Centrais sindicais e CNI se unem em defesa da indústria nacional

Câmbio e juros altos “estão causando um dano muito sério ao setor”, denunciam

“A desindustrialização do Brasil é muito grave”, alertaram líderes sindicais dos trabalhadores e empresários, reunidos na quarta-feira (13) na sede na Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília. O encontro reuniu os diretores da CNI e todas as seis centrais sindicais do país. Paulo Pereira (Paulinho), presidente da Força Sindical, disse que o Brasil “terá um déficit no setor de manufaturados de mais de US$ 100 bilhões neste ano”. “Se nada for feito pelo governo para mudar esse cenário os trabalhadores vão começar a agir”, alertou. “Chegará a um ponto em que a gente começará a criar problema nos portos, além de segurar os produtos lá no meio do mar”, completou o sindicalista.

Os representantes dos empresários afirmaram que esperam medidas rápidas da parte do governo contra a desvalorização cambial e os juros altos que “estão causando um dano muito sério à indústria”. “Constatamos aqui, hoje, que os nossos objetivos são os mesmos: fazer o Brasil avançar com empregos de melhor qualidade. Precisamos mostrar para a sociedade que estamos juntos”, disse o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, o anfitrião do encontro. Os empresários e os trabalhadores querem que a Câmara dos Deputados instale uma comissão geral para que possam discutir a crise do setor. Eles pretendem convocar autoridades, entre elas, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, para cobrar medidas em defesa da indústria nacional e dos empregos. Além disso, vão lançar um pacto pela industrialização, reunindo todos os projetos que estão no Legislativo e que propõem medidas de combate à desindustrialização.

Participaram também, além do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical; os deputados Vicente Paulo da Silva (PT-SP) e Sandro Mabel (PR-GO). José Calixto representou a Nova Central e Waldir Ferreira, primeiro tesoureiro da CGTB, falou em nome da central. Estiveram presentes também dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, representando a CUT, além de diretores da CTB e UGT. Waldir Ferreira foi categórico ao dizer que o Ministério da Fazenda precisa parar de “sabotar o crescimento do país” e enfrentar o problema dos juros e do câmbio. Ele alertou que além do importacionismo das multinacionais provocado pelo câmbio atual, está havendo um “aumento da remessa de lucros das empresas estrangeiras que usam o IDE para comprar nossas empresas”.

Ficou acertado que trabalhadores e empresários levarão os problemas à presidente Dilma Rousseff e pedirão a criação da Câmara da Industrialização, para combater a desindustrialização. Além disso, será feita uma mobilização para mostrar aos parlamentares as dificuldades da indústria brasileira e os riscos que isso representa para o emprego. “Vamos pedir ao presidente da Câmara, Marco Maia, a realização de uma comissão geral sobre a desindustrialização. Nesse dia, vamos fazer um abraço no Congresso, com trabalhadores e empresários juntos”, contou o deputado Sandro Mabel. “Também vamos propor um pacto contra a desindustrialização, identificando os projetos em defesa da indústria nacional e colocando todos na pauta de votação”, reforçou Paulinho. Está em tramitação na Câmara Federal o Projeto de Lei 6357/05, de autoria do deputado Vicentinho (PT-SP), obrigando, por exemplo, que 70% das peças dos automóveis sejam produzidas por empresas nacionais. Esta é uma das propostas que deverão entrar em votação como resultado da mobilização.

A proposta de discutir o problema com a presidenta Dilma foi aprovada por unanimidade pelos participantes da reunião. Os sindicalistas e empresários decidiram pedir uma audiência com a presidenta Dilma Rousseff para apresentar a ela um quadro sobre o momento vivido pelo setor e propor a ativação da Câmara da Industrialização. O presidente da CNI, Robson Andrade, afirmou que acredita que a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) que será lançada na próxima semana pelo governo poderá trazer algumas soluções para a crise. “Acredito que devem vir medidas positivas, como a desoneração de investimentos e de exportações. Será um programa de incentivo ao desenvolvimento”.

A CNI apresentou números denunciando que a indústria perdeu participação no PIB: em 1984 a participação era de 35,9%, comparada com atuais 15,8%. A entidade alertou que a indústria vem perdendo espaço na economia nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que, segundo os empresários, “houve queda na participação do emprego e das exportações, ocorreu aumento do coeficiente de importação: de 11,4% em 2000 para 18,7% atualmente”. “Os manufaturados também perderam importância na pauta de exportações do Brasil: se no início da década dos anos 1990 produtos manufaturados correspondiam a 54,2% da pauta (enquanto produtos básicos eram 27,8%), em 2010 a situação inverteu-se, com os produtos básicos passando a compor 44,6% da pauta e manufaturados, 39,4%”, denunciou a CNI.

SÉRGIO CRUZ


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