Capitulação de Mantega à guerra cambial aumenta vulnerabilidade

Contra crise no EUA, ele promete arrocho fiscal "melhor"

Na segunda-feira, com a Bolsa caindo 8,08%, a única declaração séria do governo veio da presidente Dilma: “repudiamos todas as soluções recessivas porque elas acirram o custo social, transferindo-os para os segmentos menos protegidos, com destruição do emprego e bem-estar”. A presidente denunciou as “depreciações cambiais competitivas que anulam os esforços empreendidos pelos países em desenvolvimento [que] não podem ser escoadouros para os bens e serviços que deixam de ser consumidos nas potências econômicas em crise”.

A Bolsa não é o problema do povo. Somente o sr. Mantega acredita que as pessoas vão deixar de comprar na padaria porque a Bolsa está caindo (literalmente: “se a sangria na Bolsa demorar (…) você tem uma sensação de perda de riqueza, fazendo com que o cidadão deixe de consumir”).

O que faz o cidadão deixar de consumir são piores salários, menos empregos, uma política de freio ao crescimento – aumento dos juros, restrição ao crédito, aos gastos públicos, ao mercado interno e ao investimento. Isto é, exatamente, a política de Mantega.

Já o que aconteceu na Bolsa é sinal que a vulnerabilidade externa está chegando a um ponto crítico. A baderna financeira nos EUA não tem porque causar temores e tremores por aqui. Então, por que está causando? De passagem, isso mostra como foram absurdas as saudações ao acordo da dívida dos EUA – o que ele provocou, mais ainda do que se nenhum acordo fosse alcançado, foi a certeza de que a economia norte-americana vai afundar, com os seus satélites financeiros.

No entanto, não é inelutável que sejamos satélites dos EUA. Então, por que o pânico (assim descreveram as publicações financeiras) da segunda-feira, ainda que seja apenas um sintoma? Mas, sintoma de quê?

De uma invasão especulativa que se intensificou com a guerra cambial dos EUA contra os outros países. O problema é que a política da Fazenda e do BC foi a de se render diante dessa guerra cambial.

Que necessidade tem o país de acolher US$ 669,41 bilhões (v. tabelas) de dinheiro estrangeiro meramente especulativo, parasitário, apenas para pilhar-nos, via juros, o Tesouro e a economia? Pois essa é a nossa situação: em junho, segundo o BC, havia, em papéis, atraído pelos juros elevadíssimos, um “estoque” de US$ 669 bilhões, 417 milhões, 117 mil, 300 reais e 21 centavos.

Esse dilúvio de dinheiro especulativo é uma consequência direta da guerra cambial dos EUA (as “depreciações cambiais competitivas”, a que se referiu a presidente Dilma) - e da rendição completa, total e consumada do sr. Mantega. Os números são bastante claros.

Em 2008, esse estoque era de US$ 287,53 bilhões, já muito alto para o Brasil. Com as superemissões dos EUA, saltou para US$ 561,85 bilhões em 2009, praticamente dobrando em um ano. Em 2010, atingiu US$ 656,28 bilhões; em março de 2011, foi para US$ 687,07 bilhões; com um pequeno decréscimo, em junho estava em US$ 669,41 bilhões - e cresceu outra vez em julho, pois o fluxo cambial para dentro do país, nesse mês, foi de US$ 15,8 bilhões (com US$ 9,6 bilhões por via financeira).

Essa descomunal quantidade de dinheiro especulativo, que hipervalorizou artificialmente o real, fazendo com que um câmbio pseudo-flutuante barateasse as importações e encarecesse a produção interna, foi atraída para dentro do país pelos juros básicos extremamente altos – os maiores de todo o mundo -, estabelecidos pelo BC.

Enquanto isso, o sr. Mantega perfumava essa agressão, justamente condenada pela presidente Dilma, com alíquotas ridículas de IOF e outras fragrâncias falsificadas na zona do meretrício da servidão financeira. Uma encenação escandalosa para não fazer nada.

Além de beneficiar três ou quatro grandes bancos norte-americanos, Mantega tentava tapar com um coador as consequências de sua política de atrair o “investimento direto estrangeiro” (IDE), isto é, de fazer com que empresas nacionais fossem compradas por empresas estrangeiras. Na época, até inventou um termo para essa indigência: “social-desenvolvimentismo”, por oposição ao nacional-desenvolvimentismo que construiu o Brasil como nação industrial e moderna.

O que havia de “social” nessa idiotice apareceu agora, com o sr. Mantega pregando congelamento e mesmo redução de salários reais, para repassar mais dinheiro aos bancos (como disse na segunda-feira: “pedir aumento de salário não adianta, não é hora de gastar, mas de fazer um belo [???] primário, como nós vamos fazer”)

Essa política foi um fracasso. Aumentaram as remessas de lucros para o exterior e as importações (pois as empresas desnacionalizadas, além de remeter lucros, passaram a importar insumos e bens intermediários). Com isso, as contas externas ficaram em perigo – e, além do IDE, o rombo foi coberto com dinheiro especulativo estrangeiro: os dólares desvalorizados que a presidente Dilma denunciou.

Assim, temos hoje US$ 669,41 bilhões saqueando o país, além de US$ 535,97 bilhões em propriedade estrangeira (em 2008, antes da guerra cambial dos EUA, mas quando a desnacionalização já estava mais do que excessiva, esse estoque em propriedade estrangeira montava a US$ 287,70 bilhões). Além dos empréstimos bancários – hoje, sobretudo, dívidas de empresas – que somam US$ 180,91 bilhões.

Portanto, são cômicas – ou seriam, se não fossem uma tentativa de tratar os outros como trouxas – as afirmações de que estamos seguros por causa de nossas abundantes reservas. Essas reservas cobrem apenas metade do estoque de dinheiro especulativo estrangeiro que está dentro do país.

Nas tabelas desta página, usamos o montante das reservas em junho para compará-las com o estoque de dinheiro estrangeiro do mesmo mês – porém, no dia 5 de agosto as reservas atingiram US$ 348,503 bilhões, o que não faz a menor diferença.

Nossa situação é a de termos enxurradas de dólares, fazendo com o país o que o ancilóstoma fazia com o Jeca Tatu, que podem sair a qualquer momento, deixando o país quebrado.

Isso não vai acontecer amanhã, provavelmente. Mas tal situação é insustentável para um país que queira se desenvolver. E há o que fazer para se livrar dessa situação: a primeira é reduzir os juros básicos, o que, aliás, não depende e nada tem a ver com mercado – são estabelecidos pelo governo, através do BC, que é uma autarquia federal. A outra é basear nossa economia realmente no mercado interno e na indústria nacional, o que implica no aumento do poder aquisitivo da população e no financiamento público às empresas genuinamente nacionais.

A continuar do jeito que está, a nossa vulnerabilidade – e, portanto, o perigo – continuarão aumentando. Porém, o ministro da Fazenda aderiu à fé como solução para os problemas econômicos. Tudo é um problema de “acreditar” ou de “confiar”, ou, pior ainda, dos “mercados” confiarem ou acreditarem em alguma coisa. Por exemplo: “eu não acredito que haja um agravamento [da crise]”; “pode ser que tudo isso acabe esta semana ou não haja um agravamento nos próximos dias e os mercados melhorem”; “espero que ela [a crise] não vá adiante”; “eu confio na solidez da moeda americana”; “não acredito em overshooting [disparada do dólar], acredito em uma flutuação relativa do câmbio” (?); “o mercado depende muito da confiança restabelecida”; “tá faltando confiança”.

Parece até que aquilo que ele acredita - ou deixa de acreditar – altera em alguma coisa a realidade. Certamente, poderia alterar, se tivesse algo a ver com essa realidade, isto é, se fosse capaz de conceber alguma política econômica para o país, que não fosse ficar à mercê da especulação norte-americana.

Assim, diz ele: “uma crise é sempre inesperada” (inesperada?); “os EUA vão fazer outro Quantitative Easing [a depreciação cambial através de superemissão de dólares, a que se referiu a presidente], é ruim para nós, mas parece que eles não têm alternativa” (não nos resta mais, portanto, do que conformarmo-nos, como ele fez até agora); “eu prometo um resultado fiscal melhor a cada mês” (mais dinheiro para os bancos e menos gastos do governo nesse momento? Pois é...).

Mas, estimados leitores, há uma novidade: Mantega descobriu, finalmente, que “os países avançados não vão se recuperar tão brevemente, vão demorar para se recuperar”. No entanto, diz ele, “não sabemos qual é a reação do mercado, porque, no passado, a gente já sabia. Era a fuga para a segurança. Hoje, eu pergunto, onde está a segurança?”.

Uai, não estava no Brasil?

CARLOS LOPES



Capa
Página 2
Página 3 Página 4 Página 5 Página 6 Página 7 Página 8