Povo vai às urnas para derrotar o partido
de Silvério dos Reis
Com Lula e Dilma para avançar mais ainda no desenvolvimento que o país
necessita
A
eleição presidencial do próximo domingo será a mais nítida de nossa
História, aquela que mais inescapavelmente refletirá a fisionomia do país.
Há alguns anos um dos patriarcas do país, Barbosa Lima Sobrinho, afirmou que
no Brasil só havia dois partidos: o partido de Tiradentes e o partido de
Silvério dos Reis. Pois jamais uma campanha eleitoral expôs esta verdade de
forma tão cristalina – com uma grandeza que vai até além da consciência de
alguns dos seus participantes.
Será possível um retrato mais
acabado – em todos os sentidos - de um silvério do que a deprimente figura
de Serra? Em nosso país, jamais um candidato a presidente mostrou tanta
falta de escrúpulos, tanta falta de limites de qualquer espécie. Não houve
um dentre os seus antecessores como candidato do partido dos silvérios que
chegasse a tais extremos nesse submundo moral.
Nenhum desses antecessores
apresentou-se como realizador de tanta coisa que não fez. Jamais um deles
mentiu tanto ao falar de sua vida anterior – de espetaculares realizações
que não existiram e de outras, reais, com as quais nada teve a ver. Nunca,
qualquer deles, prometeu coisas tão colossais quanto alucinadas, sempre de
acordo com o auditório da vez, ainda que uma fosse antagônica à outra, e que
todas estivessem em contradição com tudo o que Serra praticou em
recentíssimo passado. Foi como se achasse possível ganhar a eleição com
promessas de suborno – e um suborno monstruoso, de tão impossível.
Naturalmente, cada um mede os
outros pela medida que tem de si próprio. Mas também nem um dos seus
predecessores ultrapassou tanto a porteira da infâmia, da substituição da
luta política pela difamação, pela aleivosia, pelo insulto, pela calúnia.
Nem mesmo o paraninfo de todos eles, Carlos Lacerda – até aqui um energúmeno
muito difícil de ser mesmo imaginado pelas novas gerações.
O melancólico fim da campanha
de Serra, que, com toda a sua mídia, reuniu alguns gatos pingados, boa parte
pagos para comparecer, abandonado até pelos seus pares – por que a traição
seria fiel à traição? - reflete o repúdio do povo brasileiro a todos os
silvérios. Serra é pior do que seus antecessores porque é tudo o que restou
deles – moral, ideológica e até fisicamente, pois nos é impossível acreditar
que aquele facies amargo, de repelente inveja e ressentimento, não seja a
fachada de uma alma.
O povo não teve condições de
impedir as corruptas privatizações, os roubos à propriedade coletiva para
entregá-la a monopólios sobretudo externos, as propinas milionárias, a
destruição da cadeia produtiva nacional, a dragagem do Tesouro, a devastação
dos serviços públicos, a terrível hemorragia que durante anos impuseram ao
país, em suma, tudo aquilo de que Serra é o representante, e foi executor.
Não esqueceremos o sofrimento
de milhões de crianças, mulheres, idosos, homens capazes subitamente
desempregados, gente sem ter o que comer, sem ter onde morar, sem ter como
viver. Os que perpetraram esses crimes ainda não pagaram por eles.
Mas o Brasil sempre existirá
enquanto o povo brasileiro existir. O dia de hoje é apenas o dia que
antecede o de amanhã. Stefan Zweig estava certo: nós somos o país do futuro.
Mesmo nos piores momentos. Não foi assim com Tiradentes?
A eleição de Lula, em 2002,
foi o início da nossa recuperação. Era necessário que o povo tomasse em suas
próprias mãos o seu país – como disse Getúlio Vargas em 1930 – para outra
vez tirá-lo do sombrio abismo onde os silvérios o haviam embrenhado.
A eleição de Dilma é o
resultado desse período - inicial, mas por isso mesmo mais difícil - de
recuperação do Brasil. Naturalmente, essa foi a obra do presidente Lula –
inclusive a escolha da pessoa certa, a sua principal colaboradora, para
candidata à sua sucessão.
A vitória de Dilma será, pela
terceira vez nos últimos anos, a vitória do partido de Tiradentes, aquele
alferes que doou a sua vida para afirmar que “se quisermos, faremos, juntos,
deste país uma grande Nação”. Talvez não seja fortuita a coincidência da
candidata que nasceu na terra de Joaquim José e fixou residência, após anos
de luta e resistência nas câmaras de tortura, no Estado de Getúlio Vargas.
O fato é que o povo, muito
corretamente, percebeu em Dilma, como antes percebera em Lula, a condensação
das esperanças que nos movem desde o século XVIII – isto é, aquelas
aspirações que fizeram e fazem de nós uma nação. Por isso, sua candidatura
extrapolou, logo na partida, qualquer partido institucional, inclusive o PT
- que em nada ficou diminuído, pelo contrário - para tornar-se a candidatura
de toda a nação, isto é, precisamente, a nação de Tiradentes e Getúlio.
Tentar reduzi-la a menos que o partido de Tiradentes seria, evidentemente,
mera tacanhice que restringiria o seu terreno – e, assim, concederia esse
terreno aos inimigos do país.
Devido a esse caráter amplo e
profundo, nada – nem os recursos mais baixos do adversário, nem a cruzada
mais despudorada da mídia reacionária e golpista - conseguiu deter o
crescimento de Dilma.
Contra ela, esboroaram-se
aquelas que são a principal e traiçoeira arma dos silvérios, as pesquisas
eleitorais enganosas. Nas últimas, até o notório Ibope teve de convergir
para os mesmos números que apontaram o Vox Populi e o Sensus: Dilma vence no
primeiro turno, pelo menos com 55% dos votos válidos. O Datafolha, tão
insensato quanto o seu dono, o perdulário Otavinho, estroina que dilapida a
fortuna que o pai lhe deixou, ainda insiste no roubo – porém, mesmo essa
repartição da “Folha de S. Paulo” começou a reajeitar seus números,
devolvendo, no momento ainda pouca coisa, do que havia furtado nas
preferências eleitorais de Dilma. A eleição se aproxima e o Otavinho quer
fugir ao castigo.
A ascensão esplendorosa (o
leitor vai nos permitir este altissonante adjetivo) de Dilma e a debacle
fragorosa de Serra são os sinais mais recentes e retumbantes do novo período
da História do Brasil iniciado por Lula. O povo viu em Dilma uma sucessora à
altura. E tem razão. Vamos à eleição, que há ainda muita coisa para se fazer
no Brasil.
CARLOS LOPES