Empresa de Verônicas Serra e Dantas
violou sigilos em 2001
A “Decidir.com” abriu os dados de 60 milhões de brasileiros durante 20 dias
Quando
acusou Dilma, sem nenhuma
prova, de quebrar o
sigilo de sua filha, Serra sabia perfeitamente que aquela que descreveu como
uma esforçada heroína do trabalho, sustentando a prole a duras penas, era
culpada pela maior quebra de sigilo que já houve no país.
A matéria “Sinais trocados”, de Leandro Fortes, na Carta Capital desta
semana, lança luz sobre esse submundo. Verônica Serra era sócia de Verônica
Dantas, irmã e biombo de Daniel Dantas, numa empresa de nome “Decidir.com”,
registrada em Miami (cf. HP, 24/09/2002). Fortes relata que:
“[Em janeiro de 2001], por cerca de 20 dias, os dados de quase 60 milhões
de correntistas brasileiros haviam ficado expostos à visitação pública na
internet. (…) graças ao passe livre da Decidir.com, era possível a qualquer
um acessar não só os dados bancários de todos os brasileiros com conta
corrente ativa, mas também o Cadastro de Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF),
a chamada ‘lista negra’ do BC” (grifo nosso).
Como a “Decidir.com” obteve esse “passe livre”?
“... a empresa das duas Verônicas conseguiu acesso aos dados (…) a partir
de um convênio com o Banco do Brasil, sob a presidência do tucano Paolo
Zaghen”.
AUTORIDADE
Qual a autoridade dos sócios da “Decidir.com” para obterem, através do BB,
um cadastro sigiloso do Banco Central que não é fornecido nem à Serasa - que
verifica a inadimplência e outras informações a partir de dados fornecidos
por cada banco?
Mas o crime era claro e de dimensões colossais: “o uso do CCF do Banco
Central é disciplinado pela Resolução 1.682 do Conselho Monetário Nacional,
que proíbe divulgação de dados a terceiros. A divulgação das informações
também é caracterizada como quebra de sigilo bancário pela Lei nÚ 4.595”.
O escândalo estourou em janeiro de 2001, quando a “Folha de S. Paulo”,
jornal de que Serra foi editorialista, omitiu os nomes de Verônica S. e
Verônica D., facilmente legíveis no site da “Decidir.com”, e, com base nessa
quebra de sigilo, acusou deputados de passar cheques sem fundos (cf. FSP
30/01/2001 e FSP 31/01/2001 – matérias assinadas por Wladimir Gramacho).
A “Decidir.com” tinha como principal “investidor” nos EUA (segundo Verônica
S.) um fundo do Citibank, o CVC (Citibank Venture Capital), pai do notório
CVC Opportunity, este com sede nas Cayman, operado oficialmente pelo biombo
de Dantas e sócia de Verônica S. - a senhora Verônica D.
Naturalmente, a “Decidir.com” só poderia ser viável no Brasil, no
ultra-lucrativo ramo de “checagem de crédito, verificação de identidade e
processamento de pagamentos”, se tirasse do caminho a empresa que faz esse
serviço no país, a Serasa. Para o Citibank, Dantas e Serra, um grande
negócio.
Mas a Serasa, em 2001, pertencia aos bancos brasileiros, alguns com voz de
mando na “Folha”. Assim, as matérias da “Folha”, além de esconder Serra e
Dantas, foram sob medida para enfurecer parlamentares – e alguns tucanos,
inclusive Fernando Henrique e dois de seus ministros, Pedro Parente e
Aloysio Nunes Ferreira, que tiveram o sigilo quebrado pela “Folha” através
do site da “Decidir.com”.
Isso mandou para o espaço a “Decidir.com”, que fechou no Brasil poucos meses
depois da reação dos deputados – com processos e um pedido de explicações do
presidente da Câmara, Michel Temer, ao presidente do BC, Armínio Fraga. A
“Folha”, então, decretou o abafamento completo – há nove anos ela não
publica uma linha sobre o assunto. Agora, que a extensão do escândalo
apareceu, ignorou a matéria de Leandro Fortes, preferindo os escândalos
pré-fabricados de Serra, que, mesmo pré-fabricados, são microscópicos perto
deste escândalo real.
Dantas e Serra (pode ser, é até provável, que a ideia tenha sido do
primeiro, com a colaboração do segundo), tudo indica, armaram uma operação
com o Citibank, usando o Banco do Brasil e o Banco Central, para substituir
a Serasa, que pertencia aos bancos internos. Sem isso, o negócio da
“Decidir.com” não teria sentido algum.
Que autoridade tinha Verônica Serra para uma operação desse porte,
envolvendo o Banco do Brasil – e um cadastro sigiloso do Banco Central? A de
ser filha de quem é – como, aliás, em todos os seus intrincados negócios.
Por pouco não temos um “serasa” nas mãos de Dantas e de Serra. Mas, depois
disso, o sistema financeiro externo preferiu comprar a Serasa – adquirida em
2007 pelo grupo Experian.
Apesar do crime, e do pedido da própria Câmara, ninguém tomou providência
alguma. Nem o BC - que teve um cadastro sigiloso roubado, mas que era
chefiado pelo tucano Armínio Fraga; nem a PF - que tinha como diretor o
tucano Agílio Monteiro Filho; muito menos Fernando Henrique, que teve o
sigilo quebrado. Não foi porque desconhecessem o crime – mas porque
conheciam os criminosos. Mas o presidente do BB que forneceu o cadastro do
BC à “Decidir.com” foi demitido abruptamente um mês e meio depois - por
Fernando Henrique.
O outro negócio da “Decidir.com”, como noticiamos em 2002, era definido
alegremente em seu site: “encontre em nossa base de licitações a
oportunidade certa para se tornar um fornecedor do Estado”.
A filha de Serra, ministro da área em que, então, as licitações eram mais
numerosas (Saúde) estava associada à irmã de Dantas para oferecer
“oportunidades” em licitações a quem quisesse ser “fornecedor do Estado”.
Serra hoje acusa familiares de autoridades por suposto lobby. Mas nenhum
desses acusados chegou nem perto da desinibição de sua filha. Mas o que
fazia ela ser tão desinibida no oferecimento de tais “oportunidades” no
Brasil?
Leandro Fortes lembra que, aqui, “a Decidir.com foi basicamente
financiada pelo Banco Opportunity [i.é, por Daniel Dantas] com um capital de
5 milhões de dólares. Em seguida, transferiu-se, com o nome de Decidir
International Limited, para o escritório do Ctco Building, em Road Town,
Ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas, famoso paraíso fiscal no
Caribe. De lá, a Decidir.com internalizou 10 milhões de reais em ações da
empresa no Brasil, que funcionava no escritório da própria Verônica S”.
VIDRO
O que fica claro na matéria de Fortes é que Serra acusa os outros
conscientemente daquilo que ele próprio faz também conscientemente.
Não se trata de uma projeção, como algumas pessoas bondosas já aventaram.
Para ele, a política é uma cafua subterrânea e trevosa onde somente se pode
vencer pelo golpe – o que não deixa de ser uma confissão involuntária da
própria mediocridade.
Ciente de que tinha esse descomunal telhado de vidro, Serra atirou pedras em
telhados que não são de vidro. Se achou que assim não notariam o seu, ou se
estava julgando os outros pela única medida que conhece - por si mesmo – não
é importante, por serem os dois verdadeiros. Mas é algo que, quando não
destrói os outros, torna-se autodestrutivo. Basta ver a campanha atual – sem
nenhum desdouro para os méritos de Dilma.
CARLOS LOPES