Obama quer cortar gasto social para sobrar mais para as guerras

Bailout e outras infusões do Tesouro no sistema financeiro custaram US$ 23,7 trilhões, mas Obama e a oposição só falam em cortar verba da saúde de idosos e pobres

A discussão no Congresso e no governo dos EUA sobre o limite da dívida – que baterá no teto nos próximos dias – tornou-se uma condensação da decadência econômica, ideológica e política daquele país. A constatação de que Obama aderiu à posição republicana – não exatamente a verdadeira, mas aos conselhos que os neoliberais costumam fornecer aos idiotas – somente serve para frisar essa situação e delinear o futuro próximo nos EUA mais ou menos como a trilha que leva ao abismo.

Não existe na Presidência dos EUA nenhum Abraham Lincoln ou Franklin Delano Roosevelt. A professora Maria da Conceição Tavares disse há alguns meses que “Obama não é um iluminado”. É verdade. Mas não precisava ser tão estúpido.

Desde maio, a dívida dos EUA ultrapassou o limite autorizado pelo Congresso (US$ 14,3 trilhões). No momento, ela já atinge US$ 14,46 trilhões. Sem acordo no Senado – a Câmara já rejeitou o aumento de limite, inclusive com apoio dos democratas – o país caminha para aquilo que a imprensa pró-americana sempre chamou de calote. Os chineses, já há tempos, estão se livrando de seus títulos norte-americanos. Dentro em breve sobrarão alguns patos – infelizmente, neles estamos nós, graças à administração Meirelles/Tombini das reservas monetárias, dirigida pela sábia concepção de que o investimento mais seguro do mundo, mesmo que seja a juros negativos, são os papéis dos EUA...

Enquanto isso, os republicanos exigem cortes de gastos públicos e Obama se submete aos republicanos. Até Paul Krugman, um típico keynesiano imperialista – desses que, se pudessem, retalhariam a China em prol das corporações dos EUA – depois de reclamar que “está ficando cada vez mais difícil confiar nas motivações do presidente Barack Obama na luta em torno do Orçamento, em vista do desvio à direita que seu discurso econômico vem fazendo” e reproduzir o que disse Obama (“O governo precisa começar a viver com os recursos dos quais dispõe, assim como fazem as famílias. Precisamos cortar gastos com os quais não podemos arcar, para colocar a economia sobre uma base mais estável e proporcionar a nossas empresas a confiança de que precisam para crescer e gerar empregos”), comentou:

“São três das falácias econômicas favoritas da direita em apenas duas sentenças. Não, o governo não deve traçar seu Orçamento como fazem as famílias; pelo contrário, tentar equilibrar o Orçamento em tempos de dificuldades econômicas constitui uma receita para aprofundar o declínio. Cortes nos gastos, neste momento, não ‘colocariam a economia sobre uma base mais estável’. Eles reduziriam o crescimento e elevariam o desemprego. E as empresas não estão se contendo porque lhes falte confiança nas políticas do governo, mas porque não têm fregueses suficientes, problema que seria agravado, e não aliviado, por cortes de gastos no curto prazo”.

É verdade, mas o problema da dívida dos EUA existe, por gastar demais no que não interessa ao país, mas apenas à meia dúzia de parasitas trilionários. Então, a questão não é cortar ou gastar, mas: cortar em quê? gastar em quê? Obama e os republicanos querem cortar em algum lugar para gastar em outro, da mesma forma que, no Brasil, o sr. Mantega fez um corte de R$ 50 bilhões no Orçamento para gastar mais com os bancos, pois é isso o que ele chama de “solidez fiscal”.

Entretanto, toda essa discussão nos EUA é um ponto pequeno, ainda que condense um conflito muito mais amplo e geral – isto é, uma crise. Da parte de Obama, a última novidade, depois do desastre no emprego (ou, melhor, no desemprego) constatado pelo relatório divulgado no último dia 8 pelo Bureau of Labor Statistics (BLS) do Departamento do Trabalho, foi sua adesão à teoria do “desemprego estrutural” - em suma, o desemprego atual é causado porque há gente na sociedade que é “inimpregável”, pois a economia americana passou para um estágio pós-industrial, isto é, hoje é uma “economia de serviços”. Indústria e emprego são coisas da China ou da Índia, esses países atrasados.

Os brasileiros conhecem já, em outra versão, essa teoria. Mas, que capachos do tipo Fernando Henrique a repitam como papagaios, não é surpreendente. Mais difícil é conceber o presidente dos EUA, com uma eleição à vista, despejando essa imbecilidade num país que tem 24.820.190 desempregados (v. relatório do BLS) e, se somarmos os subempregados, seu número vai a 35 milhões, isto é, 25% da força de trabalho de 140 milhões de trabalhadores.

Mas, segundo o expoente da tese de Obama - Timothy Geithner, secretário do Tesouro e homem dos bancos de Nova Iorque - o desemprego nos EUA não é um problema, mas uma condição “estrutural”. Não adianta ou não é preciso combater o desemprego, mas cortar os gastos do governo, mesmo à custa do desemprego aumentar ainda mais (e dos salários, que já estão em queda, como mostra o relatório do BLS, diminuírem ainda mais, deixando as empresas com menos fregueses do que os poucos que têm hoje).

Então, em que áreas os republicanos e Obama pretendem cortar? Somente o bailout dos bancos, mais as outras infusões de dinheiro público no sistema financeiro, foram US$ 23,7 trilhões, segundo o então inspetor-geral especial do bailout, Neil Barofsky, número que coincide bastante com um relatório interno do Deutsch Bank, publicado pelo “The Wall Street Journal”.

Mas não é esse tipo de gasto que Obama quer cortar. Nem os gastos com a indústria bélica, o Pentágono ou as agências de terrorismo, espionagem e tortura – um trilhão de dólares a cada ano.

Em entrevista coletiva na manhã da última segunda-feira, Obama esclareceu: quer cortar no Medicare, no Medicaid e na Seguridade Social. Fez menção vaga a corte de gastos na área bélica, mas nem ao menos se deteve no assunto ou voltou a ele. Quanto às outras três áreas, preocupou-se em fundamentar longamente os cortes.

Como, perguntará o leitor? - e estará certo em fazer essa pergunta.

O Medicare (a assistência de saúde aos que têm mais de 64 anos, que são 65,5 milhões de pessoas, e aos doentes renais de qualquer idade) tem uma verba que é a metade do gasto do Pentágono, sem mencionar os outros gastos militares. Os gastos com o Medicaid (assistência de saúde à população com baixa renda) são metade dessa metade, apesar de atender a 45 milhões de norte-americanos – e 50% da sua verba não é federal, mas estadual e municipal. Os gastos com a seguridade social são financiados por uma contribuição direta sobre a folha de pagamento, e não pelo orçamento fiscal do governo.

Todos os três setores, nos EUA, estão em condições tão precárias, que, se comparados aos seus correspondentes no Brasil, os nossos parecem maravilhosos. Nos últimos anos, os gastos não atingiram a dotação orçamentária – ou seja, enquanto cava-se um deficit gastando-se com bancos e com a guerra, faz-se superávit nesses setores, à custa da saúde e seguridade social nos norte-americanos (cf., p. ex., Kimberly Amadeo, “FY 2012 Federal Mandatory Budget”).

Porém, disse Obama, “se você olhar os números, sobretudo do Medicare, em particular, não importa o quanto os impostos subam, nós não vamos conseguir sustentá-lo. Penso que não é opção para nós ficar sentados sem fazer nada”.

Vamos dispensar o resto da arenga de Obama porque ela não é muito diferente do que sempre falaram, aqui, os tucanos. Vamos aos fatos.

A previsão orçamentária do Medicare foi US$ 446 bilhões em 2010 e US$ 488 bilhões em 2011. Os gastos militares (somente os do Pentágono) foram mais de US$ 800 bilhões nos dois anos: gastos inteiramente perdulários, nocivos e, via de regra, sanguinários - como 59 bases militares em outros países, 300 mil soldados em 140 países, centenas de bilhões gastos em ogivas nucleares e mísseis dos mais variados alcances e tipos, tanques de desempenho medíocre, fuzis que funcionam muito bem em ambientes refrigerados e sem poeira, e toda espécie de traquitana que a indústria bélica vende ao governo. É sintomático que Obama se refira a fraudes no Medicare, quando no Pentágono houve fraudes até nas tábuas para vasos sanitários, que ficaram famosas porque custavam US$ 5 mil por unidade.

Desse jeito, não há como esperar outra coisa, senão uma devastação até o próximo ano – por sinal, ano eleitoral. A pior característica de um serviçal, convenhamos, depois do próprio servilismo, é a burrice.
 

CARLOS LOPES

 


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