Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás: 

“O vazamento de óleo da Chevron foi desobediência e falha técnica”

Nesta entrevista ao HP, Fernando Siqueira afirma que a multinacional americana “mente, sonega informações, distorce e engana” e ainda “tentou jogar a culpa do vazamento sobre a Petrobrás” 

"As empresas do cartel internacional do petróleo são prescindíveis. A Petrobrás tem que operar sozinha, porque ela compra equipamentos aqui, conhece a tecnologia melhor e respeita nossas leis. Leilão é desnacionalização e não traz qualquer vantagem para nós brasileiros"

 

Hora do Povo - Já faz um mês e a Chevron ainda não conseguiu deter o vazamento em Campo de Frade. Agora foi detectado gás sulfídrico em outro poço. É falta de conhecimento tecnológico ou incompetência mesmo?

FS - Eu acho que é tudo junto. Mais até: displicência, em face da arrogância e o costume arraigado de desrespeitar as Leis dos países em desenvolvimento, além da certeza da impunidade. Todos esses erros resultam de tentativa de economia, “porca”. Agora o Ministério Público manifesta a estranheza da complacência da ANP e do Ibama, cuja fiscalização se baseia apenas nas informações prestadas pelo fiscalizado. E o fiscalizado mente, sonega informações, distorce e engana.

A questão do gás sulfídrico é gravíssima, pois ele é letal, se respirado. E, pior, o trabalhador não o sente ao respirar porque ele é inodoro. Assim, todo teste de poço tem que priorizar a detecção desse gás. A Chevron já produz no campo de Frade há alguns anos. Logo, conhece bem o reservatório. Portanto, outro erro gravíssimo: o desprezo total pela segurança e pela vida dos trabalhadores. É preciso rever todos os contratos com essas empresas pelo bem do Brasil, dos trabalhadores e da segurança nacional.

HP - O presidente da Chevron no Brasil, o americano Georg Buck, faltou ao depoimento marcado pelo Ministério Público Federal, em Campos. Como avalia essa atitude do executivo da companhia norte-americana?

Fernando Siqueira - Eu avalio como um desrespeito intolerável, inaceitável. Aliás, houve uma serie de desrespeitos: 1) a empresa não obedeceu ao projeto de perfuração do poço apresentado para o órgão regulador, a ANP, não instalando a segunda sapata; 2) tentou jogar a culpa na Petrobrás insinuando que o óleo era de Roncador; 3) não apresentou um plano de contingência que mitigasse o acidente; 4) informou uma quantidade de óleo derramado muito abaixo da realidade; 5) editou o filme do ROV, retirando os trechos que a comprometiam. Todas essas violações às regras e à legislação do país são mais que suficientes para que a empresa não tenha mais o direito de continuar operando aqui. Aliás, esse comportamento é típico das empresas do cartel internacional, mormente quando operando em países em desenvolvimento. A Chevron está sendo processada no Equador, por devastação ambiental, só que, lá, a multa é de US$ 20 bilhões. A BP, outra irmã do cartel, fez o que fez em Macondo, no Golfo do México, recentemente.

Todos esses episódios reforçam a nossa campanha pelo fim dos leilões, pois além de não trazerem qualquer vantagem, essas empresas não se submetem ao controle da sociedade onde atuam. Portanto, a Petrobrás, como empresa controlada pelo Governo, tem que operar sozinha, pois se submete às regras do País. Além disto, compra equipamentos aqui, conhece a tecnologia melhor que qualquer outra treina pessoal brasileiro e respeita muito mais as leis do País. Leilão é desnacionalização e entrega do nosso petróleo para quem não nos respeita.

HP - Segundo a PF, a Chevron cometeu dois crimes ambientais, mas só foi multada em R$ 50 milhões pela ANP. Ao mesmo tempo a agência multou a Petrobrás em R$ 84,5 milhões por supostamente ter usado fatores de correção não autorizados na medição total de óleo e gás da plataforma P-50. Dois pesos e duas mediadas?

FS - Isto evidencia a necessidade de fazermos uma campanha pelo fim dos leilões. Senão vejamos, há mais de 25 dias da ocorrência do acidente, até hoje não sabemos que realmente aconteceu. A Chevron mentiu, desinformou, tentou jogar a culpa do vazamento no campo de Roncador, sonegou informações. Agora o seu presidente, Ali Moshiri, de forma arrogante e provocativa disse que a ANP não pode suspender a empresa que trabalha no Brasil há cerca de 100 anos. O que fica claro é que essas empresas do cartel não se submetem ao controle da sociedade onde atuam. Arrasam o meio ambiente (exemplos não faltam: Nigéria, Peru Equador, Golfo do México e até na Amazônia onde trabalharam pelos contratos de risco), desdenham as autoridades, subornam e saem ilesas deixando rastros de destruição. A Petrobrás, que tem controle do governo eleito, portanto, da sociedade brasileira e tem capacidade tecnológica maior para operar com o sucesso o pré-sal, não precisa de parceiros, muito menos de parceiros insubordinados.

HP - Como o avalia o desempenho da Agência Nacional do Petróleo no episódio?

FS - Todas essas agências reguladoras foram criadas no auge do regime do neoliberalismo e seu objetivo era retirar a regulação dos órgãos oficiais e delegar isto para quatro diretores altamente sensíveis às pressões das empresas estrangeiras. A ANP, por exemplo, quando foi criada, o seu primeiro diretor, ao tomar posse, declarou para uma platéia cheia de empresários estrangeiros: “O petróleo agora é vosso”, depois dividiu os blocos a serem leiloados de forma que suas áreas fossem 220 vezes maiores do que a dos blocos licitados no Golfo do México. Pressa pelo entreguismo. A ANP virou lobista dos leilões e da entrega do petróleo.

HP - Por tudo o que aconteceu, inclusive com a admissão que executou um projeto diferente do registrado, a Chevron tem condições de continuar operando no Brasil?

FS - Eu acho que, não só a Chevron, mas todas as empresas do cartel internacional do petróleo são prescindíveis. Além de terem tido o controle sobre essas áreas do pré-sal nos 13 anos dos contratos de risco e não investirem nada, elas não respeitam as nossas leis. O projeto apresentado à ANP não foi executado, provavelmente por economia de tempo e dinheiro e deu no que deu: um vazamento de óleo provocado por desobediência técnica ao que fora estabelecido no projeto, que seria a instalação da segunda sapata e, em seguida, o revestimento com tubo de 9 5/8". Há ainda o risco de terem danificado o reservatório. A Petrobrás não comete este tipo de desobediência e falha técnica. Há ainda a perspectiva de uma produção predatória, por essas empresas, ou seja, na ânsia de resolver seu problema de falta de petróleo, produzir mais do que o reservatório permite.

HP – Após o desastre no Campo de Frade, como ficam os leilões de concessão?

FS - Já defendemos o fim dos leilões há muito tempo, por não trazerem qualquer vantagem para o País. Ao contrário, empresas estrangeiras que não pesquisaram, não correram riscos, não investiram em pesquisas, com os leilões adquiriram o direito de propriedade total sobre o petróleo e uma obrigação de pagar 10% de royalties à União e, eventualmente, 11% de participação especial, tudo em dinheiro. Isto pela lei anterior. Agora, mesmo com os avanços da nova lei de partilha, aplicada ao pré-sal, podem ficar com cerca de 50% do petróleo produzido sem fazer nada, pois a Petrobrás será a operadora de tudo. O petróleo é do Brasil.

VALDO ALBUQUERQUE

 


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