BC mantém escalada dos juros contra a produção e o emprego

Copom eleva Selic de 11,75% para 12%. Brasil continua com a maior taxa de juros reais do mundo

O Banco Central, através de seu Comitê de Política Monetário (Copom), aumentou pela terceira vez consecutiva a taxa básica de juros. O aumento, de 0,25 pontos percentuais (p.p.) estabelece uma taxa nominal de 12%. Descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses, isso eleva a taxa real para a monstruosidade de 6,2%.

A média das taxas básicas reais de juros dos 40 países economicamente mais importantes do mundo é -0,9% (menos 0,9%). As taxas reais mais próximas à do Brasil são a da Turquia (2,2%) e a da Austrália (2%). Nenhum outro país do mundo tem uma taxa real que chegue a 2%.

A quarta colocada é a da África do Sul (1,7%); a quinta é a da Hungria e do México (1,4%); a sexta é a do Chile (1,1%) - e todos os outros países têm taxas reais inferiores a 1%, a começar pela sétima maior, que é a da China (0,9%), e a maioria tem taxas negativas (entre os 40 países, nada menos do que 27 deles têm juro básico igual a zero ou menor que zero).

Pode ser que apareçam alguns indivíduos achando que 0,25 foi um aumento pequeno, que podia ser pior, etc., etc. Certamente, sempre pode ser pior. Mas essa conversa de trouxas não torna o aumento menos aberrante – e, antes de tudo, é fuga ao que verdadeiramente importa: para que esse aumento de juros, quando a taxa do país já era praticamente o triplo da segunda colocada?

INTERGALÁTICOS

Não há ninguém – pelo menos entre os que pensam - que acredite que esse aumento de juros tem algo a ver com “controle da inflação”. Basta ler a nota do IBGE sobre o IPCA-15, divulgado também na quarta-feira, para perceber que tal crença seria despropositada. O índice da primeira quinzena de abril ficou 0,17 p.p. acima do índice da primeira quinzena de março. Em 12 meses, índice aumentou 0,31 p.p., comparado aos 12 meses anteriores (6,44% a 6,13%).

Se o BC - segundo o qual os aumentos de juros demoram 9 meses para fazer efeito sobre a inflação – elevasse a maior taxa de juros do mundo para combater, daqui a nove meses, uma subida no índice de 0,31 ponto percentual em 12 meses, só nos restaria propugnar pela imediata internação num manicômio (daqueles antigos) dos seus diretores.

Mais ainda porque o aumento do IPCA-15 foi causado pelos preços dos alimentos em função da especulação fora do país (com várias mercadorias - carnes, açúcar, frutas - já com os preços caindo), mas, sobretudo, pelo aumento de preço do etanol (+11,72 p.p.), que também contaminou o preço da gasolina (+3,52 p.p.), com a qual é misturado.

Certamente, o BC não pretende combater a monopolização e desnacionalização na produção do etanol, que levaram aos atuais aumentos de preços, com a elevação dos juros, até porque, nesse caso, ela seria repassada facilmente aos preços (exceto se os juros, mais do que prejudicar o crescimento, levassem a uma paralisia verdadeiramente tucana da economia; mas não são as multinacionais do etanol que serão prejudicadas com esse aumento de juros).

Então, o problema – e não tem importância o que o BC ou a Fazenda dizem - é a velha questão romana: a quem aproveita o crime?

É óbvio, no momento em que, devido aos juros intergaláticos, o país é o principal alvo das invasões de dólares provocada pelas superemissões dos EUA - necessitando, portanto, como disse a nossa presidenta, baixar a taxa de juros para o patamar internacional - a quem isso beneficia.

O professor Yoshiaki Nakano chamou a atual política norte-americana de “guerra cambial”. Com efeito, trata-se de uma guerra cambial contra os outros países. Sucintamente, a estratégia dos EUA é sair da crise às custas dos outros, com emissões e desvalorizações colossais do dólar – oficialmente, foram emitidos US$ 2,3 trilhões, embora tudo indique que o total ultrapassou em muito esse número.

Com juros negativos dentro dos EUA (a taxa básica real está hoje em -2,4%), esses trilhões de dólares invadem países onde os juros estão maiores – e não há país onde estejam maiores do que no Brasil.

Ao entrar nesses países, essa enxurrada de dólares desvalorizados tem como efeito a “valorização”, completamente artificial, das moedas locais. Hoje, devido aos juros altos daqui, não há moeda que esteja mais hipervalorizada por essa invasão de dólares do que o real (cf. o recente estudo da Funcex, baseado numa comparação com as 13 principais moedas do mundo).

O resultado prático é o mesmo que vimos – e sofremos – na época em que Fernando Henrique, orientado por aquele seu pajem, Gustavo Franco, decretaram que 1 real valia 1 dólar: o barateamento das importações em relação aos produtos fabricados internamente, o que inclui as exportações, com o esmagamento de setores produtivos internos.

Os EUA, sem condições de sair da crise pela dinâmica interna de sua economia - pois o consumo foi achatado pelo arrocho salarial imposto desde o governo Reagan, o crédito esbarra no esgotamento da capacidade de endividamento da população e o emprego foi constringido pela transferência de unidades das multinacionais norte-americanas para outros países – procuram emergir da débàcle através do aumento das exportações e da redução das importações. Daí a política de superemissões do dólar, isto é, desvalorizações abissais, e invasão de outros países com esses dólares, para forçar a compra de importações dos EUA e barrar as exportações para os EUA.

Com efeito, isso é uma guerra – cambial, comercial, monetária – dos EUA contra os outros países.

Todos protegeram-se dessa agressão. A principal medida foi baixar os juros, para dissuadir os dólares de invadirem o país. Houve países que tomaram outras providências – é o caso da China que, para defender-se, atrelou a cotação do yuan em função do dólar. Como frisou Keynes na Conferência de Bretton Woods, é imprescindível aos países alguma forma nacional de controle do movimento internacional de capitais. Caso contrário – acrescentamos – deixa-se a porta aberta para o saque e a pilhagem.

O único país que não tomou nenhuma providência (exceto os débeis e inúteis aumentos do IOF do ministro Mantega) é o Brasil. Cada aumento de juros piora a situação do câmbio, açulando a invasão de dólares e, como consequência do barateamento das mercadorias externas, a invasão importacionista.

RECURSOS

Daí, o Brasil é o único país em que a estratégia americana funcionou: de crescentes superávits comerciais com os EUA, que atingiram US$ 9,9 bilhões em 2006 – e, apesar alguma redução nos saldos, continuaram a nosso favor em 2007 e 2008 – o Brasil tem, desde 2009, um déficit comercial crescente com os EUA, que atingiu, em 2010, US$ 7,7 bilhões, o maior de toda a balança comercial brasileira.

Na relação comercial com os EUA, só existe atualmente outro exemplo semelhante no mundo, a Holanda, um país central, mas decadente desde o século XVIII, sem os nossos recursos, cuja importância econômica se resume a ser bordel fiscal para sedes de bancos e multinacionais – e até quando há petróleo, este não faz mais do que causar uma doença (cf. Bureau of Economic Analysis (BEA), US Department of Commerce, “Exports, Imports, and Balance of Goods By Selected Countries and Areas”, February 2011).

Resumindo, no meio de uma guerra cambial, com o nosso país como principal vítima, o aumento de juros do BC equivale ao colaboracionismo com o invasor dentro de um país ocupado. Do ponto de vista econômico – e não somente deste ponto de vista – é exatamente a mesma coisa.

CARLOS LOPES


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