Serra: “você, Marina, era do governo do
mensalão”
Após atacar Marina, tucano agora diz que é ambientalista desde criancinha
Serra
inaugurou sua participação no segundo turno declarando- se “ambientalista
convicto” - e, disse ele, não é de hoje: “não sou ambientalista de última
hora”. Como se sabe, ele é ambientalista desde criancinha, apesar de, lá na
Mooca, a tia Carmela não se lembrar dessa sua faceta... Mas ele é um sujeito
multifacético – aliás, um verdadeiro polimorfo.
Além da falta de seriedade, e de nós sabermos que ele é assim mesmo (ou
talvez por causa disso), causa náuseas ver como Serra trata as pessoas –
nesse caso, sobretudo, Marina Silva - como se elas fossem burras.
Certamente, se Marina fosse defensora da bomba atômica, Serra, de olho nos
seus votos, estaria pregando a guerra nuclear com o Paraguai – pelo menos
enquanto durasse a campanha eleitoral...
O leitor duvida? Pois há poucos dias esse “ambientalista de primeira hora”
(?!) prometeu asfaltar a Transamazônica, ou seja, encher a Amazônia de
asfalto. Mas foi na campanha do primeiro turno, agora ele sofreu uma
espetacular metamorfose... Seu “ambientalismo”, aliás, tem uma
característica especial: é apoiado por todos os tubarões do agronegócio, a
começar por Dona Kátia Abreu, Sinhozinho Caiado e outros promotores do
desmatamento e do trabalho escravo.
Também há poucos dias, para Serra, no debate promovido pela TV Globo, Marina
era uma cúmplice do “mensalão” - o que, como todo mundo sabe, é o cume da
corrupção, segundo os corruptos do PSDB e do Dem. Serra disse isso em
resposta a uma observação da candidata – por sinal, justa - sobre o vazio do
seu discurso. Bastou isso para ele descarregar, sem nenhum respeito - ou
mesmo aquela básica educação, quase instintiva, que é despertada na maioria
dos homens quando respondem a uma mulher:
“Você não use sua régua para medir os outros. Se eu fosse usar a minha
régua, eu diria que você e a Dilma têm muito mais coisas parecidas do que
quaisquer outros candidatos aqui. Você ficou no governo, ficou no PT até há
pouco, você estava no governo do mensalão, não saiu do governo, continuou lá
como ela”.
Não faremos comentários psicanalíticos sobre esse uso esquisito – e
grosseiro - da palavra “régua”. Frisamos, apenas, a agressão – sem
referências ao componente reprimido que nela veio à tona –, jogando sobre
Marina a invenção de um até há pouco cupincha de Serra, o ínclito Roberto
Jefferson.
O que Marina vai decidir sobre sua posição no segundo turno, ela dirá,
certamente, e na hora que lhe aprouver. Como disse, “não tenho a pretensão
de ter a tutela do voto do eleitor”.
Mas que sua biografia a aproxima muito mais de Dilma do que de Serra, é um
fato – um fato tão evidente que Serra, em seu acesso, não conseguiu deixar
de registrar. A própria Marina destacou várias vezes a sua longa militância
no mesmo partido de Dilma, desde 1986, pelo qual foi eleita vereadora,
deputada estadual e duas vezes senadora, além de sua gestão, durante cinco
anos e quatro meses, como ministra do Meio Ambiente do presidente Lula. Se
as divergências que declarou em relação ao governo consistem “[numa]
concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer
custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a
maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de
recursos naturais e da qualidade de vida”, essa crítica é ainda mais
aguda – e muito mais adequada - se aplicada a Serra e demais tucanos.
Aliás, o ódio subjacente na agressão de Serra é um seguro indicador deste
fato. Serra é uma espécie de Caifás, de sumo fariseu. Não se engana nos
alvos do seu ódio, por mais que esses alvos, muitas vezes, não entendam a
razão desse ódio. Marina não é uma intelectual de salão, mas uma pessoa que
veio dos escalões mais desfavorecidos da sociedade – isso já é suficiente
para que Serra a odeie, quando não mais, por lembrá-lo de suas próprias
origens, que ele detesta.
A falta de compromisso de Serra com qualquer um – exceto com ele mesmo – ou
qualquer ideia, já é sobejamente conhecida. Além de sua carreira, ele já
mostrou no primeiro turno que não se incomoda em prometer qualquer coisa,
desde dobrar o Bolsa Família até construir um metrô na Serra dos Órgãos. O
que custa, para quem não pretende cumprir promessa alguma, anunciar qualquer
coisa, mesmo que tenha idêntico valor a prometer uma lavoura de soja no meio
do Oceano Atlântico?
Dilma, portanto, enfrentará uma encenação, um personagem de péssima
pantomina, neste segundo turno, alguém que representa nada mais do que o seu
próprio ressentimento, ainda que a serviço dos inimigos do país, do
retrocesso, do atraso – e não é por acaso que seus entusiastas, a la
Reinaldo Cabeção, parecem fantasmas de um tempo anterior à Lei Áurea. Na
verdade, são mesmo.
A candidatura de Dilma é a candidatura do país, do povo – do Brasil. A única
coisa que pode impedi-la de vencer é o erro – se nos permitem os amigos, a
estreiteza mental - de reduzi-la à candidata de um só partido. Aliás, foi
exatamente isso o que tentou Serra desde o começo da campanha eleitoral: até
mesmo tentou apresentar-se ao lado de Lula, hoje um consenso nacional, para
reduzir a candidatura de Dilma ao tamanho de um partido.
Esse erro fez com que tivéssemos de enfrentar um segundo turno. Se não fosse
ele, poderíamos ter liquidado o caso logo no primeiro turno. Porém, não faz
mal – desde que corrijamos os erros, é até mais emocionante derrotar Serra e
caterva duas vezes.
Evidentemente, não temos porque fazer o que o inimigo quer que façamos. E
não temos nem motivo, pois a realidade jamais foi essa: desde o início, a
candidatura de Dilma é a representante de todas as forças nacionais – e
vivas. As que já morreram, podemos deixar com Serra, até porque não têm
outro lugar para ficar.
CARLOS LOPES