“Fora Rodas!” exigem estudantes, funcionários e professores da USP

Após declarar que “Reitoria estava aberta à conversa”, preposto tucano na universidade rompeu a negociação e ordenou ação da polícia
 

O reitor da USP, João Grandino Rodas, é um fenômeno que somente seu patrocinador, José Serra, poderia descobrir – e exumar. O leitor, pouco afeito às atividades acadêmicas, poderia perguntar: o que credenciou esse cinzento cidadão a ser reitor da maior universidade de São Paulo, quiçá do país?

Provavelmente, a sua atuação quando diretor da Faculdade de Direito (a famosa faculdade do Largo de São Francisco). Em agosto de 2007, durante a  Jornada Nacional em Defesa da Educação Pública, estudantes, professores e funcionários realizavam atividades na Faculdade, com a supervisão do então vice-diretor (e atual diretor), Antonio Magalhães Gomes Filho.

O próprio Rodas pediu ao professor Gomes Filho que supervisionasse o evento. No entanto, às duas da madrugada, chamada por Rodas, a PM invadiu a faculdade com 120 soldados, prendeu os participantes e levou-os à delegacia para serem fichados. No dia seguinte, Rodas fechou a faculdade para impedir manifestações contra o seu ato.

Os acontecimentos da madrugada do último dia 8, na USP, foram uma reedição da façanha anterior de Rodas, em versão ampliada. Agora, Rodas garantiu que “a Reitoria está aberta à conversa”, que “a universidade vai fazer o possível para resolver de forma pacífica; o convênio com a PM pode ser aprimorado, o conselho poderá apressar a implantação do policiamento comunitário”, etc. (cf. site da USP, “Sala de Imprensa”).

Estava marcada uma negociação para o dia 9, às 14:30 h, inclusive com o conhecimento da juíza que concedeu a “reintegração de posse” e se dispôs a estender o prazo para a desocupação da reitoria até depois desta reunião. O reitor rompeu a negociação e chamou a polícia. Os 400 homens da PM, chamados por ele, demonstraram a sua abertura e pacifismo, tratando estudantes como se fossem marginais.

As atuais declarações de Rodas sobre a necessidade de policiamento do campus são mero diversionismo. Desde o dia oito, essa discussão está, pelo momento, inteiramente ultrapassada por outra: o fato de um reitor ter chamado a polícia para agredir estudantes. Daí a aprovação da greve geral na USP.

Certamente, os ocupantes da reitoria eram uma minoria e a assembleia dos estudantes desaprovara a ocupação – mas isso somente tornava mais dispensável, e torna mais estúpida, a ação de Rodas.

Por que ele preferiu chamar a PM, em vez de negociar? Porque não foi uma ação apenas contra aqueles estudantes que ocupavam a reitoria. Nem principalmente. Se fosse, já seria uma estupidez. Mas o que houve foi uma tentativa de intimidação, de odor inegavelmente fascista, a todos os estudantes, do tipo que raras vezes se viu mesmo na ditadura.

Quatrocentos PMs, com seus instrumentos de trabalho, para reprimir estudantes. Para que isso? É evidente que o objetivo nada tem a ver com a “segurança” do campus. Pelo contrário. Daí, a palavra de ordem “Fora Rodas!” ter unificado estudantes, através de sua assembleia, funcionários (quatro deles foram presos no dia 8) – através de seu sindicato - e professores.

Durante a ditadura, não foram poucos os diretores de faculdade que se opuseram corajosamente às invasões de suas unidades. A exceção ficou por conta de um maluco, posto na reitoria da Universidade de Brasília. Rodas é um discípulo único desse deprimente predecessor: um reitor que chama a PM para intimidar o conjunto dos estudantes, jogar bombas na moradia universitária (CRUSP) - que não tinha nada a ver com a ocupação da reitoria – e outras proezas lastimáveis.

Que espécie de elemento é este, cuja operosa administração tinha, até então, como feitos principais, a demissão sem aviso de 270 funcionários, o descumprimento de acordos salariais e o aumento em 85% do dinheiro gasto com terceirizações?

Rodas chegou a diretor da Faculdade de Direito sob a proteção de Celso Lafer – aquele ministro das Relações Exteriores de Fernando Henrique, famoso por tirar os sapatos para ser revistado, ao entrar nos EUA. Um professor, presente à reunião da Congregação que elegeu Rodas, descreveu como “constrangedor” e “insólito” o ambiente, em que os apoiadores de Lafer o cumprimentavam efusivamente, esquecendo completamente o eleito, aliás, com razão.

Ao declarar o atual reitor “persona non grata” - por votação de professores, funcionários e estudantes – na Faculdade de Direito, o diretor Gomes Filho, discursando para uma assembleia repleta, afirmou que “tivemos dois diretores aqui que participaram da ditadura, mas nem eles conseguiram o título inédito que concedemos agora ao atual reitor”. Até onde sabemos, é inédito um reitor ser declarado “persona non grata” na sua própria faculdade de origem. E, convenhamos, leitor, a Faculdade de Direito – qualquer uma - jamais foi conhecida por ser um foco de radicalismo...

Rodas era um cortesão de Lafer no Ministério das Relações Exteriores, durante o período mais submisso da História do Brasil. Ele tem um título da Harvard Law School, mais um da The Fletcher School of Law and Diplomacy e outras prebendas indispensáveis aos puxa-sacos de um puxa-saco.

Depois de chamar a PM para atacar os participantes da Jornada Nacional em Defesa da Educação Pública, credenciou-se a ser escolhido reitor por Serra. Mas foi batido nos três escrutínios dos Conselho Universitário e Conselhos Centrais da USP, que definem a lista tríplice que é encaminhada ao governador. Venceu o professor Glaucius Oliva, com 60 votos a mais que Rodas, num colegiado de 330. Serra, para quem essas questões democráticas são de pouca importância, fez uma escolha de acordo com o seu feitio – autoritário, medíocre e sem voto. 

Só de passagem, lembraremos que a pós-graduação de Rodas em “ciências político-econômicas” é da Universidade de Coimbra durante a ditadura salazarista. Certamente, tal fato só pode ser acidental.

ZUZU ANGEL

Porém, seus votos, quando nomeado para a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (1995-2002) são coisa de salazarista. O mais conhecido é o voto contra reconhecer a morte de Zuzu Angel como um assassinato político cometido pela ditadura. Nesse caso, até outros membros da comissão (por exemplo, o tucano Miguel Reale Júnior) que antes votaram contra, mudaram seu voto após o depoimento de uma testemunha ocular, Marcos Pires, e a conclusiva perícia, promovida pelo relator do processo, Luiz Francisco Carvalho Filho, que, também, depois de votar contra, mudou o seu voto. Apesar de todas essas evidências do assassinato - aliás, notório -, Rodas votou pela versão da ditadura.

Zuzu não é caso único. Rodas também votou contra considerar o assassinato do estudante Edson Luiz de Lima Souto um crime da ditadura - apesar de centenas e mesmo milhares de testemunhas. A jornalista Conceição Lemes fez um levantamento dos votos de Rodas (cf. www.viomundo.com.br/denuncias/rodas-deu-uma-maozinha-aos-carrascos-de-zuzu-angel.html). Remetemos o leitor a esta reportagem. Veja se não é um escândalo – sobretudo para quem é reitor da USP.

Apenas mencionemos as investigações do Ministério Público sobre a corrupção na administração de Rodas. Um reitor de uma universidade pública – e não qualquer universidade pública - que, depois de escolhido, manifesta-se contra o ensino gratuito, no mínimo é suspeito. Aliás, a privatização, através de “fundações” privadas e outras ilegalidades, prolifera na USP ao abrigo do magnífico reitor.

A USP tem vários problemas, alguns mais graves, outros menos graves. No entanto, o principal deles é essa criação de Serra: um reitor que quer instituir um regime salazarista numa universidade pública – 26 anos depois de derrubada a ditadura aqui no Brasil e 37 anos depois que esse luminoso sistema medieval foi jogado ao lixo pelos portugueses.

CARLOS LOPES


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