Não é correto os EUA agirem ignorando o
mundo, diz Lula
“Erros cometidos pelos Estados Unidos podem causar transtornos em vários
países”, advertiu
O
presidente Lula afirmou, na terça-feira (9), em Moçambique, que os países
ricos, para saírem da crise, devem tomar medidas que aumentem o consumo, a
produção interna e o comércio entre os países. “Cada país precisa fazer a
política anticíclica que nós fizemos”. “Quando ocorriam crises econômicas na
Nicarágua, no Brasil ou em outros países pobres, sempre apareciam os
palpiteiros do mundo desenvolvido para “dar palpite”. “Agora, eu estou dando
o palpite. Façam como se fez no Brasil que a coisa fica mais fácil”,
defendeu o presidente, após participar de jantar oferecido pelo presidente
de Moçambique, Armando Guebuza, em Maputo.
Lula também respondeu à declaração do presidente norte-americano, Barack
Obama, de que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o mundo”. A
frase de Obama foi uma referência à reação mundial contra a inundação de 600
bilhões de dólares feita pelo BC americano na economia internacional. O
presidente Lula não gostou da frase e disse que seria mais soberano se Obama
justificasse as medidas de seu governo dizendo que são boas apenas para os
americanos. “A verdade é que o que é bom para os EUA, é bom para os EUA e o
que é bom para o Brasil, é bom para o Brasil. Se a gente entender assim,
melhor, mais claro, e mais soberano será o comportamento de cada país”,
declarou. Segundo o presidente, o fato é que “erros cometidos pelos EUA
podem causar transtornos em vários países”.
Ele voltou a criticar a falta de regulação do sistema financeiro e da
especulação financeira ocasionada por essa falta de controle. “Até agora não
foi tomada nenhuma medida para a regulação do sistema financeiro”, cobrou.
Ainda sobre a guerra cambial desencadeada pelo governo dos Estados Unidos,
Lula disse: “Não é correto que países, para resolver seus problemas
internos, tomem medidas sem levar em conta as consequências dessas medidas
em outros países”. “Quando um país que produz a moeda resolve desvalorizar a
sua moeda no intuito de aumentar a sua competitividade no mercado
internacional, isso causa problemas para outros países”, denunciou Lula.
“É preciso que o câmbio seja flutuante, mas que haja um equilíbrio entre as
políticas cambiais”, ponderou o presidente. Ele ressaltou que a crise
econômica de 2008 “mostrou a fragilidade dos instrumentos multilaterais para
tomar decisão e fazer com que os países cumpram”. “Eu acho que o G-20 deu
uma contribuição importante para a crise econômica. Mas o G-20 ainda não
constituiu os instrumentos multilaterais capazes de evitar que novas crises
aconteçam no mundo”, avaliou. “Vamos defender nossas posições no G-20, mas
sabemos das limitações. Lá não é lugar onde se tomam decisões. Será feita
uma discussão sobre a crise econômica e as políticas que devem ser adotadas
para superá-la”, destacou.
Entre as idéias defendidas pelo governo brasileiro está a do ministro da
Fazenda, Guido Mantega, de substituir a moeda norte-americana, o dólar, por
uma cesta de moedas para servir de reserva internacional. O ministro
avaliou, na terça-feira, que os Estados Unidos não estão mais em condições
de se manter como país que emite a moeda de referência para uso nas
transações comerciais entre os países. Mantega também aproveitou para
anunciar que os juros no Brasil “vão cair em 2011”, porque, segundo ele, a
nova presidente “quer trabalhar com juros menores”.
Na entrevista, Lula insistiu em que a demora dos EUA e da Europa em resolver
seus problemas internos cria uma situação grave e prejudica a economia
mundial. “Nós estamos percebendo uma demora nos Estados Unidos e uma demora
na Europa de resolver o problema da sua crise, sobretudo na questão do
mercado interno, do consumo. E isso é condição básica para que a economia
volte à normalidade”, disse. “Quando a política americana aumenta o consumo,
aumenta o emprego, aumenta a renda, aumenta o poder de compra das pessoas,
isso é bom, é bom para a Europa, é bom para o Brasil, é bom para a América
Latina”, avaliou.
“Nós vamos continuar brigando para que a gente tenha um comércio cada vez
mais livre. Vamos continuar brigando para que, de uma vez por todas acabemos
com essa guerra cambial, que não interessa ao mundo”, acrescentou o
presidente, destacando que “é a primeira vez neste século, ou mesmo no
século XX, que uma crise acontece nos países ricos, mas a solução é
encontrada primeiro nos países pobres”. “Quem está sustentando a economia
mundial são exatamente os países mais pobres. Os países em desenvolvimento,
os BRICs, América Latina e África”, completou Lula.