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O escândalo tucano do petróleo
e
a tentativa de privatizar a Petrobrás
A publicação de um extrato do
livro “O Brasil privatizado”, de Aloysio Biondi, fez sucesso entre nossos
leitores. Recebemos vários pedidos para que continuássemos a publicar os textos
de Biondi sobre os anos em que Fernando Henrique e Serra devastaram o país. Por
várias razões, recomendamos a estes leitores que recorressem à biblioteca
digital da Fundação Perseu Abramo, onde poderão encontrar o livro de Biondi.
No entanto, depois que Serra e outros tucanos saíram, quase aos berros,
para negar seus planos de privatizar o pré-sal e para negar que tenham tentado
privatizar a Petrobrás, resolvemos republicar os trechos de “O Brasil
privatizado” sobre a ação lesa-pátria do governo Fernando Henrique, com seu
ministro do Planejamento, José Serra, na área do petróleo.
Na época, o pré-sal ainda não fora descoberto. Mas o que eles fizeram nas
áreas em que a Petrobrás, até então, explorava petróleo é suficiente para que
tenhamos uma ideia de quais são os planos dessa quadrilha – não conseguimos
encontrar termo mais adequado – para o pré-sal.
Há algo que Biondi ressalta: como aquele governo impediu o Brasil de
chegar à autossuficiência petrolífera. O autor, falecido no ano 2000,
infelizmente, não pôde ver o Brasil atingindo a autossuficiência – em abril de
2006, quando a produção superou o consumo pela primeira vez na História do
Brasil. Mas, para se atingir esta meta, foi necessário afastar o bando que
estava no poder quando Biondi escreveu seu livro, derrotar Serra e eleger o
presidente Lula.
O principal conselheiro de Serra para a área energética, David
Zylbersztajn, declarou-se, há alguns dias, favorável à privatização do pré-sal.
Denunciado por Dilma Rousseff, disse que era “apenas” a favor de manter o regime
de concessões – a criminosa lei do petróleo de Fernando Henrique – no pré-sal.
Razão, evidentemente, tem o atual presidente da Petrobrás, Sergio Gabrielli:
manter as concessões às multinacionais no pré-sal (uma área onde, inclusive,
inexiste o risco de não achar petróleo) é exatamente o mesmo que privatizá-lo.
Nos trechos que hoje reproduzimos, Biondi aborda a então “nova” lei do
petróleo. Por exemplo: “com base na nova lei, a Petrobrás foi obrigada a
entregar todos os estudos e relatórios de pesquisas que ela fez sobre as
possíveis jazidas de petróleo no Brasil. Estudos e pesquisas de décadas, que
custaram dezenas e dezenas de bilhões de reais à Petrobrás, isto é, ao povo
brasileiro. E que foram entregues à Agência Nacional do Petróleo de graça, com
um único objetivo: serem vendidos às empresas interessadas em participar das
concorrências. O preço cobrado pela Agência? De novo, parece incrível: apenas
300 mil reais por todo o “pacote” de pesquisas que custaram bilhões de reais ao
Brasil. Isso mesmo, 300 mil reais. E tem mais: as empresas que quiserem comprar
os estudos relativos apenas a uma região do país poderão pagar uns 20 mil, 30
mil reais, qualquer trocadinho por eles”.
Estava em curso um processo de privatização da Petrobrás, já esquartejada
em 40 partes, para ser vendida aos pedaços. O depravado Zylbersztajn (que, em
1998, quando tomou posse na Agência Nacional do Petróleo, disse, em seu
discurso, aos representantes das multinacionais: “o petróleo é vosso!”) também
aparece no livro de Biondi - prometendo vender as refinarias da Petrobrás.
C.L.
ALOYSIO BIONDI
A Petrobrás, mesmo em fases de
grave turbulência da economia brasileira, consegue facilmente empréstimos
externos. O governo é que a tem impedido de recorrer a essas fontes para
acelerar a produção de petróleo; portanto, não é por sua culpa que o Brasil não
é auto-suficiente em petróleo até hoje, argumento desonestamente utilizado para
abrir caminho à privatização da Petrobrás na surdina, operação já em andamento
(veja mais à frente).
De tão manipuladas, chegam a ser revoltantes as críticas à Petrobrás e
aos preços da gasolina no Brasil, “os mais altos do mundo”, como berram
erradamente os críticos. Nunca se diz à população que, ao longo dos anos, a
Petrobrás sempre teve direito a uma parcela mínima sobre o preço do litro de
gasolina e de outros produtos, com a maior parcela sendo representada por
impostos, taxas e, em determinados períodos, até por uma fatia para “baratear o
álcool”. Para se ter uma idéia da realidade: em outros países, a margem
(porcentagem) de lucro das distribuidoras é três vezes maior do que a recebida
pela Petrobrás, que se limitava a 9 centavos por litro, quando o litro da
gasolina estava a 59 centavos.
A Petrobrás descobriu na bacia de Campos uma jazida submarina de petróleo
responsável por poços capazes de produzir, cada um, o volume fantástico de 10
mil barris por dia. O campo de Marlim, como é chamado, produz hoje 240 mil
barris de petróleo por dia, ou 20% de toda a produção nacional. Para chegar a
esses resultados fantásticos, a Petrobrás já gastou a quantia também fabulosa de
2,6 bilhões de dólares. Agora, a estatal deseja investir mais dinheiro no campo,
para chegar à produção local de 500 mil barris/dia. Serão mais 2,3 bilhões de
reais, totalizando, portanto, 4,9 bilhões de reais ou, arredondados, 5 bilhões
de reais, aplicados em Marlim. No entanto, depois que a Petrobrás, isto é, o
povo brasileiro, que é seu verdadeiro dono, caminha para gastar 5 bilhões de
reais na região, o governo FHC ordenou que a estatal convide grupos privados
para participar dos “gastos” no projeto – e, é claro, também dos lucros
bilionários que eles proporcionarão.
Quanto os sacrificados “sócios” vão precisar desembolsar? A cifra
espantosamente baixa de 140 milhões de reais. Se forem mesmo 20 “sócios”, como
previsto, cada um aplicará 7 milhões – e ficará sócio de um projeto que terá
custado 5 bilhões de reais à sociedade brasileira. Um negócio escandalosamente
escandaloso. Qual o argumento do governo para adotar essa fórmula? Segundo
o BNDES, em seu boletim Informe BNDES de fevereiro último, o governo cortou o
orçamento da Petrobrás em 1 bilhão de reais em 1999 e, para não prejudicar “as
metas de aumento da produção de petróleo”, era “necessário que parte dos
investimentos inicialmente previstos com recursos da própria Petrobrás fosse
realizado pela iniciativa privada”... Atenção: o fato de os “acionistas”
desembolsarem apenas 140 milhões de reais para participar do projeto não
significa que eles terão uma participação pequena, proporcional ao seu
investimento, nos lucros de Marlim. Não. Eles terão praticamente 30% ou um
terço dos lucros. Por quê? Como assim? O BNDES formou uma espécie de empresa,
chamada Sociedade de Propósito Especial, com um capital de 200 milhões de reais,
dos quais 140 milhões dos tais “sócios” e 60 milhões do próprio BNDES.
Essa empresa foi criada apenas para pedir um empréstimo especial, no
exterior, de 1,3 bilhão de reais, para ser aplicado no campo de Marlim. Quer
dizer: os “sócios” foram chamados somente para tomar dinheiro emprestado – que a
própria Petrobrás conseguiria facilmente no exterior. E com esse dinheiro
emprestado vão aplicar 1,3 bilhão de reais, mais os 140 milhões de seu “capital”
– isto é, o total de 1,44 bilhão, equivalente a menos de um terço dos gastos de
5 bilhões de reais – e ter, portanto, direito àquela participação de 30% nos
lucros. Uma calamidade. A fórmula escolhida para o campo de Marlim, com sócios
“páraquedistas” engolindo lucros de bilhões que seriam da nação, é apenas uma
das operações que o governo vem realizando para privatizar a Petrobrás de forma
silenciosa, sem reação da opinião pública.
O governo FHC fez uma promessa para conseguir que o Congresso Nacional
aprovasse a nova lei que acabou com o monopólio estatal na exploração do
petróleo, em 1997. Assegurou que a Petrobrás não seria privatizada; assim,
outras empresas poderiam procurar e explorar petróleo, bem como participar de
todas as atividades do setor (refino, distribuição etc.) como concorrentes,
mantendo-se a existência da estatal. Graças a manobras dos deputados e senadores
governistas, no entanto, foi aprovado um substitutivo ao projeto original que,
segundo críticas feitas pelos oposicionistas na época, abriu as portas para a
privatização silenciosa da Petrobrás. Como? A nova lei permitiu que todo e
qualquer setor de atividades da Petrobrás possa ser “roubado” da empresa e
vendido a grupos privados. Por exemplo: o governo pode criar uma empresa “nova”
somente para ser dona das refinarias da Petrobrás, ficando portanto com o setor
de refino. E, em seguida, vender a empresa. A mesma coisa poderia ser feita –
nova empresa e venda – para a exploração de gás. Ou para os oleodutos e
gasodutos. Ou para a própria exploração de petróleo. Em resumo: no final de
algum tempo, todas as atividades da Petrobrás já não existiriam. Ela seria uma
empresa existente apenas no papel. Uma empresa “casca de ovo”, como dizem os
especialistas.
Os temores dos críticos, como a Associação dos Engenheiros da Petrobrás,
estão sendo confirmados com o “esvaziamento” da Petrobrás – sem que a opinião
pública perceba:
• DISTRIBUIÇÃO – nessa área, já não havia monopólio, isto é, empresas
privadas como a Shell participam da venda ao consumidor há décadas. Ainda assim,
o ministro das Minas e Energia anunciou recentemente que o governo “talvez”
venda parte dos postos da Petrobrás. Motivo? A Petrobrás Distribuidora é
responsável por um terço do abastecimento de combustíveis do país, posição que
conquistou, frise-se, apesar da concorrência. Isso, diz o governo, seria um
“exagero”. No mundo todo há fusões gigantescas nessa área, ganhando manchetes. E
justamente um ministro de um governo que defende uma política de concentração de
empresas, financiando certos grupos, vem com a justificativa contraditória de
vender parte da Petrobrás Distribuidora para “evitar” seu gigantismo...
• REFINARIAS – o presidente da Agência Nacional de Petróleo, David
Zylbersztajn, também anunciou que “talvez” a Petrobrás venda algumas de suas
refinarias...
Ainda, acredite-se...
Com base na nova lei, o governo FHC já providenciou “parcerias” para a
Petrobrás, isto é, sócios estrangeiros e nacionais que passarão a investir,
junto com a empresa estatal, em pesquisa e exploração de campos de petróleo.
E, para completar, o governo FHC também “tomou” da Petrobrás áreas em que
ela havia descoberto petróleo, ou indícios de petróleo, para entregá-las a
empresas nacionais ou multinacionais, por meio de licitações (concorrências).
Parece incrível, mas é verdade: com base na nova lei, a Petrobrás foi obrigada a
entregar todos os estudos e relatórios de pesquisas que ela fez sobre as
possíveis jazidas de petróleo no Brasil. Estudos e pesquisas de décadas,
que custaram dezenas e dezenas de bilhões de reais à Petrobrás, isto é, ao povo
brasileiro. E que foram entregues à Agência Nacional de Petróleo de graça, com
um único objetivo: serem vendidos às empresas interessadas em participar das
concorrências. O preço cobrado pela Agência? De novo, parece incrível: apenas
300 mil reais por todo o “pacote” de pesquisas que custaram bilhões de reais ao
Brasil. Isso mesmo, 300 mil reais. E tem mais: as empresas que quiserem comprar
os estudos relativos apenas a uma região do país poderão pagar uns 20 mil, 30
mil reais, qualquer trocadinho por eles. Um assalto, literalmente, contra os
contribuintes e cidadãos brasileiros, que pagaram as pesquisas da Petrobrás ao
longo de décadas.
Detalhe final, que retrata o comportamento do governo FHC e seus aliados
no Congresso: há empresas multinacionais que também estudaram o subsolo
brasileiro, na década de 1970, como participantes dos contratos de risco do
governo Geisel. A nova lei, financiando certos grupos, vem com a justificativa
contraditória de vender parte da Petrobrás Distribuidora para “evitar” seu
gigantismo...
GOLPE FINAL
O governo abriu licitações para a
exploração de petróleo em várias áreas do país. As empresas interessadas devem
fazer um “lance”, uma proposta inicial. Qual foi o lance? Quantos milhões?
Quantos bilhões? Ora, por quem sois. As empresas ofereceram de 50 mil a 150 mil
reais pelo petróleo que o governo FHC está leiloando. O Brasil vai se vender por
50 mil reais.
PERGUNTINHA
Se o governo diz que a Petrobrás precisa de mais dinheiro para acelerar
as pesquisas, por que não aumenta o seu capital, vendendo ações a toda a
população – seguindo o exemplo da Inglaterra de Thatcher, ou da Itália, ou da
França? Por que chama meia dúzia de grupos privilegiados para serem sócios em
projetos bilionários em que toda a sociedade investiu?
BNDES
Numa sexta-feira, cinco dias antes do leilão de “privatização” da Cemig,
empresa de energia de Minas Gerais, o presidente Fernando Henrique Cardoso
assinou um decreto revolucionário. Por ele, o BNDES ficou “autorizado” a –
leia-se “recebeu ordens para”– conceder empréstimos também a grupos
estrangeiros.
Reviravolta histórica – e inconcebível. Criado para dar apoio ao
desenvolvimento nacional, o banco estatal se concentrou inicialmente no
financiamento a projetos de infra-estrutura e, posteriormente, como instrumento
de política industrial, recebeu a incumbência de criar condições de competição
para grupos nacionais. Para cumprir esse papel, o BNDES estava proibido por lei
de financiar empresas estrangeiras. O decreto presidencial de 24 de maio de 1997
escancarou os cofres do BNDES às multinacionais, para que comprassem estatais.
Isso ao mesmo tempo que o banco continuava proibido de conceder empréstimos
exatamente às estatais brasileiras, incumbidas dos setores de infra-estrutura e
básicos. Na quarta-feira seguinte, um grupo norte-americano comprou um bloco de
um terço das ações da Cemig por 2 bilhões de reais, com metade desse valor
financiado pelo BNDES. Pois é.
A submissão do governo brasileiro aos interesses de outros países
culminou com esse “arrombamento” do BNDES pelas multinacionais. Mas essa
submissão estava presente no processo de privatizações há muito tempo – sempre
com imensos prejuízos aos interesses do país. Exemplos:
• ENERGIA ELÉTRICA – às vésperas do leilão da Light, o governo brasileiro
cedeu a uma série de pressões dos “compradores” em potencial. Coube a Elena
Landau, diretora de desestatização do BNDES, e posteriormente diretora de um
banco estrangeiro, anunciá-las na linguagem complicada de sempre, para evitar
que a opinião pública se apercebesse da gravidade das decisões.
a) Tarifas – enquanto dizia que as tarifas seriam reduzidas para
beneficiar o consumidor, o governo já havia concordado em reajustá-las todos os
anos, de acordo com a inflação medida pelo IGP-DI (isto é, o governo concedeu
reajustes automáticos, indexou). Prazo previsto para essa indexação durar: cinco
anos. Prazo anunciado por Elena Landau: oito anos. Mais três anos de reajuste
automático.
b) Tecnologia – foi concedida “liberdade” para os compradores adotarem a
tecnologia que bem entendessem. Em bom português, o que isso significava
realmente? Tecnologia é sinônimo de equipamento. Então, o que o governo deu foi
liberdade para a Light e outros futuros “compradores” adotarem tecnologia de
suas matrizes, fornecida, é óbvio, pelas fábricas de seus países de origem.
Essa concessão trouxe a conseqüência previsível: as empresas
“privatizadas” passaram a importar maciçamente equipamentos, peças, componentes.
“Quebraram” a indústria nacional. E “torraram” dólares, contribuindo para a
crise futura do real.
c) Endividamento – outra “liberdade” concedida aos compradores: decidirem
livremente os meios de financiar seus investimentos futuros, isto é, desapareceu
a exigência de que as multinacionais trouxessem capital próprio para aplicar no
país. Elas puderam recorrer a empréstimos no mercado mundial, aumentando o
endividamento e o pagamento de juros pelo Brasil. Outro fator de derrocada do
real.
d) Passa-moleque – finalmente, a senhora Elena Landau foi incumbida de
noticiar, também, que o governo havia abandonado o modelo que sempre divulgara
para a privatização das empresas de energia. Até então, assegurava-se –
inclusive ao Congresso Nacional – que o governo participaria ativamente da
gestão da administração das empresas privatizadas. A reviravolta: o governo
desistia de ser co-gestor, para concentrar-se no papel de fiscalizador do setor.
Autonomia total para as multinacionais agirem de acordo com seus interesses. E
de seus países.
e) Quem manda no país – com as privatizações, o governo poderia até
extinguir o Ministério da Energia, pois ele perdeu qualquer função. Como assim?
Também inacreditavelmente, toda a política energética do Brasil passou a ser
decidida por uma espécie de “condomínio”, como diz o governo, formado pelas
empresas de energia agora privatizadas, ou “operadoras”... Seu nome? Operador do
Sistema Nacional – OSN. Um “condomínio” que, ao contrário do que os brasileiros
pensam, não ficou responsável apenas pelo sistema de transmissão de energia, e
do qual a opinião pública veio a tomar conhecimento por causa do “apagão” de
março de 1999. Seus poderes são totais: o “condomínio” de operadoras substituiu
o governo e passou a decidir onde, quando e como devem ser construídas usinas,
quais as regiões prioritárias etc. O problema de tarifas e qualidade de serviços
ficou com a Agência de Energia Elétrica, do governo. O resto, com a OSN, das
operadoras. Para que Ministério? O governo não manda mais nada mesmo. Nem
governa mais.
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