China e Rússia barram escalada dos EUA contra a Síria na ONU

No Conselho de Segurança os EUA reeditaram as pressões que funcionaram contra a Líbia, mas, com um mês de bombardeio da Otan, não emplacou o humanitarismo à base de Predators e Tomahawks

Rússia e China barraram tentativa dos EUA, Reino Uni- do e França de aprovar uma condenação à Síria no Conselho de Segurança da ONU a ser usada, em seguida, como visto na Líbia, de pretexto para agressão externa. O embaixador russo Alexander Pankin reiterou que os conflitos no país árabe “não representam uma ameaça para a paz e a segurança internacional”, ou a estabilidade regional. O perigo – advertiu ele – está na “intervenção estrangeira apoiando uma só parte, levando a uma incessante onda de violência, que é um convite para uma guerra civil”.

A China – que se abstivera com a Rússia, Brasil, Índia e Alemanha na votação sobre a Líbia -, após a onda de bombardeios da Otan no país africano e mortes de civis, já havia, em declaração do presidente Hu Jintao do dia 31 de março, apoiado negociações pacíficas e repelido a extrapolação do mandato da resolução 1973, a da zona de exclusão aérea. O mesmo critério foi mantido, agora, em relação aos fatos na Síria. Fontes diplomáticas ouvidas por agências de notícias apontaram que “ficou claro desde o início que não havia consenso” contra a Síria. Nem mesmo para uma mais fraca “declaração presidencial” do Conselho de Segurança. E, menos ainda, para uma resolução ou sanções.

Susan Rice, representante dos EUA, buscou reeditar as pressões que funcionaram contra a Líbia, mas desta feita, com um mês de bombardeio da Otan, ficou difícil emplacar o humanitarismo à base de Predators e Tomahawks. O representante da Síria, Bashar Jafari, já havia alertado contra a tomada de resoluções “com base em boatos da mídia”, ao invés de uma investigação independente. Também havia sublinhado as recentes denúncias do “WikiLeaks”, sobre uma TV montada pela CIA para interferir na Síria, pagamentos a mercenários da ordem de US$ 6 milhões e financiamento para operação de uma gang de “ex-membros moderados” da Irmandade Muçulmana”. Bem que Paris e Londres insistiram, mas como descreveu o “New York Times”, “a disposição de intervir na região – forte o bastante para levar a uma ação militar contra a Líbia em circunstâncias similares semanas atrás – parece ter evaporado”.

A Índia manifestou ponto de vista semelhante à China e Rússia, contra a intervenção externa e por negociações, enquanto a representante do Brasil, Maria Luiza Ribeiro Viotti, assinalou que a estabilidade da Síria “é central para a estabilidade regional”. O Líbano se recusou a repetir o papel de peão da votação contra a Líbia, e apoiou a Síria. Como expressou o embaixador Nawaf Salam, que ressaltou as relações especiais com a Síria: “os corações e mentes” do povo libanês estão com o povo sírio e apoiando as reformas do presidente Bashar Assad e o fim do estado de emergência”. Desta vez, a Liga Árabe não emitiu posição – mesmo que à custa de manobra – contra um dos seus integrantes.

Países árabes que viviam sob ditaduras pró-americanas, e submissas a Israel, sofreram levantes populares, para recuperar a dignidade e a auto-estima. Agora, a CIA tenta aproveitar a onda para derrubar regimes nacionalistas que, com deficiências que possam ter, elevaram as condições de vida dos seus povos, nacionalizaram riquezas, fizeram a educação e saúde acessíveis à maioria. Na campanha de mídia, “é tudo ditadura”, a vir abaixo. No caso da Líbia, para o petróleo ser pilhado; no da Síria, para facilitar a vida da ultra-direita em Israel, no momento em que os palestinos se preparam para declarar constituído seu Estado. Como não é “tudo ditadura”, se surpreendem com Kadafi, e com o povo líbio que pega em armas entregues por Kadafi, e com Bashar Al Assad e a Síria que se nega a ser outro protetorado do Pentágono no Oriente Médio.

 “DUPLO PADRÃO”

Na quarta-feira, o subsecretário da ONU para Assuntos Políticos, Lynn Pascoe, apresentou relato sobre a “violência na Síria” com base nos boatos que apareceram na mídia, mas que não conseguiu mudar o isolamento da campanha contra a Síria. Na sexta-feira, os EUA vão voltar à carga, desta vez na Comissão de Direitos Humanos da ONU, com todo aquele gabarito que tem sobre o assunto: Abu Graib, Guantánamo, prisões secretas, waterboarding, Afeganistão. Mas a Síria tem respondido à altura. O embaixador Jafari denunciou o “duplo padrão”: o frenesi com que trataram a situação na Líbia, e a inércia quando se trata dos palestinos e Israel. O último veto contra os palestinos, por parte dos EUA, ocorreu há dois meses.

“Parece-nos muito suspeita a intenção de querer ver que o Estado sírio não protege a seu povo, enquanto há grupos armados que cometem atos de morte e destruição”, denunciou o embaixador Jafari. “O Estado sírio defende a seus cidadãos, os está salvando dos complôs tramados pelos inimigos da Síria com o objetivo de socavar sua posição, sua segurança e sua independência”, apesar da pressão política massiva “que forças do exterior vem exercendo a fim de mudar políticas nacionais de interesse do nosso povo e da nossa nação”, destacou.

                                                                                       ANTONIO PIMENTA


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