Mantega aplaude rating da Fitch e invasão de dólares   

“Reconhecimento” da “agência de risco” significa saque e depredação do Brasil e da nossa economia

Dizia Machado, “antes cair das nuvens que de um terceiro andar”.

O ministro da Fazenda, desde sua adesão ao neo alguma coisa, prefere ficar nas nuvens e cair do terceiro andar. Se fosse uma preferência pessoal, até que tudo bem. Infelizmente, há o país.

Disse ele, sobre a “elevação” do Brasil no rating da “agência de risco” Fitch Ratings, que “é um reconhecimento de que a economia do país está cada vez mais sólida e confiável”.

Desde quando nós precisamos do “reconhecimento” de um antro de vigaristas, processado em vários países, inclusive em vários estados dos EUA, por fraude e outros crimes financeiros? Desde quando são eles a nos dizer que a nossa economia está assim ou assado, ou que o nosso “PIB potencial” não passa de 4,5%, como fizeram em seu relatório? Desde quando não é um insulto que eles digam, nesse relatório, que “as razões para esta mudança incluem o pagamento e o amadurecimento das reformas estruturais empreendidas na década de 1990, como a privatização de serviços públicos (telecomunicações e energia), que aumentou a eficiência, e a liberalização do comércio”?

DÓLARES

Ou seja, desde quando o ministro da Fazenda de um governo democrático pode saudar as piores catástrofes que já aconteceram no Brasil – e durante o governo tucano - combatidas pela atual presidente durante a sua campanha – e, aliás, durante a sua vida?

Pois foi exatamente isso o que fez a Fitch, e o ministro achou que isso foi um “reconhecimento”. De quê? Da esbórnia tucana?

Que o sr. Tombini diga uma estupidez semelhante, não é algo que espante algum ser vivente. Faz parte da sua natureza.

Porém, Mantega sabe – porque mencionou a questão – que essa “elevação” é uma desgraça para o país, um chamado a uma redobrada invasão dolarizada de bárbaros. O Brasil não ganha nada com isso. Pelo contrário, perde mais ainda do que já está perdendo.

Na segunda-feira, o dólar foi a R$ 1,609 (posteriormente, o Banco Central emitiu uma nota retificando esse número para R$ 1,611, mas faz pouca diferença). O que significa isso? Que a avalanche de dólares que entra no Brasil está hipervalorizando artificialmente o real, tornando mais baratas as mercadorias importadas do que aquelas fabricadas internamente. Portanto, a indústria (e também a agricultura) está sendo espremida por uma tromba de importações.

Em novembro do ano passado, o ex-ministro Delfim Netto afirmou, num evento da Federação de Comércio de São Paulo que “uma coisa é certa: se a demanda interna nos EUA não se recuperou, só lhe resta a saída das exportações e a substituição do petróleo importado por biocombustíveis. Ele vai persegui-la com a desvalorização do dólar. Devemos ‘amarrar os cintos’ e aguentar a competição que vem por aí!”, e, fazendo blague, bem ao seu estilo, o ex-ministro atalhou: “parece que com a taxa de câmbio de R$ 1,60 já podemos importar o etanol de milho dos EUA...” (cf. HP, 23/11/2010).

Hoje, a blague transformou-se em vaticínio: nós já estamos importando etanol de milho dos EUA – e o dólar está exatamente na faixa predita por Delfim.

O ministro Mantega está comemorando, precisamente, mais dólares - e mais desvalorizados – que vão entrar no país, pois não é outra coisa o anúncio da Fitch Ratings. Muito bom para os EUA. Se depender do ministro, brevemente estaremos importando café dos EUA. Produzido no Vietnã ou na Colômbia, com esse câmbio, vamos importá-lo de Nova Iorque ou Nova Orleans.

Enquanto isso, as nossas contas externas estão em perigo: segundo o último boletim da Funcex, em janeiro as exportações aumentaram (em relação ao mesmo mês de 2010) 20,9% em valor, mas apenas 7,7% na quantidade física. Enquanto isso, as importações aumentaram 10,1% em valor, mas 17,1% na quantidade física (cf. Funcex, “Boletim de Comércio Exterior”, ano XV, nº 2).

O que isso quer dizer? Simplesmente que nossa balança comercial está se sustentando devido ao aumento de preço dos produtos primários (+40,1%), isto é, devido a uma bolha especulativa.

A “elevação” no rating da Fitch equivale a colocar no país um cartaz de “carne fresca” e sacudi-lo na frente de uma matilha de predadores, num momento onde boa parte deles já está mordendo a presa. Significa, além da invasão de importações subsidiadas pelo câmbio, ter bilhões achacando ainda mais o Tesouro, ganhando com os juros da dívida pública, e ter bilhões comprando mais e mais empresas e o que der na telha de quem tiver esses dólares.

Mas a única coisa que o sr. Mantega tem a dizer é que “é melhor ter esse problema do que como era no passado, quando faltavam dólares”.

É mesmo? E quando foi isso? Quando é que nós morremos por falta de dólares, e não porque a entrada de dólares cobrou o seu preço na saída? Como se os dólares que entram não fossem para voltar, multiplicados por 10, 100, 1000 ou sabe-se lá quanto...

E nem vamos perguntar por que o ministro acha que temos de ficar pendurados eternamente no dinheiro estrangeiro, e exatamente quando ele é tão somente uma enxurrada de papel com objetivo apenas espoliativo. Mas, por que será que Mantega acha que seu papel como ministro é aceitar uma desgraça só porque acha que existiu no passado outra maior? E nós aqui pensando que o papel de um ministro da Fazenda é fazer o melhor para o país...

OPINIÕES

Não temos o ministro por imbecil, mas, como sabe qualquer um - mesmo que apenas com um grau mediano de informação – se há algo completamente desmoralizado no mundo são as notórias “agências de risco”, aquelas que davam notas excelentes aos papéis que no dia seguinte deixaram os norte-americanos quase de tanga (alguns até sem ela).

No documentário “Inside Job”, os diretores dessas “agências” aparecem no Congresso dos EUA dizendo que suas classificações são apenas “uma opinião” - quando os parlamentares apontam, muito justamente, que a única função dessas classificações é tapear otários e/ou incautos.

Pois o ministro Mantega, que desde 2006 fez uma campanha perfeitamente ridícula pelo “investment grade” dessas agências, acha que merecem pulos de alegria as prebendas da Fitch Ratings (ou de suas duas congêneres, a Moody’s e a Standard & Poor’s).

Na guerra cambial dos EUA contra os demais países, o que não falta a eles é “papel pintado” para virem aqui saquear a nossa economia. Somente em duas superemissões, o Fed (o banco central norte-americano) lançou 2 trilhões e 350 milhões de dólares – não se sabe o total das emissões desde que a crise começou nos EUA, exceto essas duas, que tiveram anúncio oficial.

O que as “agências de risco” fazem é marcar as vítimas para o ataque das piranhas vorazes.

Para o país, não há vantagem alguma, exceto ser descarnado em vida.

CARLOS LOPES
 


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