Em desespero, Serra apela para a
difamação e o golpe
Sem voto, sem apoio e sem audiência
Serra sabe perfeitamente que Dilma nada tem a ver com qualquer que bra de
sigilo, nem o de sua filha, nem o de ninguém. Sabe que Dilma não faria isso
– e não permitiria que isso fosse usado em sua campanha eleitoral.
Mas é exatamente da dignidade de Dilma que ele acha que pode se aproveitar –
em suma, confunde a dignidade que não se rebaixa ao seu nível com fraqueza.
Ele acha, realmente, que pode agredi-la, difamá-la – e, agora, berrar por um
golpe de Estado, com um pedido de impugnação da candidatura de Dilma ao TSE
sem que haja motivo algum ou prova - e sair impune e por cima.
Serra não poderia estar mais enganado. Alguns já experimentaram provocar o
povo. Aprenderam, rapidamente, como já se disse, que a fúria dos mansos é
terrível. Se Serra quer cometer harakiri político, não há melhor caminho.
Vai ser muito pior para ele do que já está sendo.
Mas, nada como o desespero para tornar nítida a personalidade de um
sociopata.
Para que quebrar o sigilo da filha de Serra? É sabido que ela era sócia da
irmã de Daniel Dantas numa empresa fora do país, que mentiu ao dizer que
nunca tivera contato com essa sócia - há uma gravação, feita na Operação
Satiagraha, de um diálogo telefônico entre as duas -, que a mansão onde mora
o próprio Serra está registrada no nome dela, que esteve envolvida com
fundos americanos, que “semeou” uma rede de empresas off-shore em paraísos
fiscais do Caribe, e que dá festas para centenas de pessoas em sua própria
mansão, aparecendo frequentemente, com o marido, Alexandre Bourgeois (que
nome!), nas colunas sociais. Se a campanha de Dilma quisesse expor a filha
de Serra, não precisaria de mais nada – e nada disso foi obtido por meios
ilegais.
Porém, a maior prova de que esse acesso à declaração de renda da filha de
Serra nada tem a ver com a campanha de Dilma é a própria Dilma, seu
comportamento durante toda a vida – e desde o início da campanha, onde
jamais houve qualquer exploração, mesmo do que já é sabido há muito.
O acesso ilegal à declaração de renda da filha de Serra foi em setembro de
2009. O despachante que fez o pedido de cópia de declaração na Receita, além
de eleitor de Serra, tem um perfil bem tucano (ver matéria nesta página). De
petista ou dilmista ou lulista, o sujeito não tem nem cacoete. Além disso,
as outras quebras de sigilo incluíram até a Ana Maria Braga e os donos das
Casas Bahia. Nenhum deles concorre a cargo político algum. E o fato é que,
em um ano, mesmo quando Serra estava à frente nas pesquisas, nenhum dado das
declarações, acessadas no escritório da Receita em Mauá, foi divulgado.
Tudo muito estranho – mas cabe à PF deslindar esse nó. Talvez chegue mesmo a
uma quadrilha banal, talvez a algum desafeto tucano de Serra – pois, além
destes abundarem, tais métodos são próprios desse meio sujo. Serra somente
soube que a declaração da filha foi acessada porque a Receita, isto é, o
governo, divulgou que isso acontecera.
O resto é palhaçada – e golpismo.
Todo mundo sabe quem, na política brasileira, é useiro e vezeiro no uso de
“dossiês”, de informações obtidas ilicitamente, com total falta de
escrúpulo. O moderado senador – e ex-presidente – Sarney expôs, sob esse
ângulo, o caráter de Serra, e o fez da tribuna do Senado, para quem quisesse
ouvir. Serra, frisou Sarney, organizou uma equipe para confeccionar dossiês
contra adversários políticos. Inclusive dentro do PSDB – se o ex-ministro
Paulo Renato prefere hoje bajular Serra, nem por isso todos esqueceram que
sua passagem pelo Banco Mundial foi esquadrinhada por um dos dossiês de
Serra. Na época, Paulo Renato concorria, contra Serra, à indicação de
candidato do PSDB ao Planalto.
Porém, há 22 anos, muito antes de Sarney fazer o seu pronunciamento, o hoje
ministro aposentado Flávio Bierrenbach, do Superior Tribunal Militar, um
homem que nada tem contra o PSDB em geral – foi nomeado para o STM por
Fernando Henrique – e amigo durante muitos anos de Serra, resumiu, em pleno
programa eleitoral na TV: “Serra entrou pobre na Secretaria de
Planejamento do Governo Montoro e saiu rico. Ele usa o poder de forma cruel,
corrupta e prepotente. Poucos o conhecem. Engana muita gente. Prejudicou a
muitos dos seus companheiros. Uma ambição sem limite. Uma sede de poder sem
nenhum freio”.
Nunca isso ficou tão claro quanto nos últimos dias, com essa presepada sobre
quebras de sigilo – sem que o conteúdo da quebra aparecesse em lugar algum –
e com esse pedido, meramente golpista, ao TSE para impugnar a candidatura de
Dilma.
A propósito, Serra processou Bierrenbach pela declaração que transcrevemos,
mas desistiu do processo quando Bierrenbach obteve na Justiça o direito
de provar o que havia dito. O juiz do caso foi outro homem que nada tem
contra o PSDB em geral, o hoje desembargador aposentado Walter Maierovitch –
que foi titular da Secretaria Nacional Anti-drogas durante o governo
Fernando Henrique.
Portanto, nada há de novo na performance atual de Serra, exceto que, agora,
é para todo o Brasil que ele está exibindo a tomografia do seu caráter, que
não se conforma em perder, que não se conforma com a vontade dos eleitores,
que, em sua ambição, em sua sede de poder sem nenhum freio, berra por um
golpe de Estado – tão covarde a ponto de pedir ao TSE que o faça para ele.
Dilma tem toda razão ao apontar a leviandade, e mais razão ainda quando diz
que Serra e caterva “são vazadores contumazes ou pessoas que não têm ética
suficiente para lidar com a coisa pública”.
Sem voto, sem audiência, sem apoio até no seu partido, Serra passou à
agressão difamatória contra Dilma. Como seria de esperar, atira sobre a
candidata preferida pelo povo aquela lama em que há tanto tempo se arrasta.
Nós havíamos dito - oito anos atrás - que Serra era um fracassado
mussolinizinho, um desses sujeitos frustrados, medíocres e megalomaníacos
que atravessam da esquerda para a direita, secretando uma baba profusa de
ressentimento e ódio. Em suma, um golpista consumado, querendo submeter a
tudo e a todos, tanto quanto se submete aos seus patrões externos, aos
interesses antinacionais e antipopulares, querendo aboletar-se no poder
contra a vontade do povo. Embora, é forçoso concordar com o deputado Brizola
Neto: quem nasceu para Serra não chega a Lacerda – este outro falsário e
golpista que teve um triste fim.
CARLOS LOPES