Mídia golpista quer restaurar o esquema
de corrupção tucano
E faz escarcéu em cima dos parentes de Erenice...
A nova campanha da mídia
contra Dilma Rousseff está destinada a expor, mais ainda, o caráter dessa
mídia – e de seu candidato, incapaz de ganhar a eleição, e de aceitar a
derrota com algum decoro.
Há certas coisas que só servem
para criar problemas. A ex-ministra Erenice Guerra, ao não manter longe do
governo os seus parentes, estava incubando alguns desses problemas. É
verdade que, como negociantes (ou, se o leitor quiser, lobistas), esses
parentes eram um fracasso. Não traficavam influência porque não tinham
influência, portanto não havia o que traficar. Mas se meteram com uns
escroques que só por milagre não lhes levaram até as cuecas. O tal Quícoli
saiu de um prontuário policial: ladrão fuleiro, receptador de carga,
falsificador de dinheiro, recém egresso da cadeia, se o sujeito conseguiu
enganar a empresa e o filho de Erenice foi porque, como se dizia, nessa
história só tem malandro-agulha.
Esse vagabundo é a fonte da
“Folha de S. Paulo”, o que bem revela a estatura moral do Otavinho. A outra
fonte, da “Veja”, é um ressentido que se entrega aos inimigos do governo
porque foi demitido – aliás, justamente – da diretoria dos Correios, tio de
um pateta que era sócio do filho de Erenice.
Como não se achou até agora um
centavo que esses moleques – ou o resto da parentada – tenham conseguido
amealhar, a “Veja”, baseada nesse tio, já passou para outra história de cabo
de esquadra. A de uma propina de R$ 200 mil, num envelope de papel pardo,
que apareceu dentro da gaveta do sobrinho, na Casa Civil. Apareceu? Diz a
“Veja” que apareceu – e seria propina pela compra do medicamento Tamiflu,
compra que não passou pela Casa Civil, nem podia passar. A compra foi uma
decisão do ministro da Saúde – sobre o qual esse assessor não tinha nenhuma
influência, aliás, nem há notícia de que o conhecesse.
Além de ser um tráfico de
influência sem influência, mas com geração espontânea de dinheiro, o
escritor pernambucano Urariano Mota fez um cálculo interessante: “Vamos
supor que os 200 mil reais estivessem reunidos em cédulas de maior valor,
todas portanto de 100 reais. Então haveria 2.000 cédulas de 100. O Banco
Central informa que uma cédula de 100 tem as dimensões de 140 x 65
milímetros. Por sua vez, um bom envelope pardo tem as dimensões de 240 x 340
milímetros. Agora tentem enfiar 2.000 cédulas de 100 nesse envelope. Seria
como, numa abstração máxima, enfiar algo próximo a 223 folhas de papel A4
nesse envelope. Ou, se as notinhas de 100 estiverem bem arrumadas, sem
dobrar nem uma, o equivalente a 333 folhas de papel A4. Em um caso ou outro,
não dá. O pobre do envelope pardo se rasga. Notem que estamos supondo que as
cédulas de 100 tenham a mesma espessura de uma folha de papel ofício. Na
verdade, a relação grama por milímetro quadrado da cédula é maior. A não ser
que, para esse escândalo, a Casa da Moeda tenha rodado cédulas de 300 reais
muito mais leves e finíssimas. Nesse caso, o envelope aguentaria. Mas aí,
para a história ser real, a moeda é falsa”.
Os parentes da Erenice só
fizeram arrumar alguma coisa para essa mídia fazer um charivari às vésperas
da eleição. Não vão conseguir aboletar seu candidato no Planalto, mas
reconheçamos que, no esforço de desmontar o maior esquema de corrupção já
visto na história do país – aquele de Serra, Fernando Henrique e caterva –
algumas vezes o atual governo não conseguiu selecionar rigorosamente as
pessoas para certos cargos. É que, realmente, a tarefa era maior do que a
lavagem das estrebarias de Áugias. Seria preciso ter um Hércules em cada
cargo de confiança para fazer a limpeza e não deixar alguma pequena
contaminação para uma segunda rodada.
No governo FH, o escroque
Daniel Dantas, hoje condenado a 10 anos de cadeia, se apropriou das estatais
de telefonia fixa de 9 Estados e do Distrito Federal, mais a Telemig
Celular, mais a Amazônia Celular, mais um terminal de 400km no porto de
Santos, mais o Metrô do Rio, e deve estar faltando muita coisa nessa lista.
O Quícoli não teve protetores no ministério, no BNDES e muito menos na
Presidência. Dançou na primeira armação. Mas Dantas foi acoitado pela
Presidência, ministérios, BNDES, pela copa e cozinha de Fernando Henrique e
outros recessos que os tucanos povoavam.
O sr. Gregório Marin Preciado,
ex-sócio de Serra – casado com uma prima deste - conseguiu que a Previ
sustentasse a Iberdrola para que essa empresa estrangeira tomasse as
estatais de eletricidade da Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Dono de
um edifício onde Serra e sua filha tinham uma empresa, Preciado obteve
empréstimos no Banco do Brasil, não pagou, e sua dívida, R$ 73 milhões, foi
perdoada. Qual o poder de Preciado no governo Fernando Henrique, além de ser
aparentado com Serra?
Tanto nas negociatas de Daniel
Dantas, quanto nas de Preciado, aparece o então diretor da área
internacional do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira, caixa de
campanha de Serra desde 1990.
No início de 2001, o senador
Antonio Carlos Magalhães revelou que recebera informações de que, na
privatização da Telemar, houve uma propina de R$ 90 milhões, arrecadada por
Ricardo Sérgio – que havia articulado a Previ, fundo de pensão do BB, para
sustentar o grupo Jereissati contra Daniel Dantas, que era apoiado pelo
então ministro Mendonça de Barros. Nas gravações do grampo do BNDES,
Mendonça pede a Ricardo Sérgio que sustente Daniel Dantas, obtendo por
resposta, em tom jocoso, “estamos no limite da irresponsabilidade”. O grupo
Jereissati venceu na privatização da Telemar – Ricardo Sérgio havia passado
a perna no colega tucano. Resta saber quem respaldava Ricardo Sérgio.
O governo Fernando Henrique
abafou a denúncia de ACM – ao invés, começou uma campanha contra este, que,
até então, apoiara o governo.
Porém, em 2002, um ex-ministro
(o mesmo Mendonça de Barros) e um ministro (Paulo Renato), hoje serristas de
carteirinha, revelaram que Ricardo Sérgio cobrara propina de Benjamin
Steinbruch pela privatização da Vale do Rio Doce. “Não me lembro se eram
15 milhões de dólares ou de reais. Mas naquele tempo não fazia diferença,
por causa da cotação, que era próxima”, disse Mendonça de Barros sobre a
conversa com Steinbruch, que este jamais desmentiu. Mendonça declarou que
falara a Fernando Henrique sobre o assunto, e que este lhe disse para não se
envolver.
Na privatização da maior
mineradora do mundo, de valor incalculável, por suas imensas reservas,
Ricardo Sérgio jogara os fundos de pensão para sustentar Steinbruch contra
Antonio Ermírio, que estava associado à Anglo-American - mas, depois de
vencido o páreo, o cavalo refugou na hora de pagar a propina. Mas isso não
era a história inteira. Vários executivos envolvidos nas negociações
declararam então à revista Época (edição nº 208, de 13/05/2002) que, na
maior parte, a propina tinha sido paga. Segundo a revista, “Steinbruch
estava convencido de que Ricardo Sérgio falava em nome do PSDB. ‘Ao
descobrir que o dinheiro era embolsado por Ricardo Sérgio e seus amigos,
decidiu que não pagaria nem mais um tostão’, diz esse executivo”.
Quem eram esses “amigos” de
Ricardo Sérgio? Por que Fernando Henrique disse a Mendonça que não se
envolvesse no assunto?
Mas assim foram vendidas 88
estatais. E nós abordamos quase que tão só uma parte das atividades de
Ricardo Sérgio, faltando os prédios que ele adquiriu a preço vil da Petros e
da Previ e a lavagem de dinheiro que operou em bordéis fiscais do Caribe.
E não falamos das atividades
da filha de Serra, acumpliciada com a irmã de Daniel Dantas, nem do prédio
do TRT-SP e a conexão Eduardo Jorge/juiz Lalau, do caso Cacciola, dos rombos
da Sudam e da Sudene ou dos invisíveis computadores da Microsoft, comprados
com dinheiro do Fust.
Perto disso, leitor, as
estrebarias de Áugias são um banheiro de botequim. Mesmo assim, o principal,
a sujeira pesada, o governo atual limpou. O resto é pouco e mais fácil.
CARLOS LOPES