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dominação cultural como instrumento de espoliação
Ouvia-se muito, nas décadas de
80 e 90, e ainda ouve-se, hoje, frases como: “É anacrônico falar que certa
política é entreguista. O que tem de mais existirem empresas estrangeiras
atuando em um setor?”, “Nacionalismo é coisa de autoritário” etc. Estas frases
causam grande repulsa por configurarem a intenção de enganar o ouvinte para
permitir a dominação. Sobre tantos chavões, pode-se dizer, resumidamente, que o
fluxo de caixa de longo prazo de uma empresa estrangeira atuando no país terá
sempre mais recursos saindo do país do que entrando, pela simples razão que, se
assim não fosse, ela não teria entrado no país. Em outro comentário, cuidar dos
nacionais, os que aqui estão, é o lógico, natural e exatamente o que é feito nos
países desenvolvidos, não havendo nada de autoritário no fato
PAULO METRI*
No processo de dominação cultural
de uma sociedade, muitos de seus membros tomam ações que não a favorecem, sem
consciência do dano que elas causam. Tomam-nas por cópia de padrão corriqueiro
vindo do passado ou influência proposital de terceiros, que são conscientes do
dano. A busca por influenciar o pensamento da sociedade é quase como uma guerra
de propaganda e muitos estratagemas são utilizados. Desta dominação, o
usufrutuário pode ficar com a melhor parte do comércio internacional ou ter
acesso a recursos minerais estratégicos e escassos ou receber polpudos royalties
por trabalhos intelectuais etc. Portanto, está-se falando de algo de valor que
influencia enormemente o bem-estar da população de um país. A partir deste
ponto, vão ser descritas várias situações em que esta dominação está presente.
Observem o pensamento bastante elaborado que os países do mundo não devem
competir em todos os produtos comercializados mundialmente, passando-se a evitar
taxações protecionistas e subsídios, de forma que cada um ganhe somente os
mercados daqueles produtos para os quais tem “vocação natural”, ou seja, aqueles
produtos para os quais possui vantagens comparativas. E vão além, dizendo que,
desta forma, todos países saem ganhando, pois todos os produtos estarão sendo
ofertados para todos por quem os pode produzir pelos menores preços.
Uma tese do pensamento acadêmico, dentro da Teoria dos Jogos, foi
providenciada para embasar o raciocínio anterior e, ainda mais, uma premiação do
Nobel, hoje já bastante desgastada, foi entregue ao seu autor por respaldar
brilhantemente o pensamento, sem se ater ao fato que ele é correto dentro de
limites. Este posicionamento reproduz, para todo o sempre, o instante de início
de aplicação da tese. Fica vedado a qualquer sociedade, que busca crescer, a
possibilidade de migrar para produtos com maior conteúdo tecnológico, para poder
ter maior usufruto do comércio mundial, ou seja, países ficam proibidos de
adquirir “vocações”. Certamente, a teoria citada tinha beneficiários poderosos e
vingou exatamente por ir ao encontro de seus interesses. Notar que esta tese só
é válida para os subdesenvolvidos, pois a produção de algodão dos Estados Unidos
recebe subsídios e este país ficou indignado pelo Brasil, que tem produção de
algodão mais barata, portanto, com vocação para produzi-lo, ter levado o caso
para a Organização Mundial do Comércio.
As teses neoliberais e da globalização de interesse dos países centrais,
aquela globalização financeira e dos mercados, mas que não inclui a globalização
do mercado de mão de obra, eram dogmas irrefutáveis, difíceis de serem
contestados nos anos 80 e 90. A grande mídia, empresas de marketing, políticos
vendidos para o capital e prepostos remunerados do mesmo formavam a tropa de
choque do neoliberalismo, acarretando dominação garantida dos países
subdesenvolvidos, de população pouco politizada e, na maioria das vezes, ricos
em recursos naturais.
O neoliberalismo e a globalização de interesse dos desenvolvidos podem
ser vistos como instrumentos de dominação, e eles trazem como consequência maior
presença do capital estrangeiro na economia do país, grande número de empresas
nacionais sendo vendidas ou falindo, menos proteção do país em virtude da
desregulamentação providenciada, a existência de legislação protetora dos
interesses das empresas estrangeiras, agências reguladoras criadas na
administração do país dominado para garantir os negócios para as empresas
estrangeiras, liberdade total de entrada e saída de dinheiro do país, a não
submissão das empresas estrangeiras aos Tribunais de Justiça do país, indo
qualquer discussão sobre a interpretação dos contratos para as arbitragens
internacionais, mesmo sendo uma disputa com o Estado etc.
Ouvia-se muito, nas décadas de 80 e 90, e ainda ouve-se, hoje, em
diversos lugares, frases como: “É anacrônico falar que certa política é
entreguista. O que tem de mais existirem empresas estrangeiras atuando em um
setor?”, “Nacionalismo é coisa de autoritário”, “As redes sociais no mundo de
hoje integram as sociedades e passou a ser antiquado ser nacionalista” etc.
Estas frases causam grande repulsa por configurarem a intenção de enganar o
ouvinte para permitir a dominação. Sobre tantos chavões, pode-se dizer,
resumidamente, que o fluxo de caixa de longo prazo de uma empresa estrangeira
atuando no país terá sempre mais recursos saindo do país do que entrando, pela
simples razão que, se assim não fosse, ela não teria entrado no país. Em outro
comentário, cuidar dos nacionais, os que aqui estão, é o lógico, natural e
exatamente o que é feito nos países desenvolvidos, não havendo nada de
autoritário no fato. O argumento usado exaustivamente que determinado conceito é
anacrônico, quando o certo seria exatamente o oposto, que é o moderno, não é um
raciocínio lógico. Procura-se unicamente conquistar os mais jovens, que buscam
sempre a reforma, até como uma forma de auto-afirmação. Por isso, o
neoliberalismo foi aceito por muitos como o moderno e o bom, quando provou ser o
atraso e o ruim.
Contrapondo-se a esta dominação comprometedora, deve-se destruir a
regulamentação benéfica ao capital internacional, comum para todos os países
subdesenvolvidos, implantada por imposição do mesmo e ampliada durante a onda
neoliberal, que varreu o mundo nas citadas décadas, além de criar barreiras
protecionistas para todas indústrias nascentes etc. O conjunto de
regulamentações neoliberais e da globalização prejudicial trouxe danos aos
Estados subservientes ao capital externo, principalmente danos ao
desenvolvimento, com reflexo na qualidade de vida das suas populações. Decisões
soberanas e benéficas para a sociedade do país têm sido implantadas em países
como China e Índia, e não é por outra razão que as taxas de crescimento deles
têm sido altas. No Brasil, hoje, apesar do furor neoliberal ter diminuído de
intensidade, ainda há muito entulho do pensamento neoliberal em diversas leis e
instâncias do nosso poder.
Assim como a história conhecida é aquela contada pelos vencedores das
batalhas, pode-se dizer que modelos de economia mais difundidos são aqueles
formulados pelos vitoriosos da guerra econômica. Por exemplo, o caso atual dos
países menos desenvolvidos da Europa é bastante contundente, pois banqueiros vão
lucrar muito com a crise, enquanto, à população destes países, restará aumento
de impostos, diminuição dos salários e dos gastos sociais, desemprego, falência
de empresas nacionais, entrada do capital externo comprando ativos do país
avaliados por baixo, visando remessas futuras de lucros para as matrizes etc.
Isto, que é pouco divulgado desta forma, é chamado de “ajuste”. A nossa
economia é muito importante para ser cuidada por economistas sem visão crítica
da realidade, retidão de princípios e conteúdo de nacionalidade. Assim como
qualquer pessoa só entrega sua saúde a um médico que lhe inspira confiança, a
saúde coletiva não pode ser entregue para qualquer economista compromissado com
interesses diferentes dos da sociedade.
Algumas escolas de economia do mundo subdesenvolvido reproduzem o modelo
do capital, sem terem a preocupação de atender a sociedade, pois o projeto do
capital internacional é vencedor em quase o mundo todo, tendo mídia, propaganda,
marketing político e até exércitos a seu favor. Além disso, há pouco sucesso de
políticas econômicas revolucionárias que vençam déficits sociais em países
subdesenvolvidos, a menos de exceções com algum sucesso, como é o caso do Brasil
atual. Arrazoados econômicos libertadores voltados aos países subdesenvolvidos
existem, mas os interesses dos desenvolvidos aliados aos de oligarquias
regionais não os deixam sair das folhas dos livros. E as escolas de economia dos
subdesenvolvidos, que poderiam ser o lócus da denúncia, mantêm-se, salvo
exceções, com discordâncias insipientes, quando não pregam o neoliberalismo. Na
verdade, devia-se deixar claro que, sem uma estratégia nacionalista, o
desenvolvimento dos retardatários do sistema mundial não ocorrerá. Obviamente, o
ensino de economia que carregasse muita bagagem de história seria proveitoso,
mas tem pouco espaço, em um mundo em que grupos econômicos e políticos fortes
boicotam a divulgação de experiências, sorrateiramente. A própria economia é uma
arma de dominação.
Não se está contestando deduções lógicas de teses da teoria econômica
existente. São contestadas as aplicações, muitas vezes, incorretas das teses.
Por exemplo, uma premissa é mencionada no início do estabelecimento de uma tese
econômica e, depois, ela é totalmente esquecida à medida que a tese é repetida
para o cidadão comum. Assim, a tese passa a ser verdadeira para qualquer
situação, ou seja, abandona-se a sua premissa fundadora. Especificando com um
exemplo, diz-se frequentemente que, em um mercado de competição perfeita, a
competição é benéfica para a sociedade por acarretar produtos e serviços pelo
mínimo preço. Depois, passa-se, rapidamente e de forma simplificada, a dizer
para a sociedade que a competição é boa para ela, sem se especificar em que
situação. Esquece-se de dizer que o mais comum, em qualquer país, são os
mercados serem imperfeitos.
Sob a ótica pobre de regulação de mercados, é considerado um fator
positivo trazer produtos e serviços estrangeiros para competir com produtos e
serviços genuinamente nacionais, dentro do princípio que a competição é benéfica
para a sociedade, sem se olhar para nenhum dos atendimentos de objetivos
adicionais satisfeitos pelos nacionais e não atingidos pelos estrangeiros.
No entanto, há cerca de dez anos, o órgão responsável por garantir a
concorrência nos Estados Unidos aprovou a fusão de determinada área das empresas
americanas General Electric e Honeywell, apesar da grande concentração de
mercado que a fusão acarretava. Não existia outra empresa americana fabricando o
mesmo produto, tendo pesado na decisão a criação, com a fusão, de uma empresa
americana de maior porte com mais capacidade de competir mundialmente. O órgão
regulador de mercado da Comissão Européia não aprovou esta fusão, significando
que a nova empresa não poderia vender seus produtos no mercado europeu, pela
razão justa que houve concentração de mercado. A Europa possuía uma empresa que
fabricava o mesmo produto. Para o governo americano, ter sua empresa forte no
mercado mundial era o maior objetivo. Para não haver abuso de poder de mercado,
internamente, iriam usar outros mecanismos, como controle de preços.
O triste é que órgãos do setor público no Brasil fazem seus concursos
para entrada de novos funcionários de forma que a visão errada da economia, de
interesse social duvidoso, deve ser respondida pelo candidato como a resposta
certa. Isto é consequência de dominação cultural, graças ao interesse de grupos
econômicos estrangeiros e à interferência da oligarquia nacional que também é
controladora da sociedade. Então, foram e estão sendo criados nichos neoliberais
no setor público.
A linha de raciocínios que fundamentou a reforma do Estado, nos anos 90,
era que ele tinha esgotado sua capacidade de investimento em infra-estrutura,
era mau administrador de empresas, era refém dos servidores públicos, graças ao
corporativismo, deveria exercer somente as “funções típicas de Estado” etc. Para
solucionar estes “problemas”, como eram chamados à época, foi privatizado um
número considerável de empresas estatais, muitas a preços irrisórios, e foram
criadas as agências reguladoras setoriais, que deveriam controlar as relações
econômicas nestes setores, agora tomados por empresas privadas, protegendo
sempre o consumidor.
Mas, hoje, existe um problema grave que precisa ser enfrentado e, para
resolvê-lo, precisa existir coragem para a tomada de decisões. Trata-se das
agências reguladoras estarem, como era esperado, não satisfazendo aos interesses
superiores da sociedade brasileira. Na verdade, elas foram criadas para
garantirem os interesses do capital internacional no Brasil, após a compra das
empresas estatais. Assim, as agências, este instrumento de dominação do capital
está visivelmente defendendo os interesses dos seus patrões, em detrimento de
defender a sociedade.
O esquecimento dos dirigentes das agências com relação a quem eles devem
servir chega a ser revoltante. Como é possível a Agência Nacional de Energia
Elétrica (ANEEL) permitir o cálculo da tarifa elétrica errada durante tantos
anos, prejudicando o consumidor? Como explicar o Brasil ter uma das mais altas
tarifas de telefonia, com o beneplácito da Agência Nacional de Telecomunicações
(ANATEL)? Em que país do mundo, com exceção do Brasil, um funcionário da
Halliburton sairia de seu emprego, diretamente, para ser diretor da Agência
Nacional do Petróleo (ANP), que cuida exatamente de contratos em que a
Halliburton está envolvida? A falta de inibição desta Agência é tamanha que,
querendo aumentar a velocidade de entrega de blocos do nosso território para
empresas estrangeiras explorarem e produzirem petróleo, ela decidiu, na oitava
rodada, tolher a apresentação de ofertas pela Petrobrás para sobrar mais blocos
para as estrangeiras.
A prática corrente em alguns setores é os diretores das respectivas
agências serem nomeados a partir de indicações dos agentes econômicos do setor,
ou seja, de forma acadêmica, as agências foram capturadas pelos agentes
regulados. Só em uma sociedade completamente desprotegida, como a brasileira,
com baixo grau de politização, com meios de comunicação não formadores de
cidadãos conscientes, podem acontecer verdadeiras agressões aos cidadãos comuns
como estas. É interessante que as agências reguladoras ao não cumprirem seu
mínimo papel para com a sociedade estão conscientizando-a de como foram ruins as
privatizações ocorridas.
A lei 9.478 de 1997, que quebrou o monopólio estatal do petróleo,
permitiu a retirada do petróleo nacional por empresas estrangeiras sem grande
usufruto da sociedade brasileira, estabeleceu a possibilidade de entrega do
território nacional para estrangeiros, criou a agência reguladora ANP, também
dita as diretrizes de uma política energética para o país. É incrível que, nesta
política, há a preocupação de se satisfazer os consumidores e nada é dito a
favor dos cidadãos, que engloba também os ainda numerosos miseráveis,
consumidores de quase nada.
Na reforma da nossa Constituição, tiraram o artigo que privilegiava a
empresa nacional de capital nacional nas compras do Estado. Nas privatizações
que ocorreram na França, qualquer grupo francês, que concorresse a uma
privatização, já saía em posição vantajosa quando comparado com as empresas
estrangeiras que disputavam a mesma privatização.
Propositadamente, ouve-se muito “monopólio é o pior dos mundos” sem se
especificar sobre que tipo de monopólio se está falando. O monopólio estatal
socialmente controlado é muito benéfico para a sociedade, enquanto o monopólio
privado é, verdadeiramente, o pior dos mundos.
É triste ver alguém ser manipulado. Em um noticiário de um canal de
televisão, se falava de desemprego. Não se falou, em momento algum, que o modelo
econômico atual não privilegia o pleno emprego. Pelo contrário, o apresentador
disse que “as pessoas devem buscar ter habilidades especiais e conhecimentos
adicionais para poderem garantir seus empregos”. Logo depois, entrevistaram um
cidadão que, combinado ou não com a TV, disse, de forma muito convicta, que “ia
fazer todos os cursos que pudesse para poder conseguir emprego”. O pobre
manipulado, na sua total ignorância, acha que ele próprio é o culpado por estar
desempregado. Chega a ser desumano levar uma pessoa, que sofre, a pensar que é a
causadora do próprio sofrimento. Qualquer hora, ele estará pedindo desculpas por
estar desempregado, mas, dirá que se esforçará ao máximo, fazendo cursos e tudo
mais, de forma a melhorar seu currículo, para poder conseguir um emprego.
As pessoas precisam entender que isto não tem que ser assim. Todo cidadão
tem o direito a um emprego. O Estado tem o dever de providenciá-lo. Se ele
estudar, o que será bom para ele, facilitará a obtenção de um emprego. Mas,
mesmo sem estudo, a economia deve estar gerando empregos para todos. No laissez
faire da economia do nosso país do período liberal, “espertos” retinham a mais
valia dos operários na época de grandes lucros. Na época da recessão,
houve cortes frenéticos de pessoal para reduzir o custo de mão-de-obra. O drama
de cada operário demitido não é considerado. O salário “economizado”
correspondente a um mês de um empregado demitido pode ser gasto na compra de uma
bolsa Louis Vuitton da executiva da empresa. O salário e a bolsa trazem
felicidades nas duas pessoas bem diferentes.
Pior que a dominação imposta pelo mais forte, que se luta para não
aceitá-la, é a irracional entrega voluntária feita pelos nossos pares,
reproduzindo razões que não são relevantes para a sociedade. E não se está
falando da entrega consciente dos bandidos.
* Conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros
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