Tombini prega arrocho nos salários e aumento dos juros

Presidente do BC disse que o certo é elevar juros para os especuladores. Cortar salários só interessa às múltis

Desde 2007, o Senado obrigou o presidente do Banco Central (BC) a expor periodicamente suas ações na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) daquela casa legislativa. É uma medida útil, pois é uma oportunidade dos brasileiros conhecerem a que tipo de gente está entregue a política monetária do país – isto é, a administração do nosso dinheiro.

Na terça-feira, o atual presidente do BC, Alexandre Tombini, depois de despejar algumas asnices neoliberais sobre uma série de assuntos que não são da sua alçada, acrescentou mais um: declarou no Senado que, nas negociações salariais do segundo semestre, trabalhadores e empresários devem “olhar mais para a frente do que para trás nessa recente história de inflação” porque “o futuro estará bem encomendado” (deve ser ao modo dos assassinatos por encomenda).

Não é função de Tombini dar palpite sobre salários ou qualquer coisa que não seja política monetária – nem sobre emprego, nem mesmo sobre crédito ou câmbio. Mas o sujeito é tão folgado quanto é mentalmente curto.

Resumindo: “a trajetória de inflação acumulada nos últimos 12 meses estará apontando para baixo”, mas “olhando pelo retrovisor, a inflação estará alta”. Logo, ninguém deve olhar o retrovisor. Se dependesse do BC haveria uma lei obrigando os trabalhadores a usar antolhos. Assim, o poder aquisitivo perdido ficaria perdido para sempre. O futuro será maravilhoso se os trabalhadores esquecerem o que perderam – e olharem a idílica inflação que vem por aí, isto é, a que não existe, tão baixa, que, supõe-se, nem de reajuste os trabalhadores vão precisar.

Em poucas palavras: os salários reais devem ser reduzidos - pois é o que significa não repor a inflação passada.

Tombini não é um sujeito original. Pelo contrário, só consegue olhar pelo retrovisor: foi exatamente isso o que a ditadura fez há 47 anos, promovendo o maior arrocho salarial, até então, da história do país.

Estranhamente, apesar dessa infâmia ter apanhado mais que boi ladrão durante 21 anos – e causar, em 1983, uma revolta popular que teve entre os seus principais líderes um futuro presidente da República – nenhum senador pegou Tombini pelo gasganete (metaforicamente, é claro) por tentar repetir um dos maiores crimes já perpetrados contra o povo brasileiro. No Senado, não há mais um Brossard ou Marcos Freire ou Teotônio Vilela – e o senador Itamar, egresso daquela época, acaba de falecer.

Mas a repetição da ditadura por Tombini é porque seus motivos são os mesmos. E não têm, como nunca tiveram, coisa alguma a ver com a inflação, muito menos com o combate a ela.

Da mesma forma que em 1964, o ataque de hoje aos salários vem logo depois de um intenso processo de desnacionalização da economia – e corresponde, da mesma forma, à tentativa de desnacionalizá-la ainda mais.
Multinacionais são monopólios. Aumentam seus lucros com o rebaixamento do preço da mão de obra, explorando uma faixa estreita do mercado, a que tem maior renda. Elas não dependem, exceto secundariamente, do poder aquisitivo do conjunto da população. Pelo contrário, elas aumentam seus lucros com a concentração de renda - e com o achatamento da renda da maioria.

Por isso, Roberto Campos – o depravado Bob Fields, hoje, provavelmente, dando coices no Inferno – proibiu os aumentos de salários, no primeiro governo da ditadura.

Da mesma forma, Tombini está advogando a redução do salário real porque é o interesse das multinacionais que, devido à política de Gustavo Franco e Mantega, invadiram o país nos últimos anos, comprando empresas nacionais. Além de que, com o desequilíbrio nas contas externas a que levou essa política (pelo aumento estúpido das remessas de lucro e das importações), a atual equipe econômica quer cobrir o rombo com mais desnacionalização, com mais venda de empresas nacionais a empresas estrangeiras, portanto, cobrindo o rombo hoje às custas de aumentá-lo muito mais amanhã.

Não é por acaso que o sr. Mantega, até agora, ficou calado – provavelmente, já esqueceu que, no passado, escreveu contra o suposto caráter inflacionário dos aumentos de salários.

Evidentemente, Tombini não acha a mesma coisa dos juros. Apesar do repasse de mais de R$ 100 bilhões aos bancos somente este ano; apesar dos R$ 219,7 bilhões repassados nos últimos 12 meses; apesar do R$ 1,5 trilhão dos últimos oito anos; apesar dos R$ 3,7 trilhões repassados nos últimos 16 anos, Tombini declarou que “há os ciclos monetários. Estamos num deles, em que a taxa real tem de subir”.

E quando, afinal, os juros vão baixar? Ah, sim, “o Brasil tem perspectivas boas de redução da sua taxa real de equilíbrio (?!) nos próximos anos porque não pode ser “feita uma redução de juros de forma irresponsável”.

O nível atual dos juros é inteiramente irresponsável. E também nada tem a ver com o combate à inflação. Tem a ver com aumentar os ganhos dos bancos às custas do dinheiro público. A rigor, os juros atuais, ao aumentarem os custos das empresas e bloquearem os investimentos, são o fator mais inflacionário da economia – o que só não é inteiramente sentido porque o parque produtivo está sendo destruído por importações subsidiadas pelo câmbio. A atual equipe econômica, exatamente como o tresloucado Gustavo Franco, está promovendo um dumping cambial contra o país.

Por fim, Tombini declarou que “a questão do salário mínimo [em 2012] é um desafio”. Pois não é, não. Existe uma lei e ela tem de ser cumprida. Dizer que “é um desafio” é a mesma coisa que desafiar a lei. Ou ter a intenção de fazê-lo.

CARLOS LOPES


Capa
Página 2
Página 3 Página 4 Página 5 Página 6 Página 7 Página 8