Múlti Chevron trapaceou e não cumpriu plano que apresentou

Instalou só 1 das 2 sapatas (fundação) previstas para o sistema de contenção e vedação do poço 

Em depoimento nesta quarta-feira (30/11) na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, o diretor da Chevron, Luiz Pimenta, admitiu que o projeto de perfuração apresentado às autoridades brasileiras para a exploração do poço de Frade, na Bacia de Campos, foi burlado e não foi cumprido pela empresa. O vazamento de óleo aconteceu porque a empresa americana trapaceou ao não executar o plano dela própria e não colocou uma sapata de cimento para vedar o poço a mais de dois mil metros de profundidade como estava previsto. Essa segunda sapata evitaria que o petróleo sob pressão do reservatório atingido pela broca penetrasse nas camadas superiores da rocha e vazasse para o oceano.

O representante da Chevron foi cobrado pelo deputado Brizola Neto (PDT-RJ) e por outros parlamentares para dar explicações sobre a falta da instalação das duas sapatas e selagens para evitar a subida do óleo. A instalação das sapatas estava no Estudo de Impacto Ambiental apresentado pela empresa ao IBAMA. E o estudo foi elaborado com base nas informações técnicas formuladas para o plano de perfuração entregue pela Chevron à Agência Nacional de Petróleo (ANP). A primeira sapata foi construída a cerca de 1.800 metros de profundidade (e 567 metros abaixo do solo marinho), como previa o plano. Não havia mais nenhuma sapata depois desta. Informações mais detalhadas, inclusive com documentos produzidos pela Chevron, sobre o plano podem ser obtidas no blog “Tijolaço”, do deputado Brizola Neto (www.tijolaco.com).

O diretor da multinacional americana não explicou aos parlamentares por que não havia a segunda sapata situada abaixo daquela - prevista no plano - que seria capaz de sustentar a coluna de tubos de 9 5/8 polegadas e vedar o espaço entre estes tubos e a perfuração de 12 1/4 polegadas. Esta medida impediria a ascensão do petróleo por fora da tubulação. No projeto apresentado pela Chevron, esta sapata estaria situada entre 2.050 a 2.600 metros. A profundidade da broca já estava em 3.329 metros e não havia nem sapata nem vedação. O representante da empresa enrolou e não apresentou argumentos plausíveis para a ausência da segunda sapata e da vedação projetadas por ela mesma e não realizadas no poço que vazou.

A partir desta profundidade, segundo o plano apresentado pela Chevron, a perfuração seria feita com a broca de 8 ½ polegadas, que é o diâmetro convencional da chamada “fase final” de um poço de petróleo, aquela que toca o reservatório subterrâneo de óleo. Esta fase não possui revestimento. No seu depoimento à Comissão de Meio Ambiente, o presidente da Chevron-Brasil, Charles Buck, admitiu que a broca usada no momento do acidente era a de 8 ½ polegadas. Portanto, a profundidade atingida já era tal que exigia a instalação da segunda sapata. Luiz Pimenta ainda tentou argumentar que a aposição de sapatas e de vedações de selo seria feita “depois do poço completado”. Ele foi prontamente contestado pelos presentes à sessão. “O poço só chega ao “alvo” depois de assentada a última sapata e sua vedação”, rebateu o deputado Brizola Neto.

Os parlamentares insistiram no questionamento do por quê da não instalação da segunda sapata e não obtiveram nada da parte do executivo da empresa. O motivo não declarado certamente está na ganância da multinacional que, em busca de superlucros, perfura e extrai óleo rápida e atabalhoadamente, sem a técnica adequada, com equipamentos obsoletos e sem tomar as medidas de segurança necessárias, como disse o governador Sérgio Cabral (ver matéria abaixo). Segundo cálculos de Fernando Brito e Brizola Neto no Tijolaço, uma sapata com esta resistência custa em torno de R$ 1 milhão, o que somado ao tempo de parada na perfuração, em razão dos custos fixos, pode quadruplicar, pelo menos, de valor. Só o aluguel da sonda – mesmo a “mais barata” que utilizaram – é equivalente a cerca de R$ 500 mil por dia e ela não pode perfurar enquanto não se completa a cimentação, espera-se o tempo de “pega” do cimento e se realizam os testes de selagem.

A audiência na Comissão demonstrou que a empresa não fez o que se comprometeu em seu plano para os órgãos brasileiros e revelou também que ANP foi no mínimo relapsa ao não fiscalizar adequadamente a atuação da petroleira americana e ter demorado a se pronunciar sobre o crime ambiental cometido por ela. O deputado Brizola Neto ainda perguntou ao representante da ANP, Rafael Moura, se teria havido alguma mudança do plano da Chevron. Moura confirmou que não havia nenhum outro plano ou registro de mudanças pedido pela empresa no Frade.

Em suma, a petroleira mentiu e burlou seu próprio plano de perfuração. Cometeu um crime. Desrespeitou e enrolou as autoridades brasileiras. Não fez o que prometeu ao IBAMA e à ANP no plano de perfuração que foi avaliado por estes órgãos. A conseqüência foi um desastre ambiental de grandes proporções. Houve um comportamento fraudulento de uma concessionária que explora um bem público. Que, com o acidente, passou dos limites de simples fraude para o de um crime ambiental muito maior do que o admitido por ela.

SÉRGIO CRUZ

 


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