Filho de Martin Luther King, no memorial a seu pai em Washington

“Chega de apoiar bancos. A hora é de resgatar os trabalhadores”

Norte-americanos ocupam as ruas de cidades de leste a oeste exigindo que as riquezas do país passem a contemplar “os 99%”

Com palavras de ordem tais como "Nós somos 99%"; "Imagine o fim da especulação"; "Os bancos não tomarão mais as nossas casas, não roubarão os estudantes, não financiarão a miséria da guerra"; "Chega de poder para os banqueiros, poder para o povo!" e ainda "Aos bancos resgataram, a nós nos venderam", dezenas de milhares de manifestantes levantaram sua voz em manifestações por todo os Estados Unidos, fortalecendo o movimento lançado em 17 de setembro no centro financeiro novaiorquino contra a ganância dos monopólios, a especulação e o desastre que provocam para a imensa maioria dos norte-americanos.

Trabalhadores da indústria, dos transportes, funcionários públicos, professores, desempregados, estudantes, além de lideranças de mais de 15 sindicatos, intelectuais, artistas e aposentados participaram em marchas convocadas nas cidades de Washington, Boston, Filadélfia, Los Angeles, Chicago, Miami, Dallas, e outras centenas de cidades do país. As manifestações contra os monopólios e os banqueiros, e sua tentativa de empurrar o custo da crise para cima da população, saíram das fronteiras dos EUA e se espraiaram pelo mundo inteiro.

"A desigualdade social aumentou tanto nos Estados Unidos que se compara com a situação que existiu há quase um século, antes da chamada Grande Depressão. Depois desses anos todos, nós, os 99% da população, não podemos e não vamos aceitar essa roubalheira. O povo americano está acordando!", afirmou William Coukbourn, do Sindicatos dos Trabalhadores do Transporte (Transport Workers Union - TWU). Segundo o Institute for Policy Studies, os ricos, 1% da população, controlam 39,8% da riqueza e quase 51% das ações, bônus e fundos da nação, num país em que 46 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, 50 milhões não têm seguro médico e o índice de desemprego está acima dos 21%.

Em Nova Iorque, berço do movimento Occuppy Wall Street, a polícia reprimiu com selvageria a manifestação e deteve 24 pessoas que ocuparam uma agência do Citibank. Durante a marcha, os manifestantes sitiaram o banco Chase Manhattan para denunciar as 14 mil pessoas demitidas pela instituição depois desta haver recebido US$ 94,7 bilhões do governo.

O Occuppy Wall Street também participou de uma manifestação em repúdio à invasão americana ao Afeganistão que já completa 10 anos.

"Estou ocupando Wall Street porque o que está em jogo é o meu futuro e o da minha geração" disse Linnea Palmer Paton, estudante da Universidade de Nova Iorque. "Estamos em Times Square para mostrar ao mundo que o poder da gente é uma força incontrolável de mudança mundial. Hoje estamos combatendo contra os ditadores do nosso país (os banqueiros de Wall Street) e estamos ganhando. Até o The New York Times teve que reconhecer", concluiu.

Em Washington, mais de 5 mil manifestantes se concentraram no National Mall, grande avenida da capital, na véspera da inauguração de um monumento dedicado ao líder dos direitos civis, Martin Luther King, assassinado em 1968.

Seu filho, Martin Luther King III, disse à multidão: "o governo resgatou a indústria automotiva. Resgatou Wall Street. Agora é hora de resgatar os trabalhadores americanos. É disto que se trata".

Horas antes, centenas de manifestantes marcharam rumo ao Bank of America, onde pretendiam cancelar suas contas. No entanto, a entrada não foi permitida e o banco fechou rapidamente.

O ator e diretor de Hollywood, Sean Penn, se somou aos artistas como Susan Sarandon, Martin Sheen e Michael Moore que declararam apoio ao movimento Occupy Wall Street. "Aplaudo o espírito do que está acontecendo em Wall Street neste momento", disse Penn ao jornalista Piers Morgan em entrevista à CNN. "Esta geração está começando a dizer ao mundo que não podemos mais ser controlados pelo medo e isto é inegável", acrescentou.

Em Miami, milhares de pessoas protestaram no bulevar Biscayne, em pleno centro da cidade e perto do distrito financeiro.

Entre os manifestantes, majoritariamente americanos, havia muitos de origem hispânica, exibindo cartazes que diziam "O sonho americano virou um pesadelo".

A polícia de Chicago informou no domingo que cerca de 175 manifestantes foram presos em uma praça central onde alguns montaram barracas e sacos de dormir. Os protestos atraíram mais de 5 mil pessoas, que marcharam do Federal Reserve Bank of Chicago até o Grant Park, que também foi palco de protestos contra a guerra durante a Convenção Democrática de 1968.

Um grupo de mais de mil portoriquenhos, denominado Todo Boricua [portoriquenho] Para Wall Street, marchou unido, tocando música tradicional e desfraldando a bandeira Lares, um símbolo de resistência à Espanha colonial. "Os portoriquenhos são parte dos 99%. Continuaremos nos unindo a nossos irmãos e irmãs na ocupação de Wall Street", observou David Galarza Santa, sindicalista de Sunset Park, no Brooklyn. "Estamos aqui para acompanhar os latinos, já que são os banqueiros, os 1% que têm causado essa crise, e seus bancos são os que estão detonando as leis», disse.


Capa
Página 2
Página 3 Página 4