Globo arma entrevista exclusiva contra
ministro Guido Mantega
Todo cuidado é pouco quando se trata dela
O
ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmado no cargo pela presidente
Dilma Rousseff, poderia, com muito proveito, para si e para o país, seguir o
exemplo de nossa próxima primeira magistrada: entrevista para a Globo não é
para o entrevistado concordar com a Globo.
Por exemplo, a pergunta “sabemos, não é ministro Guido Mantega, que 2011
teria que ser um ano pra cortar despesas?” não é uma pergunta – o
sujeito quer mandar no governo e no ministro sem ter sido eleito. E se a
Globo quer mandar alguma coisa, essa coisa deve estar errada. Por isso, não
é bom o nosso ministro responder: “Exatamente. (…) porque nos
últimos dois anos nós gastamos um pouco mais”.
“Gastamos um pouco mais”, em quê? Nas obras do PAC? No Minha Casa, Minha
Vida? Onde foi que o governo Lula gastou mais do que deveria gastar? Até
agora isso tem sido, exatamente, a conversa – tucana e neoliberal, de fio a
pavio – do “ajuste fiscal”.
O presidente Lula, com a sua acuidade popular, já definiu o que é isso:
“geralmente, quando se fala em ajuste fiscal, se prepara algum tipo de
sacanagem contra o povo”.
Ou, como disse a presidente Dilma, logo após a vitória: “recusamos as
visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços
essenciais à população e os necessários investimentos”.
Portanto, mesmo por cortesia, também não é bom o nosso ministro responder à
Globo, sobre o salário-mínimo de 2011: “salário mínimo, o valor é R$ 540.
Não dá para subir mais, porque senão aumenta os gastos da Previdência”.
Primeiro, essa decisão não é sua, mas da presidente. Segundo, como o país
vai continuar crescendo, sem que o salário-mínimo esteja em recuperação,
expandindo o mercado interno? Quem vai comprar o que a economia, em
crescimento, produzir a mais, se o salário básico da economia não tem
aumento real? Os americanos é que não vão comprar. E que história é essa de
“gastos da Previdência”, cantilena desmoralizada há alguns anos, inclusive
pelo presidente Lula? Ou será que o ministro quer levar em consideração os
“gastos da Previdência” sem lembrar que eles fazem parte do orçamento da
seguridade social, que é superavitário?
No entanto, disse o ministro: “além de cortar gastos que já existem, nós
ainda temos que impedir que novos gastos sejam feitos. Diga-se de passagem,
o funcionalismo está ganhando bem. Então é o momento de dar uma parada: no
ano de 2011, nós não estamos prevendo aumento pro funcionalismo”.
Essa decisão também não é sua. E, se fosse tomada, ainda mais anunciada
antes da presidente tomar posse, convenhamos que não seria a melhor
política, nem para o crescimento do país, nem para os serviços públicos, nem
para a tranquilidade – pelo menos alguma há de existir – de uma massa de
cidadãos que votaram em peso na nossa presidente, e o fizeram porque querem
servir melhor à população e ao país.
Não foi para adotar a pauta da oposição derrotada que 56 milhões de pessoas
votaram em Dilma na eleição de 31 de outubro. Até porque, mesmo se o
ministro aderisse a essa pauta, a oposição não o amaria mais do que o odeia
hoje em dia. Apenas, iria tentar atingir a presidente por algo que ela não
fez. Mas, se foi por delicadeza que o ministro assim respondeu, homem culto
que o é, certamente quando em solidão, relembrará os versos de Rimbaud:
“Par délicatesse/ J’ai perdu ma vie”, ou seja, “Por delicadeza/ Eu
perdi minha vida”. Eis um risco que é desnecessário correr.
A presidente eleita Dilma Rousseff deixou claro na campanha, e depois, em
diversas ocasiões que, diante da excepcionalidade da crise de 2008/9,
pretende negociar com as Centrais Sindicais uma forma de “compensação
para garantir um reajuste que mantenha a continuidade da política de
valorização do salário”. As centrais sindicais reivindicam um salário de
R$ 580,00 (veja matéria na página 5) e argumentam que o que foi negociado
com o governo Lula foi um mecanismo “para recuperar e valorizar o salário
mínimo”. Além disso, os dirigentes sindicais defendem, com razão, que o que
garante o crescimento do país é o mercado interno.
Quanto a corte de gastos como condição para queda de juros (“no futuro”,
disse o ministro), isso tem marca registrada. O leitor deve se lembrar da
“Veja”, “Folha”, e dessas palavras: “cortando gastos e desperdícios será
possível reduzir juros, carga tributária e aumentar investimentos” (José
Serra, Globonews, junho, entrevista à Miriam Leitão).
Seria mais produtivo se o ministro se dedicasse ao combate no front da
guerra cambial, que está comendo solta, com os EUA inundando o mundo com
mais 600 bilhões de dólares, o real artificialmente alto, as importações
explodindo, as exportações cada vez mais caras, as contas externas em
dificuldades (ver matéria na página 2) – assim chegaria, homem inteligente
que é, à conclusão de que os juros têm de cair logo, ao invés de cortar
necessárias despesas públicas. Papel de Meirelles, só o Meirelles consegue
fazer.
SÉRGIO CRUZ