Fiesp: investimento em máquinas e equipamentos cai 7,3% em 2011 

Empresários afirmam em pesquisa que os aumentos dos juros e a invasão de importados limitam os investimentos

A edição de 2011 da “Pesquisa FIESP de Intenção de Investimento”, que consultou 1.220 empresas, mostra que a “manutenção da trajetória de crescimento está bastante comprometida. O investimento industrial, que é predominantemente induzido pela demanda, deverá apresentar redução, contrapondo-se ao período anterior, o que pode ser prejudicial à expansão econômica do país, dada a importância do investimento como fonte de demanda no curto prazo e como garantidor da oferta futura no longo prazo”.

Naturalmente, a demanda (a procura, o consumo) é o principal estimulante para o aumento dos investimentos. Os empresários, mais do que ninguém, sabem disso. Só em cabeças de bagre pode caber que para resolver um – mesmo que suposto - “descompasso” entre a demanda e a oferta, a solução seja reprimir a demanda, isto é, tratar a economia a pauladas de juros altos. Quanto menor a demanda, menor o investimento – e maior o descompasso real entre demanda e oferta.

Diante disso, não é difícil perceber o que valem as crenças do ministro Mantega de que “o Brasil é hoje um país de 4,5%, 5% de crescimento (…) não tem condições de crescer a 7,5%”. A única razão pela qual o Brasil não pode crescer mais do que 4,5% (ou 4% ou 3%, sabe-se lá) é a política de conter o crescimento do ministro: juros altos e câmbio distorcido por esses juros, ao atraírem carradas de dólares vadios, hipervalorizando o real, isto é, barateando as importações em relação à produção interna.

Essa política é também desastrosa quanto a controlar a inflação. Como aponta a FIESP, “é o investimento que garante menores pressões inflacionárias futuras, uma vez que é o principal responsável pela instalação de capacidade produtiva e, portanto, pela garantia de oferta. (…) a ausência de investimentos significa abrir mão de um crescimento futuro sem pressões inflacionárias” (cf. Pesquisa FIESP de Intenção de Investimento 2011, págs. 7 e 11, grifo nosso).

A política de conter o crescimento significa eternizar as pressões inflacionárias, por jamais atacar as suas causas – e assim o crescimento torna-se um voo de galinha, amarrado por aumentos de juros e um câmbio predatório, com o país sempre e sempre ameaçado pela inflação – para que haja outros aumentos de juros e uma invasão cada vez maior de importações, até que as contas externas estourem.

Os resultados da pesquisa da FIESP, divulgados na segunda-feira, são sequelas dessa política:

1) em 2011 os investimentos da indústria de transformação em máquinas, equipamentos, instalações, inovação, gestão, pesquisa e desenvolvimento sofrerão uma retração de 4,7%;

2) se tomarmos exclusivamente os investimentos em máquinas e equipamentos (75% dos investimentos em 2010) essa queda aumenta para 7,3%;

3) a taxa de investimento total da economia somente não cairá se os investimentos do governo e das estatais compensarem a queda na indústria de transformação; supondo um crescimento do PIB de 4% em 2011, se neste ano for realizada ¼ da projeção do BNDES até 2014 (+13% nos investimentos em petróleo e gás; +9% em energia elétrica, telecomunicações, saneamento, ferrovias, rodovias e portos), alcançaríamos a estagnação completa da taxa de investimento: 18,4% do PIB, como no ano passado;

4) apesar dos desembolsos totais do BNDES terem crescido em 2010 (R$ 168,4 bilhões a R$ 136,4 bilhões em 2009), “o desembolso destinado exclusivamente ao investimento da indústria de transformação caiu de R$ 36,2 bilhões para R$ 22,2 bilhões”: somando com os recursos do FINEP, BB e CEF, o financiamento público aos investimentos da indústria de transformação montaram a R$ 29,5 bilhões; para se atingir o resultado acima (queda de 4,7% e estagnação da taxa total de investimento) será necessário aumentar o financiamento público para R$ 37,1 bilhões em 2011.

A edição de 2010 dessa pesquisa acertou inteiramente nos números quanto ao investimento – o que não é surpresa, pois são as próprias empresas que revelam seus projetos para o ano.

Em 2011, o estudo da FIESP observa que a média das taxas de investimento dos países “que mais cresceram em competitividade entre os de renda similar à brasileira” é 24,9% do PIB. A taxa de investimento brasileira é muito baixa, mesmo sem compará-la, por exemplo, à da China (46% do PIB). Tão baixa que, como lembra a FIESP, “a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), lançada pelo Governo Federal em maio de 2008, previa que a taxa de investimento atingisse 21% do PIB em 2010”. Com a entrada da crise no país – aliás, perfeitamente evitável, se não fossem os juros do BC e uma política do BNDES que não concentrou seus recursos no conjunto da indústria nacional - os investimentos, que “vinham em franca expansão e cresciam acima do PIB desde 2003 (…), caíram 23,7%”.

Em seguida, graças aos financiamentos públicos desfechados pelo presidente Lula, os investimentos cresceram – e não pouco. No entanto, “a taxa de investimento atingida em 2010 foi de 18,4% do PIB, se situando, portanto, bastante abaixo da previsão original e das previsões posteriores à crise”.

É evidente que enquanto a taxa de juros estiver no patamar atual será impossível um aumento substancial da taxa de investimento, pela simples razão de que recursos – inclusive parte daqueles de empresas produtivas – são desviados para a especulação sem riscos e sem produção.

O estudo da FIESP diz que “a elevada carga tributária, ao passo que retira recursos que poderiam ser investidos e encarece o investimento, é seu principal limitante. Apesar disso, ganharam bastante importância como limitantes os aumentos da taxa SELIC e a perda de mercado para importados”.

O grifo na parte final está no original da FIESP. Portanto, seus autores conhecem os problemas. A parte inicial corre por conta daquele vício feio, de parte do empresariado, de fugir ao enfrentamento dos problemas reais, propugnando não contribuir para a coletividade – isto é, não pagar impostos. Como isso é inútil – todo mundo sabe que para essa mentalidade qualquer isenção ou renúncia fiscal do governo sempre será insuficiente – o melhor seria mudar de mentalidade. Até porque, como observou o economista Amir Khair, os problemas atuais de carga tributária são função dos juros altos (v. HP, 20/04/2011).

A questão, portanto, são os juros e as importações. A rigor, resumem-se, no essencial, ao primeiro: são os juros altos que atraem cargas de dólares para dentro do país e, com isso, hipervalorizam artificialmente o real, barateando, através desse dumping cambial, as importações.

As empresas nacionais são as mais atingidas por essa pilhagem. Como está no documento da FIESP, “as médias empresas foram as que mais investiram como parcela do faturamento em 2010 e isso deve se repetir em 2011 (…). as médias empresas apresentam a perda de mercado para produtos importados como um dos principais limitantes ao investimento” (grifo do original). As médias empresas constituem, como se sabe, o principal contingente das empresas nacionais.

O problema geral é que “como a demanda doméstica tinha se colocado como eixo dinâmico da expansão, com a desaceleração do investimento, seu principal componente, a economia sofre (…) dificuldade para se expandir no curto prazo”.

Em suma, o mercado interno fica comprometido pela ilusão, manifestada pelo ministro da Fazenda, de que, quando os EUA se recuperarem, tudo estará resolvido - em oposição à presidente Dilma, já em seu discurso logo após o segundo turno: “não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas”.

Como diz o estudo da FIESP, “é necessário que (…) as políticas macroeconômicas não sejam contrapostas à política industrial. (…) a elevação dos juros do começo deste ano, assim como as constantes valorizações cambiais, (…) prejudicam a estruturação de uma economia de crescimento sustentado no longo prazo. A tendência geral deveria ser a do retorno da trajetória declinante dos juros, o que, em conjunto com outras medidas de controle do capital especulativo, seriam extremamente importantes para que o câmbio possibilite que a indústria nacional seja competitiva”.

CARLOS LOPES


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