Dilma quer discutir valorização do mínimo
e a queda dos juros
Em entrevista, ela defendeu o repúdio à guerra cambial e a necessidade de
barrar essa prática
A
presidente eleita, Dilma Rousseff, que acompanhará o presidente Lula na
reunião do G20, afirmou que o governo “poderá baixar os juros com
facilidade” porque “a dívida pública brasileira é cadente”.
Em entrevista para a rede norte americana CNN, Dilma defendeu a manutenção
da política de valorização do salário mínimo do governo Lula. Dilma
argumentou que o mecanismo de reposição baseado na inflação e no crescimento
do PIB deu certo e deve ser mantido. Ela ressaltou, no entanto, que a
situação de 2009, base para o cálculo do próximo reajuste, “foi atípica”.
“Em 2009 nós tivemos um crescimento pequeno por conta da crise econômica
mundial, mas como o Brasil se recuperou rapidamente, nós podemos pensar num
mecanismo de compensação para esta situação”. “Quando eu voltar de Seul,
vamos discutir essa questão”, informou.
Ela também criticou a guerra cambial e defendeu o repúdio à essa prática.
“Tenho dito que os órgãos multilaterais onde se encontram os diferentes
países e seus representantes econômicos são cruciais para que se defina uma
prática que repudia a guerra cambial”, frisou a nova presidente.
Em seu discurso logo após a vitória eleitoral, ela já havia avaliado que o
Brasil não poderá contar com os países desenvolvidos e que deverá tomar
medidas para se desenvolver com suas próprias forças: “... não contaremos
com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso
crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias
políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias
decisões econômicas”.
O presidente Lula afirmou, na segunda-feira (8), na volta de seu programa
semanal de rádio, Café com o Presidente, que vai à Seul, na reunião do G20 -
grupo dos vinte maiores países do mundo - para lutar contra a manipulação
cambial que está em curso hoje no mundo. “Todo mundo já sabe que existe uma
guerra cambial”, denunciou. “O ministro Guido Mantega, na última reunião dos
ministros da Economia do G-20, denunciou essa guerra cambial”, acrescentou o
presidente.
Ele criticou as manobras cambiais e disse que elas estão “causando um
desequilíbrio no comércio mundial”. “Nós precisamos voltar a ter um
equilíbrio na questão do câmbio”, defendeu. Para o presidente, tem que haver
uma discussão com o compromisso de todos os países com a política cambial,
“que deixe todo mundo confortável e todo mundo em igualdade de condições na
disputa comercial”.
Vários países do mundo, incluindo Brasil, China, Índia e África do Sul,
estão condenando a recente decisão dos EUA de despejar 600 bilhões de
dólares na economia mundial. Segundo os representantes desses países, a
medida unilateral americana provocará uma desvalorização artificial do dólar
e prejudicará a economia da grande parte dos países do mundo. As manobras
cambiais desenvolvidas pelo Banco Central americano têm provocado a reação
do governo da China, que, em defesa de sua economia, toma medidas para
impedir a sobrevalorização artificial de sua moeda em relação ao dólar.
Chama a atenção que a China, além de se somar ao Brasil e aos outros países
na condenação pública da política cambial americana, vem tomando medidas
contra a guerra cambial e em defesa de suas empresas, de sua moeda e de sua
economia.
Lula defendeu também que o G-20 discuta a questão da economia mundial desde
a crise de 2008. “A crise que abalou os Estados Unidos e que abalou a Europa
ainda não foi solucionada, porque a economia europeia e americana ainda
estão em crise”, avaliou. “Nós vamos lá discutir a questão da retomada do
crescimento econômico, sobretudo nos EUA e na União Europeia, que o consumo
está muito pequeno, o mercado interno está enfraquecido e nós precisamos
dinamizar a economia”, destacou.
Outro assunto que Lula acha importante de ser discutido no G-20 é a criação
de “um instrumento de controle do sistema financeiro”. “O sistema
financeiro, depois da irresponsabilidade da crise de 2008, não pode
continuar sem controle. É preciso, no mínimo, que tenha um instrumento
multilateral que possa fiscalizar a alavancagem do sistema financeiro
mundial, para evitar especulação, sobretudo como aconteceu no mercado
imobiliário americano, ou no mercado futuro, sobretudo de commodities. É
importante que a gente fique atento”, salientou.