Sarkozy e Merkel temem referendo grego sobre pacote-arrocho do FMI

A decisão de consultar os eleitores foi anunciada pelo premiê da Grécia com o país conflagrado após greve geral de 48 horas, com o povo em frente ao Parlamento aos gritos de “ladrões!”, “traidores!”

O referendo, anunciado pelo primeiro-ministro da Grécia,
George Papandreou, sobre as medidas que a Alemanha e a França querem impor – cortes brutais no orçamento, privatização alucinada, redução selvagem de salários e aposentadorias – em troca de um suposto "deságio" da dívida grega (na verdade, um aumento de até 30% em relação ao valor "de mercado" dos títulos), fez a reação neoliberal e sua mídia, isto é, os porta-vozes dos bancos, chegarem aonde nunca saíram – ao fascismo, ainda que ridículo, ao querer se passar pelo suprassumo da democracia e da salvação das economias.

O anúncio de Papandreou veio depois de uma greve geral de 48 horas, da ocupação de Ministérios e de manifestações de rua. Com o país conflagrado, o governo, na semana passada, cancelou a parada militar do Dia da Pátria, em Tessalônica, segunda maior cidade do país, quando o presidente Karoulos Papoulias foi repelido aos gritos de "traidor, traidor!".

Bem longe da Grécia, Sarkozy, esse paladino da democracia, vociferou contra essa mania de fazer referendo. Ângela Merkel, de dedo em riste, exigiu um recuo de Papandreou. As bolsas caíram e as locutoras da Globo, com indivíduos que pareciam saídos de um hospício (dizem que são "economistas"), lamentaram o caos em que esses gregos jogaram a Europa.

No entanto, a Grécia não é causa de crise alguma. Pelo contrário, é vítima.

Mas que medidas são essas que não admitem qualquer consulta popular, que têm de ser impostas ao povo sem que ele seja, nem ao menos, ouvido?

BANCOS SEM VOTOS

Naturalmente, os banqueiros costumam perder nos referendos, como ocorreu já duas vezes na Islândia, uma na Holanda, uma na Dinamarca e, inclusive, uma na França. Portanto, o povo não pode ser consultado. Isso é o que confessam Sarkozy, Frau Merkel, as trombas do "mercado financeiro", as bolsas e os "comentaristas" de aluguel. Nem falemos daqueles sujeitos que aparecem na TV, lastimando o descomunal poder dos devedores (?!), ou seja, que a Grécia estaria espremendo (?!) a Alemanha, a França e até os EUA.

Nesse suposto noticiário, a única coisa interessante – das que tivemos conhecimento –saiu no The New York Times, perdida numa coluna:

"A decisão de Mr. Papandreou de recorrer a um referendo popular sobre o bailout foi o resultado inevitável da perda de soberania da Grécia para Bruxelas [sede da União Europeia] e para o Fundo Monetário Internacional, disse Jean-Paul Fitoussi, professor de economia no Instituto de Estudos Políticos de Paris. A chanceler Angela Merkel, da Alemanha, e o presidente Nicolas Sarkozy, da França, estavam agindo como se fossem o verdadeiro governo da Grécia, disse ele. ‘É como se os europeus - ou Merkel e Sarkozy sozinhos - acreditassem que estavam controlando o povo da Grécia’, disse Mr. Fitoussi. ‘Mas esta é uma democracia. Na Grécia, e até mesmo na Itália, você não pode esperar governar sem o apoio e consentimento do povo. E você não pode impor um programa de arrocho [Fitoussi usou o inadequado termo ‘austerity’] por uma década a um país, e até mesmo escolher para eles as medidas de arrocho que o país deve implementar" (v. Steven Erlanger, "Austerity Faces Test as Greeks Question Their Ties to Euro", TNYT, 01/11/2011).

Parece óbvio. Mas, segundo Mr. Sarkozy, na reunião do G-20, "cabe ao povo grego decidir se querem continuar a usar o euro. Se as regras do jogo não forem aceitas, nem a União Europeia (UE) nem o FMI irão entregar nem mais um centavo à Grécia. Esse é o único caminho para resolver o problema da dívida grega".

Parece até que ele e o FMI estão fazendo um favor aos gregos em salvar os bancos... franceses. Pois é para isso o dinheiro, do qual a Grécia nem veria a pálida aura: para dar uma sobrevida ao Société Générale, ao Crédit Agricole, e, inclusive, ao Commerzbank, segundo banco alemão, todos afundados nos pacotes de derivativos dos EUA, querendo cobrir o rombo com o couro dos gregos. Essa é a "ajuda" que querem dar aos gregos, esse povo que detesta ser ajudado desde a época em que Xerxes tentou fazê-lo nas Termópilas e em Salamina.

ÁGUA NO CHOPP

Entretanto, no G-20, Frau Merkel declarou, ao lado de Sarkozy, que o referendo "na essência é sobre nada, exceto se a Grécia quer ficar na zona euro - sim ou não?".

O referendo, como disse Papandreou, não é para decidir se a Grécia fica ou não fica na "zona do euro" - ou na União Europeia (nem todos os seus países têm o euro como moeda). O referendo é para decidir se a Grécia aceita, ou não, os ditames dos bancos da Alemanha, França e EUA (via FMI).

Portanto, para Sarkozy e Merkel, a Grécia – ou qualquer outro país - não podem pertencer à zona do euro se não abdicarem da sua independência em prol dos bancos franceses, alemães, e, inclusive, norte-americanos, isto é, sem submeter-se ao tacão dos monopólios financeiros. Do ponto de vista político, não há grande diferença entre esse diktat e os de Hitler – mas esse era menos hipócrita.

Até aqui, o governo Papandreou aplicou caninamente todo o arrocho – demissões massivas, cortes brutais nos salários e aposentadorias, aumento de impostos e privatizações – exigido pelo FMI, Alemanha e França. Esse "plano" já fracassou. A Grécia está no quarto ano seguido de recessão. Não porque não haja outro caminho, como já mostrou a Argentina, quando estava ladeira abaixo, atrelada ao dólar, rompeu, decretou moratória e recuperou a soberania e a economia. Outros exemplos, não faltam.

Segundo dizem jornais europeus, a moratória da Grécia quebraria os bancos franceses e também os italianos. Porém, eles já estão quebrados. A submissão da Grécia talvez adiasse, mas por pouco tempo, essa higiênica limpeza – arruinar-se-ia (mais) um país para manter bancos arruinados, com mais alguns milhões de famintos e mortos de fome.

A crise da dívida europeia é a consequência do dinheiro público que já foi entregue aos bancos. Aumentar essa pilhagem é aumentar a crise. Quanto à solução para a dívida atual dos países, melhor que a "única" de Sarkozy é a proposta de Keynes após a I Guerra Mundial, em situação semelhante: o cancelamento das dívidas (cf. J. M. Keynes, "As Consequências Econômicas da Paz", trad. Sérgio Bath, IPRI, págs. 100, 145, 187, 199 e outras).

Certamente, isso implicaria em mudanças políticas e em nacionalizar os bancos – medida que a França, em época melhor, já realizou. Mas se existe algo seguro é que não há como sair dessa crise sob a pilhagem dos monopólios financeiros.

 ANTONIO PIMENTA

 

 


 

                                          

 


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