Vídeo do SBT registra bolinha de papel e
encenação de Serra
Na hora em que o montículo de papel o tocou ele nem ligou. Depois pôs a mão
no lugar errado
Apesar
de ser uma presepada, é difícil rir da história de Serra, de que teria sido
“agredido” quando fazia uma caminhada no calçadão do bairro de Campo Grande,
no Rio de Janeiro. Sabe por que, leitor? Parece coisa dos nazistas, que
perpetravam agressões para atribuí-las a quem queriam agredir. Certamente,
Serra, apesar das pretensões, não consegue ser nem um sub-führerzinho de
meia-tigela – e uma bolota de papel na careca não é o incêndio do Reichstag.
Devido a essa mediocridade, a comparação que veio à mente da maioria das
pessoas foi com o goleiro chileno Rojas, o espetaculoso mártir do Maracanã,
vítima trágica de um foguete que nunca o atingiu.
As pessoas estão certas de assim pensar, mas, no caso de Serra, o cheiro de
fascismo basta para estragar o humor.
Serra apareceu em Campo Grande para uma caminhada pré-fabricada, em que
levou até os apoiadores - um batalhão de guarda-costas e leões de chácara,
engordado pelos rufiões do PSDB local, chefiados por um certo Júnior, filho
de uma expoente tucana da região.
Parece que a ideia da caminhada foi do Índio, que deve ter aproveitado uma
visita ao seu sogro, Salvatore Cacciola, na penitenciária de Bangu, bairro
vizinho, para fazer campanha em Campo Grande. Assim, economizaria uma viagem
a Campo Grande, que para ele deve parecer um lugar tão remoto quanto a
Cochinchina. O Índio, como se sabe, é um gênio.
Além do eleitorado, que para Serra é sempre um problema, perto do local da
caminhada está o sindicato dos mata-mosquitos – aqueles que Serra demitiu
quando ministro da Saúde, jogando o país nos tentáculos da dengue. A
demissão em massa dos mata-mosquitos (cinco mil, praticamente toda a
categoria) foi um desastre para a Saúde Pública e para os profissionais -
desempregados, passando fome, houve cinco deles que se suicidaram. A
situação somente foi resolvida pelo governo Lula, que os readmitiu.
Logo, com Serra quase na porta do seu sindicato, os mata-mosquitos – não
porque sejam petistas ou dilmistas, mas porque não querem passar pelo mesmo
transe outra vez - resolveram se manifestar contra o seu algoz . No que,
aliás, estavam em seu pleno direito democrático.
A maioria dos mata-mosquitos não havia chegado ainda quando a hoste de
desordeiros que cercava Serra avançou para os que lá estavam, rasgando os
cartazes que carregavam. Um deles, uma cartolina branca onde estava escrito,
à mão, “Serra, quem é Paulo Preto?”, foi o primeiro a ser rasgado. A
pergunta não está entre aquelas que Serra gosta de responder.
Obviamente, o pau comeu. E não poderia ser de outro jeito. Por que os
mata-mosquitos, que, por profissão, são inimigos do insetos – portanto, não
têm sangue de barata – não iriam se defender? E a verdade é que, apesar da
maior parte dos mata-mosquitos só haver chegado depois, a côrte de
baderneiros serristas deu-se mal.
Serra estava longe da confusão. Não correu risco algum. Mesmo assim, fugiu
para dentro de uma loja. Quando saiu, sua careca foi atingida na parte de
trás por uma pequena bola de papel, lançada de perto - provavelmente por
algum passante que não conseguiu resistir a semelhante alvo, pois Serra
continuava longe dos mata-mosquitos.
Foi algo tão leve que, como se pode ver no vídeo gravado pelo SBT, Serra
ignorou o tremendo petardo – com massa de 5,61 gramas, segundo os abalizados
cálculos de Luiz Nassif – como se ele não existisse. Nem alisou a careca.
Simplesmente, continuou andando, sem nenhuma alteração nem mesmo na
fisionomia.
Em seguida, Serra entrou numa van, onde permaneceu cerca de 20 minutos. Ao
sair, atendeu ao celular, e, logo depois de desligá-lo, colocou a mão na
parte dianteira da careca, como se pode ver nas fotografias.
Entretanto, nada havia atingido a parte da frente da careca de Serra. A
bolinha de papel atingiu a traseira da sua careca, e isso foi mais
de vinte minutos antes que colocasse a mão na dianteira da careca,
encenando uma suposta agressão. Então, foi levado outra vez para dentro da
van e, logo após, retirado de helicóptero.
Serra não quis fazer exame de corpo de delito para comprovar a agressão. O
médico que o atendeu, Jacob Kligerman, declarou que não houve corte nem
contusão. Aliás, Serra, em vez de um neurologista, escolheu um
cancerologista especializado em cirurgias de cabeça e pescoço para se
consultar. De onde se conclui que não estava muito preocupado com danos
cerebrais provocados por causas externas...
Mas, dizendo-se com náuseas, Serra foi fazer uma tomografia computadorizada
– um exame completamente estapafúrdio, e desproporcionalmente caro, para
quem levou uma bolinha de papel no cocuruto. Naturalmente, o exame não
registrou nada, já que ele não tinha nada.
O mesmo não se pode dizer daqueles que foram agredidos pelos capangas de
Serra. Vários saíram feridos. Um deles, Carlos Calixto, teve o supercílio
rasgado. Mas o exército de rufiões bateu em retirada logo em seguida.
Horas depois, Serra estava na TV dizendo que o incidente fora “premeditado”.
Da mesma forma que na última grande pane do Metrô de São Paulo, que
prejudicou 150 mil pessoas no dia 21 de setembro, ele disse que “me pareceu
algo provocado”. Se um raio tivesse partido o Índio pela metade, ele também
diria que foi algo “com interesses eleitorais”.
Por sinal, o show maior foi do silvícola. Disse o Índio que “eu estava do
lado do Serra, abraçado com ele, quando veio aquele pacote enorme. Bateu na
cabeça dele e fez até barulho. Um negócio pesado. Devia ter uns dois
quilos”.
Serra escolheu um mentiroso quase à sua altura para vice. Abraçado com o
Serra durante uma caminhada? Hum... Pacote de dois quilos na cabeça? Caramba!
Só pode ter sido algum meteoro, certamente um castigo divino para os
vendilhões da Pátria, vindo diretamente do céu. Mas com má pontaria: na
careca do Serra é que ele não bateu.
Com essa malta, nem quando a gente quer fazer um artigo sério, escapa-se da
galhofa.
CARLOS LOPES