outra vez um pequeno capitão-do-mato do Estado dos EUA.
Dilma, como Lula, condensa essa vontade de ser independente para crescer. O
desespero que acometeu os corifeus do servilismo, os mercadores da
privatização, os amealhadores de comissões pela liquidação da propriedade
pública, é apenas a demonstração da sua falta de espaço dentro do país –
quanto menos espaço, mais histéricos eles se tornam, mais ou menos como os
ratos quando são acuados. É verdade que Serra não é um sujeito normal – mas,
por isso mesmo, não havia representante mais próprio do atraso, não havia
candidato mais apropriado ao entreguismo reacionário, não havia ninguém que
personificasse tão completamente a traição nacional.
O processo de retomada do país em suas próprias mãos começou com Lula, mas,
evidentemente, ainda não foi concluído. Para os silvérios dos reis de hoje
era fundamental que esse processo não prosseguisse, que fosse interrompido,
que fosse frustrado, que não fosse aprofundado e ampliado. Como disse
Fernando Henrique na sua reunião secreta com os “investidores” externos em
Foz do Iguaçu, era agora ou nunca (“se deixarmos passar a oportunidade
agora, jamais conseguiremos vender essas empresas” - a Petrobrás, o
Banco do Brasil, as subsidiárias da Eletrobrás, etc.). Daí a histeria e o
fascismo que irrompeu tão nitidamente na campanha de Serra, uma erupção que
a alguns parecia inacreditável em 2010, pois era como se o macartismo e o
lacerdismo tivessem saído da tumba. Mas o neoliberalismo sempre foi isso, um
conúbio de mortos-vivos querendo transformar o país em sepultura - mesmo
quando se escondia sob capas aparentemente (e supostamente) mais
civilizadas.
CARLOS LOPES