Jornalista que denunciou grampos de Murdoch é encontrado morto

Segundo o jornal “Guardian”, a polícia considerou a morte de Sean Hoare como “inexplicada”, mas “não suspeita”, mais ou menos o contrário do que todos pensaram – na terra de Sherlock e fora dela

Os legistas da polícia do condado de Hertfordshire, depois de procederem, na última terça-feira, à necrópsia no corpo do repórter Sean Hoare - o primeiro a denunciar as escutas telefônicas ilegais do jornal “News of the World”, da News Corporation, de Rupert Murdoch - ainda não haviam emitido seu relatório quando fechamos esta edição.

Hoare foi encontrado morto no dia anterior, em sua casa na cidade de Watford, Hertfordshire, a 32 quilômetros de Londres.

O repórter, que também trabalhou no “Sun”, outro órgão da imprensa-marrom de Murdoch, revelou que o então editor do “News of the World”, Andy Coulson - em seguida porta-voz do primeiro-ministro conservador David Cameron - não apenas tinha conhecimento da “endemia” de grampos, mas ordenava aos funcionários do jornal que interceptassem mensagens de celular de políticos, personalidades, familiares de vítimas de crimes, parentes de soldados mortos no Afeganistão, para confeccionar matérias escandalosas e/ou sensacionalistas. Quando Sean o denunciou, Andy Coulson ainda era porta-voz do primeiro-ministro, cargo ao qual foi obrigado a renunciar em janeiro.


GRAMPO ENDÊMICO
 

Hoare revelou à BBC que as escutas telefônicas eram “endêmicas” no “News of the World” e Coulson lhe ordenara colocar grampos em telefones. Ao “The New York Times”, o repórter afirmara que condutas ilegais eram muito mais comuns do que a direção do jornal admitiu quando começaram as investigações.

Nos EUA, o procurador-geral, Eric Holder, anunciou que o FBI está investigando grampos da imprensa de Murdoch em familiares de mortos na destruição do World Trade Center em 11 de setembro de 2001.

Nos EUA, Murdoch é proprietário da Dow Jones & Company (que edita o “The Wall Street Journal”), da rede Fox Broadcasting Company (a que pertence a Fox News), do Fox Entertainment Group (inclusive a 20th Century Fox) e do New York Post - jornal que a Columbia Journalism Review, da Universidade de Columbia, definiu como “um problema que está longe de ser meramente jornalístico. Antes de tudo é um problema social – uma força do mal”).

Murdoch, que tem três passaportes (um australiano, outro inglês e outro norte-americano) – portanto, três nacionalidades - se tornou há algum tempo um ídolo para a mídia monopolista, basicamente aquele punhado sem escrúpulos que poderia bem apropriadamente ser chamado de canalha midiática. Não por acaso alguns serviçais, tipo Merval Pereira (ver artigo de José Dirceu na página 3), ou o carcomido Estadão, saíram em sua defesa, apesar do conteúdo dos jornais, revistas e TVs de Murdoch ser tal que faz a antiga revista “Escândalo” - fechada no Brasil em 1962 ou 1963, com apoio do PTB à UDN, e de toda a imprensa - parecer um breviário da ordem franciscana.

Mas esse é exatamente o problema: o monopólio da mídia e do dinheiro (Murdoch é a mídia do esgoto neoliberal) conduz inevitavelmente à degeneração moral e ideológica mais despudorada. Por isso, a sociedade que permiti-lo estará dentro em breve debaixo de sua ditadura ou terá que resolver o problema nem que seja passando-o para a órbita policial, como agora estão fazendo ingleses e norte-americanos.

Isto, se algo ainda sobrar na polícia, pois, no domingo, o escândalo atingiu em cheio a Scotland Yard, com a renúncia de seu chefe, Paul Stephenson, algumas horas depois que o jornal The Telegraph divulgou que ele havia contratado Neil Wallis, editor-adjunto do “News of the World” durante quatro anos, como consultor de relações públicas da polícia. Outro editor do “News of the World” era intérprete da polícia durante interrogatórios, sem deixar sua função no jornal de Murdoch.

O chefe da principal corporação policial inglesa e sua esposa passaram alguns dias em um balneário de luxo, a convite de Neil Wallis. Stephenson engavetou durante quatro anos as evidências contra o “News of the World”. Agentes da Scotland Yard recebiam suborno para que os funcionários de Murdoch tivessem acesso a telefones e até a um livro de anotações da família Windsor, chefiada pela rainha Elizabeth II.

Ainda na semana passada, Sean Hoare denunciara que os jornalistas do tabloide tinham acesso a tecnologia policial para poder localizar pessoas mediante sinais de celular em troca de subornos aos agentes.

SCOTLAND YARD

Após a renúncia de Paul Stephenson, foi a vez de John Yates, sub-chefe da Scotland Yard, apresentar sua demissão. Na semana passada, em depoimento no parlamento, Yates admitiu que demorou oito horas para concluir que “não valia a pena seguir investigando o caso” dos grampos.

No dia 8, o ex-porta-voz do premiê Cameron, Andy Coulson, foi depor no caso dos grampos e ficou preso por 12 horas, saindo sob fiança. No domingo, 17, Rebekah Brooks, diretora da News International, e uma espécie de enteada postiça de Murdoch, além de integrante do círculo íntimo do primeiro-ministro Cameron, foi intimada pela polícia e, diferente de outros tempos, ficou presa por 12 horas depois de depor sobre os grampos. Também foi liberada após pagar fiança. Outros oito jornalistas envolvidos com as atividades criminosas de Murdoch já passaram pela mesma situação.

Segundo o jornal “Guardian”, a polícia de Hertfordshire considerou a morte de Hoare como “inexplicada”, mas “não suspeita”, mais ou menos o contrário do que todos pensaram – na Inglaterra e fora dela.

O líder da oposição trabalhista, Ed Miliband declarou que esperava saber detalhes das discussões do primeiro-ministro com a News Corp sobre a aquisição total da operadora de TV BSkyB, de que Murdoch desistiu na semana passada, depois de uma moção do Parlamento, aprovada por todos os partidos, “sugerindo” a Murdoch que não insistisse agora em comprar o controle total da operadora. Conselho que o veterano mafioso achou mais prudente levar em consideração.



 

SEZÁRIO SILVA

 


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